N o ano passado, uma denúncia feita à ouvidoria do Ministério Público do Rio expôs o desespero de um morador de Saracuruna, em Duque de Caxias, que assistia, sem poder reagir, à instalação de barricadas pelo tráfico nas ruas próximas de sua casa. Sob anonimato, ele relatou que moradores da região viviam aterrorizados com a presença de bandidos armados, que impunham o medo e erguiam bloqueios feitos de pneus, concreto e ferro.
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“Somos obrigados a descer do carro, retirar a barricada e recolocá-la no lugar para conseguir passar. Eles ameaçaram quebrar braços e pernas de qualquer um que ouse remover os obstáculos”, contou.
A instalação de bloqueios para dificultar a entrada das forças de segurança em áreas dominadas pelo crime é uma prática antiga, que se alastrou pelo estado e se tornou alvo de uma força-tarefa criada pelo governo do Rio em novembro do ano passado. Até agora, mais de sete mil toneladas de material já foram retiradas das ruas. Ainda assim, o problema está longe de uma solução definitiva: apenas nos primeiros 20 dias deste ano, o Disque-Denúncia (2253- 1177) recebeu 720 relatos sobre barricadas.
Prática antiga
Assim que a operação Barricada Zero começou, em 24 de novembro, o Disque-Denúncia também passou a registrar as ligações com informações sobre a recolocação de bloqueios: já foram 128 desde então. Os bairros com mais denúncias são Vigário Geral e Anchieta, na Zona Norte. Já as cidades com mais casos são, além da capital, Duque de Caxias e São Gonçalo.
Ainda que seja considerado um serviço de “enxugar gelo”, diante da persistência das quadrilhas em reerguer os obstáculos, o analista de segurança Alessandro Visacro avalia que a operação de retirada é fundamental para garantir a presença do Estado nessas comunidades.
Segundo ele, essas estruturas representam apenas um “sintoma visível” de problemas mais profundos: a territorialização do crime e o controle armado.
—Esse tipo de prática criminosa tem uma enorme capacidade de regeneração. Dentro do tráfico, um líder morto é rapidamente substituído, e a barricada removida volta para o mesmo lugar. Mas o Estado não tem opção. Não pode simplesmente achar que é enxugar gelo e deixar de agir. Não fazer nada é assumir que está entregando o território ao crime organizado. O desafio é impor um ritmo de repressão mais rápido e em maior volume do que a capacidade de regeneração deles. Não é uma tarefa simples — diz.
Para o analista, no entanto, a polícia não pode focar apenas nessas remoções — é preciso descobrir a origem do material usado nas barricadas e investigar como essas quadrilhas lavam o dinheiro ilícito, a fim de combatê-las. Uma operação da Polícia Civil, no ano passado, mirou a construção das barreiras: um homem foi preso sob suspeita de ser o elo entre o tráfico e ferros-velhos, que forneciam material para fazer os bloqueios.
Uma barra de ferro fincada no meio na Rua Canitar, no Complexo do Alemão
Fabiano Rocha
Antes de iniciar a Barricada Zero, o governo do estado mapeou 13.604 locais com obstáculos colocados pelo crime organizado. Os bloqueios iam desde lixeiras e tonéis até projetos mais complexos, com barras de ferro fincadas no asfalto e valas abertas nas ruas, com o objetivo de controlar a entrada nas comunidades e também dificultar a passagem de veículos da polícia. Pelo menos desde a década de 1990 já há relatos de traficantes “fechando o morro”.
Em 3 de dezembro de 1994, uma reportagem do GLOBO mostrou que o tráfico tinha colocado uma barricada para controlar o acesso ao Dona Marta, em Botafogo, na Zona Sul do Rio.
Para o coronel Marcelo Menezes, secretário da Polícia Militar, a barricada é um dos dois principais pilares do crime para garantir a dominação de territórios no estado, ao lado do emprego de fuzis. Da mesma forma que o uso habitual desse tipo de arma pesada pelo crime no Rio se distancia de qualquer outra região do país, o oficial destaca que as barricadas também colocaram a própria polícia fluminense em um papel inédito: o de ser a primeira força do Brasil a contar com uma unidade específica voltada exclusivamente à demolição dessas estruturas. Essa medida foi tomada depois que as operações passaram a ser prejudicadas pela dificuldade de os agentes entrarem nas favelas.
— Às vezes, chegamos ao local com monitoramento e dados de inteligência sobre um alvo específico. Mas, por causa da barricada, do enfrentamento e da contenção intensa feita pelos marginais, a nossa chegada é retardada, o que permite que eles aumentem a resistência ou ganhem tempo para se esconder na mata, em bunkers, em casas com fundo falso e em túneis. É um desafio — explica ele.
Além disso, Menezes ressalta que as estruturas representam uma ameaça à vida dos policiais.
—Em momentos de crise ou conflito, utilizamos veículos blindados para inserir tropas em áreas conflagradas. Quando nos deparamos com barricadas, os agentes são obrigados a desembarcar do blindado, o que coloca em risco a integridade física da equipe e compromete a operação, já que os criminosos posicionam informantes e grupos de contenção justamente nesses pontos.
Canal Oficial
Desde que a operação Barricada Zero começou, mais de duas mil vias foram liberadas, de acordo com o Gabinete de Segurança Institucional do governo do estado, que coordena as ações. Os agentes estiveram em 166 comunidades em 12 municípios da Região Metropolitana. O órgão não informou, entretanto, quantas barricadas estão mapeadas atualmente nem mesmo quantas foram recolocadas.
Para ampliar os dados sobre vias bloqueadas, o governador Cláudio Castro sancionou há duas semanas uma lei que cria o Disque-Barricada, um canal oficial para receber denúncias. De acordo com o texto, os usuários poderão passar informações por meio de telefone, aplicativo, site eWhatsApp. O denunciante, diz a lei, terá o anonimato garantido. Os canais de comunicação não foram divulgados porque o serviço ainda depende de regulamentação.
Com informações da fonte
https://extra.globo.com/rio/casos-de-policia/noticia/2026/02/governo-ja-retirou-mais-de-sete-mil-toneladas-de-material-em-dois-meses-de-operacao-barricada-zero.ghtml
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