Gosto, aprecio e admiro profundamente os grupos de teatro da Baixada Fluminense. São artistas que, muitas vezes, operam à margem — quase bastardos de um sistema que privilegia jovens com poder aquisitivo para terem formação. Ainda assim, estão lá: criando, transformando, atuando em coletivo e entregando um teatro radicalmente contemporâneo. E, quase sempre, surpreendente.
Foi exatamente essa surpresa que encontrei em “Maldita”, da Cia. Cerne, de São João de Meriti.
Inspirada na Trilogia Tebana de Sófocles — que narra o mito de Édipo e sua descendência — a montagem transforma três tragédias monumentais em uma peça curta que não perde nenhum detalhe essencial. Ao contrário: reinventa tudo.
O que se vê em cena é uma verdadeira féerie popular, que mistura teatro de revista, chanchada, cabaré e teatro clássico com precisão e frescor. Ao combinar diferentes formas performativas, a Cia. Cerne constrói uma narrativa em três capítulos — quase um microsseriado teatral — povoado por uma galeria diversa de personagens.
Continua após a publicidade
Os artistas cantam, dançam, tocam instrumentos e atuam em um uníssono raro, sustentado por um equilíbrio coletivo que impressiona. Há domínio de cena, tempo de comédia e, sobretudo, presença.
Idealizada e encenada por artistas da Baixada Fluminense, a montagem é um acerto em tudo a que se propõe. Maldita é uma realização do Instituto Cultural Cerne, através da Escola Popular de Teatro da Baixada, fruto de processos formativos em Montagem Teatral e Direção de Arte.
Com dramaturgia e direção de Rohan Baruck, o espetáculo reúne 22 atores e atrizes de uma nova geração de artistas baixadenses, que fazem rir, pensam cena e sustentam a narrativa com vigor.
Ao explorar Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona, a peça percorre toda a linhagem de Laio e Édipo com clareza. O caráter didático não empobrece — organiza. Torna acessível sem simplificar.
Continua após a publicidade

Agora, com indicações ao Prêmio APTR e ao Prêmio do Humor, vem o reconhecimento. Mas, na verdade, a vitória já estava dada: fazer esse percurso com coragem, invenção e potência.
Resta a nós dizer o óbvio — e o necessário: sigam. Não desistam jamais. Dionísio está entre vocês.
Entrevista com Rohan Baruck:
Continua após a publicidade
1 -Como nasceu a ideia de transformar a trilogia tebana em cabaré?
O espetáculo nasce de uma pesquisa sobre o Teatro Jovem, que realizo desde 2017. À época, eu dava aulas de teatro para jovens de até 21 anos, no Teatro Municipal Ziembinski, e passei a investigar formas de pensar o teatro para um grande gap de público que temos. Como não soltar a mão do público que sai da infância e não encontra obras que dialoguem com jovens adultos? Maldita nasce após anos de gestação. Maturei a proposta e transformei em um espetáculo maior, em 2022. Em 2025, com a colaboração de atores da Baixada Fluminense, refinamos a obra e a linguagem de encenação. Nunca foi nossa intenção fazer de Maldita um cabaré.
2 -As peças de Sófocles falam de destino, poder e culpa. Como trazer isso para o público de hoje?
“Maldita” nasce também de uma tentativa de desmistificar os clássicos, torná-los mais próximos da nossa realidade. A comédia é um recurso primordial na montagem. A ironia, o deboche e o escárnio são a nossa lente de aumento para desconstruir o clássico. Assim, o público acompanha a complexidade das tragédias com um repertório contemporâneo. O destino, o poder e a culpa sempre estiveram ali. Em Antígona, a comédia vai, aos poucos, cedendo espaço à tensão.”
3 -Vocês sentiram que estavam ‘invadindo’ um território dentro do teatro?
Somos um grupo da periferia do estado, da Baixada Fluminense. Isso, por si só, já é uma invasão da praia teatral. Ainda somos muito associados apenas às nossas próprias vivências. Com Maldita, queríamos fazer um teatro diferente. Queríamos rir — e fazer rir — com pesquisa e desenvolvimento artístico. A comédia também é um campo de estudo, talvez dos mais complexos. Não queríamos ficar só na beirinha da água.
4- Como foi adaptar Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona?
Nos permitimos usar as dramaturgias trágicas como experimento para diferentes linguagens cômicas. Seguimos à risca as tragédias, mas com nossas palavras, nosso jeito. Questionamos a tragédia com bom humor. A reinvenção veio justamente dessa tentativa de entender suas complexidades sob a lente da comédia.
Continua após a publicidade
5 -E agora, o que vem pela frente?
Estamos muito felizes com o sucesso de Maldita. Em pouco mais de um ano, alcançamos mais de 3.000 espectadores, participamos de uma mostra internacional e fomos indicados ao Prêmio do Humor e ao APTR. Estamos encerrando uma temporada no Teatro Municipal Ziembinski com mais de 400 ingressos vendidos antecipadamente. Queremos continuar nossos estudos e criar algo tão subversivo quanto Maldita. Esse segue sendo o caminho.
Serviço:
Teatro Municipal Ziembinski
Sextas e sábados, às 20h
Domingos, às 19h

Com informações da fonte
https://boletimrj.com.br/teatro-por-claudia-chaves-maldita-da-cia-cerne/



