O ginecologista Dr. Dani Ejzenberg explica como o congelamento de óvulos pode ampliar escolhas, mas também gerar expectativas irreais sobre idade, carreira e o momento certo de ter filhos
O congelamento de óvulos aumentou as possibilidades de planejamento da maternidade. Ao mesmo tempo, a tecnologia levanta uma nova pergunta: ela representa autonomia reprodutiva ou pode criar expectativas sociais sobre quando e como a mulher deve ter filhos?
Nas últimas duas décadas, o congelamento de óvulos deixou de ser um procedimento restrito a mulheres em tratamento oncológico ou com risco de infertilidade e passou a integrar o debate sobre planejamento reprodutivo. A técnica conhecida como vitrificação permite preservar óvulos em baixíssimas temperaturas, mantendo sua estrutura celular para uso futuro em tratamentos de reprodução assistida.
O avanço tecnológico foi significativo. Desde que a técnica se consolidou, por volta da década de 2010, as taxas de sobrevivência dos óvulos após o descongelamento ultrapassam 90% em muitos centros especializados. Isso transformou o congelamento de óvulos em uma ferramenta cada vez mais considerada por mulheres que desejam adiar a maternidade ou para aquelas que têm dúvidas se terão vontade de ter filhos mais para frente.
Segundo dados da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), o número de ciclos de congelamento de óvulos para preservação da fertilidade cresce de forma consistente em diversos países. No Brasil, clínicas de reprodução também relatam aumento significativo da procura, especialmente entre mulheres na faixa dos 30 anos.
Uma tecnologia que amplia possibilidades
O congelamento de óvulos pode representar uma alternativa importante para mulheres que desejam preservar a possibilidade de gestação no futuro. Isso inclui situações em que a maternidade é adiada por motivos profissionais, pessoais ou por ainda não haver um parceiro com quem se deseja ter filhos.
Do ponto de vista biológico, a fertilidade feminina está diretamente relacionada à idade. A quantidade e a qualidade dos óvulos diminuem progressivamente ao longo dos anos, especialmente a partir dos 35 anos. O congelamento permite preservar os óvulos coletados em uma fase mais jovem da vida reprodutiva, quando as chances de sucesso são maiores.
Por esse motivo, muitos especialistas em reprodução humana consideram a técnica uma forma de ampliar a autonomia reprodutiva feminina.
Entre liberdade e novas expectativas sociais
Ao mesmo tempo em que amplia possibilidades, o congelamento de óvulos também levanta discussões importantes. Em alguns contextos profissionais e sociais, a existência da tecnologia pode gerar a sensação de que a maternidade deve ser adiada indefinidamente, como se a fertilidade pudesse ser completamente “armazenada” para o futuro.
Essa percepção não corresponde totalmente à realidade biológica. Embora seja uma técnica segura e cada vez mais eficiente, o congelamento de óvulos não garante a gravidez no futuro. O sucesso depende de diversos fatores, incluindo a idade da mulher no momento da coleta, o número de óvulos preservados, o potencial reprodutivo do parceiro e as condições de saúde reprodutiva.
Estudos mostram que as chances de nascimento aumentam quando o congelamento é realizado antes dos 35 anos, especialmente quando um número adequado de óvulos é preservado. Ainda assim, trata-se de uma boa possibilidade, mas não de uma garantia.
Decisão precisa ser informada
Por essas razões, especialistas enfatizam que o congelamento de óvulos deve ser sempre resultado de uma decisão individual e bem-informada. Avaliação médica, compreensão das taxas de sucesso e discussão sobre expectativas futuras fazem parte desse processo.
Mais do que uma solução universal, a técnica representa uma ferramenta dentro do planejamento reprodutivo. Para algumas mulheres, ela pode oferecer tranquilidade e ampliar possibilidades. Para outras, pode não ser necessária ou desejada.
A medicina reprodutiva evoluiu muito nas últimas décadas, mas continua lidando com uma realidade complexa: a fertilidade humana depende de fatores biológicos, emocionais e sociais. O congelamento de óvulos não substitui essas dimensões, apenas oferece mais uma opção para que cada mulher possa decidir seu próprio caminho.
Dr. Dani Ejzenberg – CRM 100673
Ginecologista e especialista em Reprodução Assistida na ENNE Clinic
Membro da Brazil Health



