Avanços médicos ampliaram as possibilidades de cirurgia depois dos 60, mas a indicação deve ser individualizada e bem avaliada
O aumento da expectativa de vida trouxe um novo cenário para a neurocirurgia. Cada vez mais idosos chegam aos consultórios com queixas neurológicas que, décadas atrás, raramente eram tratadas com cirurgia. Dores incapacitantes na coluna, tumores cerebrais, hematomas, estenose do canal vertebral e distúrbios de marcha são exemplos de condições que hoje contam com opções de tratamento mais seguras. Ainda assim, a dúvida permanece: operar ou não operar um paciente idoso?
Idade cronológica não é o principal critério
Um dos maiores mitos da neurocirurgia é associar idade avançada à contraindicação cirúrgica. Na prática, a possibilidade de cirurgia não depende apenas da idade cronológica, mas da idade biológica do paciente. Condições como controle de doenças crônicas, capacidade funcional, autonomia, estado cognitivo e suporte familiar pesam muito mais na decisão do que o número de anos vividos.
Hoje, muitos pacientes acima dos 70 ou 80 anos mantêm boa reserva clínica e podem se beneficiar de procedimentos neurocirúrgicos quando bem indicados. Por outro lado, há situações em que o risco supera o benefício, e a melhor conduta é o tratamento conservador. Avaliar esse equilíbrio é parte central da decisão médica.
O que mudou na neurocirurgia para o idoso
Nas últimas décadas, a neurocirurgia passou por avanços significativos. Técnicas minimamente invasivas, cirurgias endoscópicas, melhor controle anestésico e protocolos de recuperação acelerada reduziram o tempo cirúrgico, a perda de sangue e o período de internação. Isso tornou muitos procedimentos mais toleráveis para pacientes idosos.
Além disso, a evolução dos exames de imagem permite diagnósticos mais precisos e planejamento cirúrgico detalhado, diminuindo os riscos intraoperatórios. Em casos como estenose do canal vertebral, hematomas subdurais crônicos ou tumores benignos, a cirurgia pode representar ganho real de qualidade de vida, com melhora da dor, da mobilidade e da independência funcional.
Quando a cirurgia é indicada – e quando não é
A indicação cirúrgica no idoso deve ser clara e bem fundamentada. Situações que comprometem significativamente a qualidade de vida, causam dor refratária, déficits neurológicos progressivos ou risco à vida tendem a justificar a intervenção. Por outro lado, quadros estáveis, assintomáticos ou com alto risco cirúrgico podem ser melhor manejados com acompanhamento clínico, ou seja, sem cirurgia.
O diálogo com o paciente e a família é essencial. Compreender expectativas, esclarecer riscos, benefícios e alternativas faz parte do processo. A decisão não deve ser apressada nem baseada apenas no medo da cirurgia. Em muitos casos, deixar de operar pode significar perda funcional progressiva, dependência e piora do estado geral.
A neurocirurgia no idoso exige experiência, critério e visão global do paciente. Com avaliação individualizada e uso das técnicas atuais, é possível operar com segurança e oferecer não apenas mais tempo de vida, mas mais qualidade. O desafio está em decidir corretamente — nem operar demais, nem negar tratamento quando ele pode fazer diferença real.
Prof. Dr. Baltazar Leão – CRM-MG 44033 | RQE 31846
Neurocirurgião
Professor adjunto do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da UFMG
Doutorado pela Universidade Federal de Minas Gerais
Membro da Brazil Health



