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As vítimas – em sua maioria imigrantes venezuelanas – são aliciadas durante o trajeto migratório ou já dentro do Brasil, em alguns casos em abrigos da Operação Acolhida, relatam fontes ouvidas pelo GLOBO. Fluxos saindo direto do estado de Bolívar, na Venezuela, também ganharam força em meio à expansão dos garimpos na Guiana.
– Até 2023, praticamente 80% das pessoas traficadas terminavam em garimpos em Roraima, Rondônia, no sul do Pará ou no Amazonas – explica Márcia Maria de Oliveira, professora da Universidade Federal de Roraima (UFRR) e coordenadora da pesquisa que identificou, entre 2022 e 2024, 309 vítimas de tráfico humano no estado, 129 delas mulheres venezuelanas. – De lá para cá, a gente vem acompanhando uma mudança nos percursos, justamente porque o garimpo começou a ficar mais caro e arriscado em Roraima. Eles começaram a ir para a Guiana, onde a atividade é regulada, especialmente para Essequibo. Mesmo pagando impostos ao Estado guianense, ainda é vantagem para o garimpeiro que estava no Brasil.
De 2018 a 2025, as áreas de mineração na Guiana praticamente dobraram, segundo análise da plataforma Amazon Mining Watch (AMW). A maior parte está concentrada em Essequibo, região que corresponde a dois terços do território guianense e está no centro de uma disputa com a Venezuela. O litígio ganhou força em 2023, quando o governo de Nicolás Maduro chegou a fazer um referendo sobre a assimilação do território.
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Uma investigação do Insight Crime de 2025 revelou que grupos criminosos venezuelanos, conhecidos como “sindicatos”, têm feito incursões em Essequibo, controlando minas dos dois lados do território e rotas de tráfico humano saindo de Bolívar para Essequibo. Segundo a publicação, as gangues também transportam ouro para a Guiana para fugir das sanções impostas pelos Estados Unidos.
De acordo com Rodrigo Chagas, professor da UFRR e pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma das principais mudanças recentes nas frentes de garimpagem é a aproximação entre facções criminosas e o mercado ilegal do ouro na Amazônia.
– Em Roraima, isso jogou pressão na terra indígena Raposa Serra do Sol, na fronteira com a Guiana, onde grandes garimpeiros que estavam na [terra] Yanomami passaram a atuar, inclusive com status legal – explica.
No caso brasileiro, além das operações nos territórios Yanomami, diversas medidas adotadas para frear o garimpo ilegal nos últimos anos – como a criação da Casa de Governo em Roraima, que centraliza ações anti-garimpo, e o fim da presunção de boa-fé do ouro com base apenas na palavra do vendedor – mudaram as dinâmicas na região:
– Com essa modificação jurídica em relação à origem do ouro, a rota para a lavagem do ouro ilegal passou a ser a Guiana e a Venezuela. Já foram apreendidos mais de 200 quilos de ouro aqui se dirigindo para esses países – completa Chagas.
Cinthia Borges, procuradora da Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes do Ministério Público Federal (MPF), afirma que a unidade tem observado um fluxo de mulheres aliciadas para a Guiana similar às rotas para garimpos na Venezuela no passado. Embora o crime atinja também brasileiras, ela aponta que as imigrantes são um dos principais alvos:
– É natural que quando se recebem fluxos migratórios muito intensos, como foi o venezuelano, essas pessoas fiquem em situação de maior vulnerabilidade sócio-econômica e se tornem vítimas desse tipo de criminalidade.
Altamente subnotificado, o tráfico humano de mulheres venezuelanas é um dos efeitos colaterais da crise migratória que levou 7,9 milhões de pessoas a deixarem o país na última década – 732 mil delas para o Brasil, segundo a plataforma R4V. De acordo com o ranking global de tráfico humano do Organized Crime Index, a Venezuela é um dos países com as mais altas incidências da atividade no mundo, aparecendo na 17ª posição entre as 193 nações analisadas.
