Domingo de decisão nos Estaduais e os campeonatos dos quatro principais centros estão sendo decididos, em maioria, por times dirigidos por treinadores de fora do país. Não deveria ser tema para debates, eu sei. Mas é. Seis dos oito envolvidos nas finais de Rio, São Paulo, Minas e do Rio Grande Sul são estrangeiros: três portugueses, dois argentinos e um uruguaio. Furam a bolha Tite, do Cruzeiro, e Enderson Moreira, do Novorizontino.
Tudo bem que Leonardo Jardim fará sua estreia justamente no Flu-Fla decisivo, no Maracanã. Mas, para reflexões, não muda muito. Afinal, o português esteve no comando do Cruzeiro até o final do ano passado, deixando o time mineiro em terceiro no Brasileiro. A configuração seria a mesma com Jardim em BH e o recém-demitido Filipe Luís no Rio. Na minha leitura, a pauta sobre a nacionalidade embute relevante discussão sobre pragmatismo.
O site Infobola, do matemático Tristão Garcia, precursor na compilação de dados sobre participação dos times, mostra que seis das oito melhores médias de pontos por partida no Brasileiro são de estrangeiros: quatro portugueses (Jorge Jesus, Artur Jorge, Abel Ferreira e Leonardo Jardim), um catalão (Domènec Torrent) e um argentino (Jorge Sampaoli). Os brasileiros são os ainda jovens Filipe Luís e Rafael Guanaes.
Tudo bem que a análise por este viés é contaminada pelo número de jogos. Mas é bom indicador. A média de Jesus, por exemplo, é de 2,52 pontos por partida em 29 jogos do Flamengo de 2019. Artur tem 2,14 nos 37 do Botafogo de 2024; e Abel registra 1,89 em 211 no Palmeiras desde 2020. Jardim fez 1,84 nos 38 do Cruzeiro de 2025. E a de Sampaoli (1,74 em 117) compila o trabalho por três clubes, de 2019 a 26. Filipe tem 2,06 em 49 jogos do Flamengo, e Guanaes, 1,76 em 38 do Mirassol.
A longevidade em alto nível tem valor igual (ou até superior) à de fenômenos estanques. O 1,89 de Abel em seis anos de Palmeiras é tão impressionante quanto os 2,52 de Jesus em nove meses de Flamengo. Muda só a estética do jogo. E vem daí minha questão sobre a nacionalidade. A maioria dos brasileiros busca plasticidade com elencos apenas medianos. E quem vem de fora prioriza clubes com os melhores jogadores de olho na eficácia dos pontos. Essa diferença nos obriga a um viés distinto na análise dos pontos obtidos pelos técnicos brasileiros.



