Entenda por que noites bem dormidas protegem a mente, fortalecem a imunidade e regulam o apetite — e como hábitos simples podem transformar sua qualidade de vida.
Nossos antepassados primitivos eram orientados pela luz do sol. Assim que clareava, iniciavam as atividades de caça e coleta de comida para a sobrevivência do grupo familiar.
Antes de escurecer, todos se recolhiam ao abrigo e à proteção das cavernas contra predadores, até que a luz aparecesse novamente.
O ritmo circadiano que nos regula hoje foi, portanto, sincronizado pela luminosidade. É um relógio com mecanismos biológicos e hormonais complexos que se ajusta ao ciclo aproximado de 24 horas, coordenado pelo núcleo supraquiasmático (NSQ), localizado no hipotálamo.
Essa sábia coordenação centralizada garante que processos fisiológicos e hormonais ocorram nos momentos mais adequados para a sobrevivência e a eficiência do organismo.
O NSQ recebe informações sobre a luminosidade por meio de células da retina, distinguindo entre dia e noite. A partir desses sinais, o cérebro regula a produção de hormônios essenciais, como a melatonina — principal indutor do sono, produzida pela glândula pineal no escuro; qualquer tipo de luminosidade — LED, telas, luz da rua etc. — suprime sua produção — e o cortisol, associado aos estados de alerta e à disposição física diurna, ajudando a manter a regularidade do ciclo sono-vigília.
Para entender melhor, imagine que a luminosidade funciona como o botão de ajuste diário de um cronômetro. Sem o sol da manhã para zerar o cronômetro, nosso relógio interno começaria a rodar confuso e desajustado. A luz é o sinal que garante que todos os sistemas do corpo — da digestão à imunidade — saibam exatamente quando devem começar e encerrar seu expediente, cada um desempenhando bem a sua função para que o outro possa executar a sua.
A luz elétrica, como a conhecemos, é muito recente na história da humanidade. Alguns de nossos avós ainda viveram com lampiões e velas para iluminar o caminho e as casas — e os apagavam quando sua utilidade terminava.
Neurotransmissores como acetilcolina, serotonina, noradrenalina e GABA fazem a ponte entre o sono e a regulação emocional, modulando as fases do sono e respostas afetivas na amígdala e no córtex pré-frontal. A privação ou a má qualidade do sono desequilibra esses sistemas, gerando desconforto emocional, físico e psíquico, reduzindo a capacidade imunológica e deixando a porta aberta para diversas enfermidades.
O sono se divide em quatro estágios que se repetem de 4 a 6 vezes por noite:
N1 e N2 (Sono leve): transição e relaxamento; o corpo passa cerca de metade da noite aqui. N3 (Sono profundo): momento de reparo físico, secreção do hormônio do crescimento (GH) e restauração da imunidade.
REM (Movimento Rápido dos Olhos): atividade cerebral intensa, com sonhos. Essencial para a memória, o aprendizado, a regulação emocional, a recalibração e a “limpeza” do organismo.
Para facilitar a compreensão, imagine que o ciclo do sono é como o processo de desligamento e manutenção de um computador complexo. O estágio N1 é como colocar a máquina em modo de espera; o N2 é o fechamento de programas em segundo plano; o N3 (sono profundo) é quando o sistema realiza reparos físicos no hardware; e o REM é o momento em que o computador organiza os arquivos, limpa o cache e salva as informações importantes no disco rígido para que tudo funcione perfeitamente no dia seguinte.
Impactos da privação de sono
A falta de sono de qualidade gera uma “cacofonia” biológica com consequências graves:
Saúde mental/ansiedade e depressão: aumenta a reatividade da amígdala (estresse) e reduz a capacidade do córtex pré-frontal de regular emoções, favorecendo ansiedade e depressão (entre 50% e 80% dos pacientes psiquiátricos relatam problemas com sono, contra 10% a 18% na população geral). A falta de sono desregula a serotonina e o cortisol, intensificando ruminação, ideação suicida e recaídas depressivas. Essa bidirecionalidade forma um ciclo: a ansiedade causa insônia, que por sua vez eleva o risco de sofrimento psíquico em até 65% a 90% dos casos analisados. A saúde mental, principalmente em jovens, é uma das maiores preocupações de pais, professores e profissionais de saúde, devido ao aumento significativo nos últimos anos.
Limpeza cerebral: durante o sono, o líquido cefalorraquidiano remove toxinas (como a proteína beta-amiloide, ligada ao Alzheimer), recalibra e “limpa” o organismo. Sem sono, o “lixo” metabólico se acumula.