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Segundo Oliveira, um dos fatores que tem aumentado a vulnerabilidade das venezuelanas é o fato de que, nos últimos anos, mais mulheres jovens têm migrado sozinhas ou acompanhadas por seus filhos.
Dados da Polícia Federal (PF) obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) apontam que, entre 2018 e 2019, havia uma predominância de homens entrando pela fronteira, muitos recebidos em abrigos da Operação Acolhida – parceria do governo federal com organizações internacionais e da sociedade civil que recebe migrantes venezuelanos.
No entanto, a partir de 2022, isso mudou. Cerca de metade do contingente de venezuelanos no país hoje é de mulheres e meninas, o que o Relatório Nacional sobre Tráficos de Pessoas (2021-2023) classifica como um “bolsão de feminização”.
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Em alguns casos, o aliciamento acontece durante o trajeto migratório. Wesley Costa, delegado da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas de Roraima (Draco-RR), explica que muitos imigrantes entram no país pelas chamadas “trochas”, caminhos alternativos sem fiscalização. Segundo ele, as mesmas rotas usadas por organizações criminosas para tráfico de armas, drogas e outros ilícitos também são usadas para contrabando de migrantes e tráfico de pessoas.
– A situação na Venezuela chegou a um ponto tão grave que muitas pessoas não tinham dinheiro sequer para pagar o transporte. Vimos muitos casos de venezuelanos que vinham de Pacaraima para Boa Vista caminhando 220 quilômetros – conta Costa. – Nesse contexto, muitas mulheres foram alvo de criminosos que, a pretexto de auxiliá-las no translado, acabavam trazendo elas para prostíbulos em Boa Vista ou outras regiões.
Mesmo quando cruzam a fronteira sem intercorrências e conseguem quitar as dívidas dos deslocamentos, as migrantes ficam vulneráveis a promessas de enriquecimento. De acordo com Oliveira, muitas vítimas são aliciadas por outros venezuelanos, às vezes dentro dos abrigos da Acolhida:
– Essas redes já têm certos lugares da cidade e são especializadas em reconhecer quem está em situação de vulnerabilidade. Há casos declarados de pessoas que foram aliciadas dentro do abrigo. A possibilidade de recrutar alguém ali é muito grande, porque a pessoa se submete a qualquer coisa para se livrar daquela situação.
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Questionada pela reportagem, a Casa Civil afirmou em nota que “não há registros de casos de aliciamento para tráfico de pessoas envolvendo migrantes venezuelanos dentro dos abrigos da operação”.
Fontes ouvidas pela reportagem que atuam diretamente com vítimas de tráfico humano na região apontam uma triangulação entre garimpos e prostíbulos na Venezuela, no Brasil e na Guiana. Uma das rotas começa ao cruzar a fronteira por Pacaraima, em Roraima. Dali, venezuelanas são levadas para a capital Boa Vista, onde podem tanto ser prostituídas na cidade ou levadas para garimpos ilegais no interior do estado ou na Guiana, onde cruzam a fronteira com a cidade de Lethem, também desprotegida.
Na Guiana, geralmente são traficadas para áreas de mineração espalhadas por Essequibo, mas muitas também vão parar em Georgetown, onde o crescimento econômico do país nos últimos anos aumentou a demanda por trabalho sexual. Segundo Oliveira, há uma parceria entre casas de prostituição em Manaus e na capital guianesa.
A rotatividade entre garimpos também é uma prática comum, afirmaram diferentes fontes. Dentro da Venezuela, mulheres que já haviam sido aliciadas no país são convencidas a irem para garimpos no Brasil e na Guiana para ganhar mais dinheiro. Uma das principais rotas costuma sair de San Martín de Turumbang, em Bolívar, e cruzar o rio Cuyuní, um dos acessos a Essequibo.
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Daniella Inojosa, diretora da ONG venezuelana Tinta Violeta, que atende mulheres vítimas de tráfico humano, confirma que as dinâmicas mudaram.
– A gente atende cerca de 20 a 22 vítimas por mês. Ultimamente, estamos observando muitos casos vindos de Essequibo. Antes não víamos casos da Guiana, e agora atendemos de dois a três por mês – aponta Inojosa. – A maioria são adolescentes e mulheres muito jovens dos povos indígenas Warao [do delta do rio Orinoco, na Venezuela].
