Para a dra. Julianne Pessequillo, a IA é aliada no cuidado do idoso, mas o olhar humano, a escuta e a experiência clínica seguem essenciais para decisões seguras e personalizadas
A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa para se tornar uma realidade que avança rapidamente nos sistemas de saúde em todo o mundo. Ferramentas baseadas em algoritmos já auxiliam na interpretação de exames de imagem, na estratificação de risco cardiovascular, na predição de deterioração clínica e na organização de fluxos assistenciais em grandes redes médicas pelo mundo todo – e, no Brasil, não tem sido diferente.
Recentemente, o Conselho Federal de Medicina publicou a primeira resolução específica sobre o uso da IA na prática médica no país, estabelecendo diretrizes claras para sua incorporação.
IA: ferramenta de apoio, não de substituição
A norma reforça um princípio fundamental: a IA deve atuar exclusivamente como suporte à decisão clínica, jamais como substituto do julgamento médico. Determina, ainda, que a responsabilidade por diagnósticos, prognósticos e condutas terapêuticas permanece integralmente com o médico e proíbe a comunicação de diagnósticos ou decisões terapêuticas diretamente ao paciente por sistemas computadorizados, sem mediação humana.
Mas, e na geriatria? Será que isso é benéfico? Embora esta seja uma tendência mundial, na geriatria o cuidado transcende protocolos e exige sensibilidade, experiência e vínculo com o paciente – o que não é possível por meio da automatização.
Complexidade do cuidado ao idoso foge ao padrão
O paciente idoso raramente se apresenta com uma única doença. A multimorbidade, a polifarmácia, as síndromes geriátricas, as fragilidades funcionais e cognitivas e as questões psicossociais compõem um cenário clínico intrincado.
Diferentemente de especialidades centradas em um órgão ou sistema, a geriatria exige avaliação global – funcionalidade, autonomia, suporte familiar, cognição, humor, risco social, expectativa de vida e, sobretudo, valores pessoais.
Limites dos algoritmos e o mundo real
Estudos internacionais demonstram que algoritmos podem alcançar desempenho comparável ao de especialistas em tarefas específicas – como detecção de retinopatia diabética ou identificação de nódulos pulmonares em tomografias. Contudo, tais desempenhos são restritos a contextos controlados e altamente delimitados, pois a base de dados utilizada para treinar algoritmos frequentemente sub-representa idosos muito longevos, frágeis ou institucionalizados – justamente os pacientes mais complexos.
Isso levanta questionamentos sobre vieses e aplicabilidade real dos sistemas nessa população. A IA é eficaz na identificação de padrões; já o cuidado clínico é feito de exceções. Um algoritmo pode estimar risco de queda com base em variáveis objetivas. Mas como quantificar o impacto emocional da perda recente de um cônjuge? Como ponderar a recusa silenciosa de um tratamento que prolonga a vida, mas reduz drasticamente a qualidade dela? Como interpretar a hesitação de um idoso frágil diante de uma hospitalização?
A consulta geriátrica não se resume à tomada de decisão técnica. Ela envolve escuta, construção de confiança, manejo de expectativas de familiares/paciente e, muitas vezes, mediação de conflitos. O momento diagnóstico é frequentemente um momento de elaboração, seja ao abordar um quadro demencial, uma limitação funcional irreversível ou uma doença oncológica em fase avançada.
A comunicação em geriatria é, muitas vezes, tão terapêutica quanto a prescrição médica em si. A forma como se explica uma condição, como se acolhe a angústia e como se orienta a família pode modificar desfechos e a adesão ao tratamento. Nós, geriatras, trabalhamos também, no cuidado diário, com intuição clínica, experiência acumulada e leitura subjetiva do contexto. Há uma dimensão ética e humanística que escapa à lógica estatística proporcionada pela IA.
Futuro da colaboração
Mas nós, geriatras, não estamos negando o potencial da IA, pois sabemos que ela pode auxiliar na revisão de interações medicamentosas, na organização de prontuários extensos e na predição de risco de internação futura. Ferramentas que otimizem o tempo e ampliem a capacidade assistencial serão cada vez mais necessárias com o envelhecimento populacional que vivemos.
E, enquanto o envelhecimento for um fenômeno humano, a relação médico-paciente continuará sendo insubstituível.
Dra. Julianne Pessequillo – CRM 160.834 | RQE 71.895 Geriatra e clínica geral especializada em Longevidade Saudável
Membro da Brazil Health



