Aplicativos de relacionamento, redes sociais, inteligência artificial: a forma como nos relacionamos romanticamente mudou muito na última década. Justin Garcia, um biólogo evolucionista, decidiu explorar a ciência por trás do amor e da fidelidade em tempos digitais seu novo livro, “The Intimate Animal” (“O animal íntimo”, em tradução livre).
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Garcia é diretor executivo do Instituto Kinsey, um dos mais renomados centros de pesquisa de sexo e relacionamentos, além de consultor científico do Match, um dos principais aplicativos de relacionamento dos Estados Unidos.
Em “O animal íntimo” — que tem o subtítulo “The Science of Sex, Fidelity and Why We Live and Die for Love”, ou “A ciência do sexo, fidelidade e por que vivemos e morremos por amor”, em tradução livre —, Garcia estuda como a intimidade humana evoluiu e como ela se mantém como uma das experiências mais centrais da vida humana, mesmo na contemporaneidade.
Importante notar: para Garcia, a intimidade é uma ligação social e não simplesmente uma outra palavra para sexo.
Juntando histórias pessoais — e de amigos — ao rigor científico, Garcia argumenta que o humano evolui para o que ele chama de “monogamia social”: uma capacidade de formar vínculos profundos e duradouros.
De acordo com Garcia, começamos a nos relacionar em pares há cerca de quatro milhões de anos, em prol da sobrevivência das próximas gerações: “Um dos pais não precisa mais esperar até que o primeiro filho seja mais ou menos autossuficiente para cuidar de outro”, escreve ele.
Relacionamentos contemporâneos: do “cardápio humano” à IA
E hoje? Na era dos aplicativos de relacionamento, Garcia, que trabalha para uma empresa do ramo, diz que a mente humana simplesmente não é capaz de processar tantas informações e que “bilhões de likes diários resultam em uma taxa média de matches inferior a 2%”.
Em entrevista à CNN Portugal, Garcia falou sobre como a disponibilidade dos aplicativos de namoro fez com que as pessoas desvalorizassem suas relações: “Fui a um encontro maravilhoso com aquela pessoa, mas por que ela segurava o garfo daquela maneira? Posso pegar no celular e encontrar alguém que não segure o garfo assim”.
O pesquisador argumenta que todos temos nosso parceiro ideal, e, com os aplicativos de relacionamento, essa pessoa parece ser sempre a próxima: basta apenas continuar a procurar: “Penso que este é um dos grandes problemas nos encontros hoje em dia”.
“Há muitas pessoas à procura de tudo numa só pessoa e que não imaginam um mundo de negociação de diferentes aspetos ou de aprendizagem a partir de uma parceria”, afirma.
A influência da inteligência artificial também é examinada: de acordo com Garcia, cerca de 25% dos solteiros usaram a inteligência artificial com algum fim relacionado a namoro: “Normalmente são coisas como escolher fotografias e sugestões de conversa”.
No entanto, uma outra parcela de pessoas, dentro dessas 25%, utiliza aplicativos em que a IA se transforma em “namorados” — avatares digitais altamente customizáveis (desde o cabelo até a forma dos órgãos sexuais): “Aí que eu fico preocupado”.
“Há muita coisa que acontece nas relações humanas que não penso que, pelo menos ainda, consigamos substituir. Parte disso é a vulnerabilidade. Parte disso é a dinâmica relacional. Numa relação, quer alguém que o ajude, mas também quer ajudar essa pessoa. Quer tornar a vida dela melhor. É por isso que acordamos de manhã, fazemos o café para nossos parceiros ou os aconchegamos à noite”.
Como manter a chama acesa: relacionamentos duradouros
Outro ponto pesquisado por Garcia é sobre como responder a uma velha pergunta: “Como manter a chama acesa?”. Uma das melhores maneiras para ele seria sempre estar fazendo coisas novas juntos: “Não tem de ser algo grande, basta fazer coisas em que se concentrem realmente um no outro e, sobretudo, se introduzir novidade, ajuda o cérebro a sentir-se estimulado por algo novo”.
Outro ponto importante é ser intencional, como os versos de Ana Cristina Cesar dizem: “Se você me ama, por que não se concentra?”. Ou seja, é preciso estar fazendo sempre um esforço consciente. O autor dá o exemplo de um jantar romântico.
“Nos nossos estudos com casais heterossexuais, gays e lésbicos em relações de longa duração, uma das coisas que descobrimos foi que eram mais intencionais. Tínhamos uma lista de coisas; uma delas era acender velas antes de um encontro sexual. Mas não era realmente sobre a vela ou a iluminação ambiente. Era sobre fazer um esforço consciente para se concentrar na relação”.



