O ginecologista Dr. Caetano Cardial afirma que a vacina contra o HPV é uma estratégia de prevenção precoce, fundamental para proteger crianças e adolescentes antes do contato com o vírus e reduzir o risco de câncer no futuro
Apesar dos avanços da medicina, a vacina contra o HPV ainda enfrenta resistência entre muitas famílias. Um dos principais motivos é a falsa ideia de que vacinar crianças e adolescentes estimularia a iniciação sexual precoce. Esse pensamento desvia o foco do que realmente importa: estamos falando de prevenção em saúde e de redução do risco de câncer no futuro.
Por que o HPV ainda é visto como “assunto sexual”
O HPV costuma ser associado apenas ao comportamento sexual porque sua principal forma de transmissão ocorre pelo contato íntimo. No entanto, limitar o debate a esse aspecto é simplificar um problema de saúde pública muito mais amplo. O vírus é extremamente comum, afeta homens e mulheres e também pode ser transmitido por contato pele a pele ou pele-mucosa, auto contaminação e, em situações específicas, da mãe para o bebê durante o parto.
Quando a conversa fica restrita ao campo moral ou comportamental, muitas famílias deixam de enxergar a verdadeira importância da vacina. Não se trata de antecipar fases da vida, e sim de proteger crianças e adolescentes antes do contato com o vírus. Essa é a razão de a imunização ser indicada para meninas e meninos entre 9 e 14 anos: nessa fase, a maioria ainda não teve exposição ao HPV e apresenta melhor resposta imunológica.
Vacinar cedo não antecipa nada: é prevenção
Vacinar cedo é uma estratégia biológica e preventiva. Não existe evidência de que receber a vacina influencie o início da vida sexual. O que existe é a oportunidade de evitar infecções futuras e complicações potencialmente graves.
O HPV é altamente prevalente. Estimativas do Ministério da Saúde indicam milhões de brasileiros infectados e centenas de milhares de novos casos por ano. Cerca de 8 em cada 10 pessoas sexualmente ativas terão contato com o vírus em algum momento da vida. Em boa parte dos casos, o organismo elimina a infecção espontaneamente. Porém, quando o vírus persiste, pode causar lesões importantes e aumentar o risco de câncer.
O HPV não está ligado só ao colo do útero
Outro erro frequente é acreditar que o HPV está relacionado apenas ao câncer de colo do útero. Na realidade, ele também pode estar associado a tumores de vulva, vagina, pênis, ânus e orofaringe, além de verrugas genitais. Muitas vezes, a infecção permanece silenciosa, sem sintomas aparentes, o que reforça ainda mais a importância da prevenção.
Também é importante destacar a vacinação masculina. Meninos vacinados hoje serão adultos mais protegidos amanhã e ajudam a reduzir a circulação do vírus. Homens podem transmitir o HPV mesmo sem sinais visíveis da infecção.
Quando há diagnóstico de lesões relacionadas ao vírus, o tratamento varia conforme cada caso e pode incluir medicamentos, cauterização, laser, radiofrequência ou cirurgia. Ainda assim, nenhuma estratégia supera a prevenção por meio da vacinação.
Precisamos mudar a forma como o HPV é apresentado às famílias. Quando o tema é tratado apenas como assunto sexual, perde-se a chance de falar sobre câncer, prevenção e saúde coletiva. Informação correta também protege.
Dr. Caetano Cardial é ginecologista – CRM/SP – 5008 | RQE 16517 | RQE 108107 | RQE 108108
Mestre pela Santa Casa de SP e especialista em Tumores Ginecológicos e Mamários.
Membro da Sociedade Brasileira de Mastologia e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica.