Metabolismo e fome: o corpo está biologicamente programado para processar alimentos de forma mais eficaz durante o dia (crononutrição), apresentando menor eficiência metabólica à noite. O ciclo também regula a grelina (que estimula a fome) e a leptina e o GLP-1 (que promovem a saciedade). A privação de sono desorganiza esse equilíbrio, aumentando a grelina e reduzindo os sinais de saciedade. É como se um carro, mesmo com o tanque cheio, parasse em todos os postos para reabastecer.
Hormônio do crescimento (GH): sua secreção está fortemente vinculada ao sono profundo (estágio N3), sendo vital para o desenvolvimento e a reparação física.
Imunidade: há redução de células de defesa (natural killer) e de anticorpos como linfócitos T, deixando o organismo mais vulnerável a infecções e inflamações crônicas.
O sono desempenha um papel fundamental na manutenção da saúde cerebral, atuando como um período de “limpeza” biológica que ocorre quase exclusivamente enquanto dormimos. Esse processo é essencial para garantir o equilíbrio (homeostase) dos neurônios e de todo o sistema nervoso central.
Diversas fontes e estudos comprovam que a má qualidade do sono é um dos principais pontos que ligam o estilo de vida moderno ao aumento do sofrimento psíquico, impactando fortemente a saúde mental da população.
Noites mal dormidas enfraquecem a capacidade de regular emoções, criando um ciclo vicioso de vulnerabilidade psicológica e distúrbios mentais, além de desregular o funcionamento de hormônios, moduladores e neurotransmissores, como acetilcolina, serotonina, noradrenalina e GABA, além de melatonina e cortisol já mencionados.
Doenças crônicas: a privação do sono compromete o sistema imunológico ao desregular tanto a produção de células de defesa quanto a resposta inflamatória do organismo, tornando-o mais vulnerável a agressões externas e doenças crônicas. Diabetes, câncer, doenças vasculares e autoimunes vêm aumentando sistematicamente junto com a queda na qualidade do sono da população.
Para facilitar a compreensão, podemos imaginar o ritmo circadiano como uma grande orquestra. O núcleo supraquiasmático é o maestro que, ao perceber a luz do dia, dá o sinal para que cada “instrumento” (órgãos e hormônios) toque sua partitura no tempo certo: o cortisol começa a melodia do alerta, a digestão entra em seu ritmo mais forte e a imunidade prepara seus solos de defesa. Se o maestro perde o tempo ou a iluminação do palco falha, os músicos começam a tocar fora de sincronia, gerando uma cacofonia que prejudica a harmonia de todo o espetáculo biológico. Por isso, o sono deve ser tratado como fundamental para a saúde de todo o organismo:
Algumas medidas de prevenção e hábitos saudáveis
O sono adequado, de 7 a 9 horas por noite, fortalece a resiliência emocional e previne transtornos ao restaurar o equilíbrio hormonal e dos neurotransmissores.
- Manter uma rotina consistente de desligar todas as telas — celular, TV ou computador — pelo menos uma hora antes de dormir.
- Estabelecer limites claros, como a regra de nenhum telefone no quarto à noite, para evitar que notificações interrompam o ciclo essencial e que nenhuma luz branca ou azul esteja visível, a fim de não interromper a produção de melatonina.
- Garantir que sonecas diurnas terminem até as 15h ou 16h para não prejudicar o sono noturno.
- Manter horários fixos para dormir e acordar, definindo o ciclo que será entendido e adotado pelo organismo.
- Praticar exercícios físicos leves e regulares durante o dia, o que ajuda a conciliar o sono.
- Evitar bebidas com cafeína, energéticos ou outros estimulantes algumas horas antes de dormir.
Para facilitar a compreensão da importância do sono, imagine que o corpo é como uma grande fábrica que funciona intensamente durante o dia, descalibrando as máquinas, gerando papéis picados, óleo derramado e lixo espalhado por todo lado. O sono é como a equipe de limpeza noturna que só pode entrar quando as luzes se apagam e os funcionários saem: ela recalibra as máquinas para funcionarem perfeitamente, limpa o óleo, restaura a organização e recolhe o lixo (as impurezas) para que, na manhã seguinte, a fábrica esteja limpa e pronta para trabalhar com eficiência novamente. Sem essa equipe, o lixo acumulado tornaria, em pouco tempo, impossível realizar qualquer tarefa bem feita: tudo demoraria mais que o normal, a qualidade do que fosse produzido seria questionável e irritaria tanto quem faz quanto quem compra o produto. Deu para captar? Boa noite. Estou desligando tudo, acalmando as ondas cerebrais e fechando as cortinas para ir dormir quando estiver calmo.
Genaldo Vargas
Psicanalista, escritor, professor de pós-graduação, palestrante.
CEO da Greenlife Consulting



