Criado há 60 anos pelo Decreto 609 de 12 de maio de 1966 do então Estado da Guanabara, o Instituto de Geotécnica, atual Fundação Geo-Rio, surgiu em meio à tragédia. Em janeiro daquele ano, um intenso temporal deixou a cidade em estado de calamidade, com um rastro de destruição causado por enchentes e desabamento de encostas, resultando em dezenas de mortes.
No ano seguinte, em 19 fevereiro de 1967, fortes chuvas causaram o deslizamento de uma pedra em Laranjeiras que derrubou dois edifícios nas ruas Belisário Távora e Cristóvão Barcelos e soterrou mais de 100 pessoas. Ao todo, os desastres ocorridos naquela ocasião mataram quase 200 pessoas e deixaram 25 mil desabrigados.
A primeira das obras mais emblemáticas realizadas pelo órgão teve início naquele mesmo ano, a partir de uma descoberta feita por acaso por alpinistas que escalavam a pedra do corte do Cantagalo, na frente voltada para a Lagoa Rodrigo de Freitas. O grupo reparou que, a cada vez que passava pelo local, a fresta entre um enorme bloco de pedra e a rocha ficava maior, o que indicava um risco de desabamento.
Após inspeção do Instituto de Geotécnica, foram iniciadas as obras de contenção, executadas pelo engenheiro e arquiteto Gilberto Augusto Alves de Lima, que integrou o primeiro grupo de profissionais a constituir o quadro técnico do órgão. O projeto consistiu basicamente na construção de quatro pilares atirantados para conter o bloco de pedra. Ao todo, foram consumidos 1.200 m3 de concreto e 3.500 metros de tirantes tipo Freyssinet.
Hoje em dia, é praticamente impossível a construção encravada na rocha passar despercebida pelas pessoas que trafegam pela Avenida Epitácio Pessoa, na Lagoa, no sentido Copacabana.
Boa parte do êxito alcançado pela Fundação Geo-Rio ao longo das décadas seguintes na estabilização de encostas em toda a cidade se deve ao método de construção de cortinas atirantadas desenvolvido pelo engenheiro civil Antônio José da Costa Nunes. O sistema é constituido por uma cortina de concreto para contenção de taludes de terra ancorada por tirantes metálicos.

“Essa técnica, quando analisada sob o ponto de vista estrutural, é muito interessante e tem passado por adequações ao longo desse tempo para outras tecnologias, mas a base de tudo é o que o doutor Costa Nunes escreveu lá atrás. E, realmente, a gente utiliza bastante até hoje essa técnica de cortina atirantada, principalmente quando o solo já sofreu algum tipo de movimentação, já apresenta trincas de tração, essas coisas mais elementares da geotecnia”, explica o presidente da Fundação Geo-Rio, Anderson Marins.
Ao longo dos últimos cinco anos foram investidos R$ 460 milhões em mais de 300 obras realizadas pela Geo-Rio, por meio de verbas municipais e federais, incluindo recursos do PAC das Encostas. Apenas na Zona Norte, os investimentos no período somam R$ 50 milhões.
“Desde 2021, a Fundação Geo-Rio ampliou de forma consistente os investimentos e consolidamos um dos maiores ciclos de intervenções geotécnicas do Rio, sempre com foco em segurança, prevenção e responsabilidade técnica. Seguimos atuando com vistorias, projetos, obras e serviços de manutenção em encostas da cidade. Para se ter uma ideia da grandeza dos números, em toda a cidade, realizamos mais de 300 obras que somam R$ 460 milhões em investimentos nos últimos anos”, destaca Marins.
Vila Cruzeiro recebe reforço estrutural
No Complexo da Penha, foram investidos mais de R$ 32 milhões, com obras concluídas obras nos morros da Paz, do Caracol, Comunidade do Grotão e na Rua do Sossego, entre 2023 e 2024. Entre as obras em andamento, a Vila Cruzeiro recebe reforço estrutural com cortina ancorada e muros de arrimo, enquanto a comunidade Chatuba, no Parque Proletário do Grotão, conta com serviços de revestimento de concreto e vigas estaqueadas.

Ainda na região, o Morro da Caixa D’Água tem duas frentes de obras, sendo uma na Rua do Geraldo. E o Morro do Caracol também passa por intervenções de estabilização e melhorias no sistema de drenagem. Já no Complexo do Alemão, as intervenções representam investimento de mais de R$ 8 milhões.
De 2022 a 2025, o morro dos Mineiros recebeu três obras para reforçar as encostas em diferentes pontos da comunidade. Atualmente, os operários a serviço da Geo-Rio atuam na encosta da Rua do Meio para contenção de riscos. Segundo Marins, o volume de trabalho reflete um planejamento de longo prazo.