Borges afirma que uma das principais dificuldades para enfrentar a atividade é a subnotificação, muitas das vezes porque a vítima não se vê como tal. Segundo a procuradora, embora algumas mulheres saibam durante o aliciamento que irão trabalhar com prostituição, as condições impostas após a chegada – como apreensão de documentos, dívidas impagáveis e situações degradantes – são uma fraude que também configura tráfico de pessoas. Sentimentos de vergonha, culpa e medo de retaliação dificultam as denúncias aos órgãos públicos, afirma.
Das 857 denúncias de tráfico humano recebidas pelo Disque 100 (canal do governo para violações de direitos humanos) entre 2017 e 2023, apenas uma tinha como vítima uma pessoa venezuelana, de gênero não identificado, apontam dados obtidos via LAI. Desse montante, somente nove denúncias foram feitas em Roraima. Oliveira, no entanto, afirma que o novo levantamento da UFRR sobre vítimas de tráfico de pessoas no estado entre 2024 e 2026, a ser concluída no segundo semestre, já aponta um patamar de 300 vítimas – similar ao biênio anterior.
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Em relação a crimes sexuais no geral, entre 2021 e 2025 foram feitas 79 denúncias no Disque 100 cujas vítimas eram mulheres e meninas venezuelanas, 73 delas menores de idade. O crime de estupro lidera o número de denúncias, com 33 chamadas. Exploração sexual aparece em segundo lugar, com 14 registros.
Roraima liderou o número de denúncias, com 24 registros. A maioria foi de estupro, seguido pelo crime de exploração sexual. Foi registrado um pico em 2023, com oito no total, mas houve uma queda brusca nos anos seguintes: nenhuma denúncia foi feita em 2024, e apenas duas em 2025.
A PF instaurou 662 inquéritos para investigar casos de tráfico de pessoas entre 2017 e 2024, dos quais 177 resultaram em indiciamento, segundo dados obtidos via LAI. A exploração sexual é a segunda principal finalidade identificada nos inquéritos abertos. A reportagem analisou todos os Relatórios Nacionais sobre Tráfico de Pessoas publicados entre 2017 a 2024 pelo governo federal. Embora reconheçam a vulnerabilidade das imigrantes venezuelanas, casos de resgate se concentram em vítimas de tráfico laboral. Não foi identificado nos documentos nenhum caso de venezuelanas exploradas sexualmente, em garimpos ou prostíbulos.
Questionados pela reportagem, o Ministério de Direitos Humanos e da Cidade e o Ministério das Mulheres afirmaram que não há programas específicos voltados para o tráfico humano de venezuelanas ou imigrantes no geral. Borges, porém, afirma que há políticas de acolhimento para vítimas, independentemente da nacionalidade, com núcleos ligados ao governo dos estados.
Segundo a procuradora, um dos maiores desafios é identificar o dono do garimpo. Uma vez instaladas na Guiana, as minas – e as atividades ilícitas que porventura aconteçam nelas – estão sob jurisdição das autoridades guianenses. Quanto à Venezuela, o delegado Costa afirma que não há interações entre as forças de segurança venezuelanas e brasileiras para conter as organizações criminosas que atuam na fronteira. Em resposta a um pedido de via LAI, o Ministério da Justiça e Segurança Pública afirma que, entre 2017 e 2024, o Brasil fez três pedidos de cooperação internacional com a Venezuela e quatro com a Guiana envolvendo casos de tráfico humano.
Esta investigação foi produzida com o apoio da Open Knowledge Brasil (Escola de Dados) e da Embaixada Britânica no Brasil, como parte do projeto Dados por Direitos. As opiniões, dados e conclusões aqui expressos são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem necessariamente a posição oficial do governo britânico ou da Open Knowledge Brasil.
Coordenação Geral: Haydée Svab
Coordenação Editorial: Thays Lavor
Mentoria: Aline Gatto Boueri



