O psiquiatra e neurocientista Dr. Diogo Lara explica por que lembranças emocionais podem mudar e como isso abre caminho para tratamentos mais rápidos e profundos
Nas últimas três décadas, houve grandes avanços na compreensão de como as experiências emocionais são registradas e transformadas no cérebro. Um dos fenômenos centrais nesse campo é a reconsolidação de memórias, processo que redefine a ideia de que recordações consolidadas permaneceriam estáveis ao longo do tempo.
Em 2000, o neurocientista Karim Nader, da Universidade McGill, mostrou que as representações anteriormente consolidadas, ao serem reativadas, ingressam em um estado transitório de instabilidade, tornando-se, então, suscetíveis a modificações, antes de novo armazenamento. Tal evidência empreendeu um novo estilo de pesquisa sobre como conteúdos emocionais poderiam ser atualizados no nível sináptico.
Estudos conduzidos por Joseph LeDoux, em Nova York, e por Daniela Schiller, na Universidade Harvard, aprofundaram a análise dos circuitos relacionados ao medo condicionado. Esses trabalhos indicaram que, quando uma lembrança associada à ameaça é evocada e, no intervalo crítico de instabilidade, ocorre uma experiência incompatível com a expectativa original, há possibilidade de alteração duradoura da resposta emocional.
Na prática clínica, quadros como transtorno de estresse pós-traumático, depressão ou transtornos de ansiedade derivam de registros referentes a experiências passadas que continuam sendo reativadas no presente. O sujeito pode saber, no nível racional, que o perigo não está mais presente, mas o corpo continua a responder como se ainda estivesse diante da mesma contingência inicial.
O que muda quando a memória entra em ‘reconstrução’
Atuar terapeuticamente com a reconsolidação de memórias vai muito além de repensar estratégias cognitivas ou de aumentar repertórios comportamentais. Quando há evocação seguida de uma vivência corretiva que contradiz a expectativa emocional armazenada, ocorre a atualização estruturada da memória original. A mudança é sentida como profunda e real.
Bruce Ecker descreveu esse mecanismo como fundamento de intervenções orientadas à mudança profunda, nas quais a modificação não depende de repetição exaustiva, mas da ativação precisa das redes implícitas, seguida de experiência discrepante. Essa formulação aproxima achados laboratoriais da aplicação clínica.
Como isso chega ao consultório e às pesquisas atuais
Integro esse paradigma à minha atuação como psiquiatra e neurocientista, inclusive em contextos que envolvem substâncias com potencial modulador de plasticidade, como a quetamina em uso supervisionado. Publicações científicas já demonstraram que intervenções farmacológicas podem ampliar janelas de reorganização neural quando associadas a enquadramento psicoterápico estruturado. O foco permanece na modificação das redes neurais e emocionais, não apenas na supressão de sintomas.
A incorporação desse modelo não invalida contribuições anteriores. Abordagens tradicionais seguem oferecendo recursos relevantes em múltiplas situações. Contudo, a manutenção exclusiva de referenciais formulados antes das evidências atuais limita o alcance terapêutico disponível.
Por que a presença do terapeuta faz diferença
Outro aspecto relevante diz respeito à formação profissional. Protocolos baseados em reconsolidação costumam apresentar estrutura objetiva, com carga horária delimitada para aquisição técnica inicial. Ainda assim, a efetividade não depende apenas do domínio procedural. A capacidade do terapeuta de sustentar a regulação autonômica, atenção estável e contato humano consistente influencia diretamente a abertura da janela de plasticidade.
Costumo afirmar que o método organiza o percurso, porém a presença do terapeuta viabiliza a mudança. O sistema nervoso responde não somente a instruções verbais, mas ao contexto relacional no qual a evocação ocorre.
A história da medicina demonstra que transições paradigmáticas encontram resistência antes da consolidação. Com o acúmulo de evidências, integrações tornam-se inevitáveis. No campo da saúde mental, essa inflexão já está em curso.
Podemos honrar o legado dos grandes mestres e, ao mesmo tempo, atualizar a prática à luz do conhecimento disponível. A reconsolidação de memórias constitui um fenômeno experimentalmente muito bem demonstrado em laboratório e na experiência clínica. A responsabilidade atual consiste em tornar isso mais conhecido, para que mais pessoas se beneficiem de avanços rápidos, profundos e seguros, como acontece nas terapias EMDR e Insidelic.
O futuro da psicoterapia dependerá da capacidade de unir evidência neurobiológica, técnica estruturada e presença humana. A integração desses elementos define um novo patamar de cuidado em saúde mental, o que é muito bem-vindo neste momento de ansiedade e instabilidade generalizada na humanidade.
Dr. Diogo Lara – CRM-RS 23886 | RQE 16791
Médico psiquiatra e neurocientista


