Teatro, por Claudia Chaves: “Um dia muito especial”

A adaptação teatral de “Um Dia Muito Especial”, dirigida por Alexandre Reinecke, leva ao palco uma obra cuja força está no encontro entre o íntimo e o político. Baseada no filme de Ettore Scola, lançado em 1977 e eternizado pelas


A adaptação teatral de “Um Dia Muito Especial”, dirigida por Alexandre Reinecke, leva ao palco uma obra cuja força está no encontro entre o íntimo e o político. Baseada no filme de Ettore Scola, lançado em 1977 e eternizado pelas interpretações de Sophia Loren e Marcello Mastroianni, a montagem preserva o núcleo dramático da história: dois personagens aparentemente opostos que, ao se encontrarem por acaso, revelam as fissuras de uma sociedade inteira.

O espetáculo se constrói a partir das três regras do teatro clássico: unidade de tempo — a ação se desenvolve ao longo de um único dia —, unidade de lugar — um apartamento simples em Roma —, e verossimilhança. Essa estrutura permite que a peça revele com clareza as tensões históricas e afetivas que atravessam os personagens.

(./Divulgação)

A história se passa em 6 de maio de 1938, dia do encontro entre Benito Mussolini e Adolf Hitler. Enquanto a cidade se mobiliza para o desfile fascista, a peça escolhe olhar, da janela de um prédio popular, para aquilo que o regime prefere esmagar: as vidas particulares, os pequenos dramas e as dissidências silenciosas.

Nesse espaço vive Antonietta, interpretada por Maria Casadevall. Mãe de seis filhos e dedicada à casa, ela representa o ideal feminino propagado pelo fascismo. Seu vizinho Gabriele, vivido por Reynaldo Gianecchini, ocupa o extremo oposto: demitido da rádio por ser homossexual, ele está prestes a ser preso ou deportado. O encontro entre os dois revela como a opressão política se infiltra também na intimidade.

A direção aposta em gestos simples e cotidianos. Os personagens circulam pelo apartamento, fazem café, atravessam os cômodos. O drama nasce dessas pequenas revelações que aproximam duas solidões: Antonietta, presa a um casamento sem afeto, e Gabriele, marcado por um amor que não pode sequer ser nomeado.

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(./Divulgação)

Quando o encontro entre os dois finalmente se torna físico, ele surge não como escândalo, mas como descoberta. Antonietta experimenta, pela primeira vez, o prazer e a consciência de si mesma como sujeito de desejo. Gabriele encontra ali uma forma inesperada de reconhecimento humano.

No final, Um Dia Muito Especial sugere algo delicado: às vezes não é preciso uma vida inteira para transformar uma existência. Basta que, em meio ao peso da história, alguém tenha a chance de viver — ainda que por poucas horas — um dia verdadeiramente especial.

A conversa com Reynaldo Gianecchini girou em torno da peça, da sua relação com o teatro e dos próximos projetos:

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1- Você faz o mesmo papel que foi de Marcello Mastroianni no cinema. Como carregar essa referência tão forte?

É uma responsabilidade grande trazer para o palco uma história tão bem feita no cinema e tão marcada por Marcello Mastroianni, que é uma referência para mim. Gosto muito da maneira como ele atua, especialmente nesse filme, em que foi ousado numa época em que era preciso falar de muitos temas. Admiro como ele mistura humor e drama, porque acredito que no drama sempre existe humor e no humor sempre existe drama. Ele e Sophia Loren fazem isso muito bem.

2 – Você tem vivido uma fase muito intensa no teatro, com vários trabalhos seguidos e mais distante da televisão. Como tem sido essa concentração nos palcos?

Na verdade, eu sempre fiz muito teatro — nunca deixei de fazer. Talvez isso dê a sensação de que tenho feito mais ultimamente. O teatro é o lugar do ator por excelência: onde ele exercita, ganha ferramentas, tem contato com o público e aprende na prática, todos os dias, na repetição. É a arte da presença, do corpo inteiro e da voz inteira. É um lugar onde quero sempre estar. Vou me apaixonando pelos projetos e tenho certeza de que quero estar sempre no palco.

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3- Como tem sido o seu mergulho nesse personagem e nesse universo tão delicado da peça?

Tem sido um mergulho muito lindo nessa história. Esse personagem me faz rever muitas coisas. Existem questões que me tocam diretamente, como a catarse que ele vive em relação à cobrança sobre a performance do masculino — o que é ser viril, o que se espera de um homem numa sociedade machista, em que muitas vezes não é permitido ser vulnerável ou sensível. Isso é algo que também atravessou a minha vida. Por outro lado, a peça amplia muito a minha visão sobre empatia: olhar o diferente não como ameaça, mas como oportunidade de exercitar o amor, o afeto e a escuta. Estar no teatro todos os dias aprofunda esse olhar.

4 -Depois de Um Dia Muito Especial, quais são seus próximos planos?

Seguimos em turnê pelo Brasil com a peça — provavelmente durante o ano inteiro. Tenho outros projetos de teatro na gaveta, mas ainda não posso falar sobre eles. Também existem trabalhos no audiovisual, que eu adoro, geralmente projetos mais curtos. Posso adiantar que deve haver o lançamento do filme A Arte do Roubo, do diretor Marco Jorge, talvez ainda este ano.

5 -Existe algum personagem que você deseja levar ao palco?

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Não tenho um personagem específico que queira fazer. Claro que existem clássicos maravilhosos, já montados muitas vezes, e eu admiro muito esse repertório. Mas hoje penso mais em personagens contemporâneos, em histórias urgentes — nas coisas que precisamos dizer agora.

Serviço:

Até 29 de março, no Teatro Claro Mais, em Copacabana

Sextas às 20h
Sábados às 20h30
Domingos às 19h30

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Vendas online.

Claudia Chaves
(Arquivo/Arquivo pessoal)

 



Com informações da fonte
https://boletimrj.com.br/teatro-por-claudia-chaves-um-dia-muito-especial/

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