A Polícia Civil de Goiás (PCGO) descreveu o celular da corretora de imóveis Daiane Alves Souza, de 43 anos, como “elemento de maior relevância” para a conclusão de que o síndico Cléber Rosa de Oliveira foi responsável pela morte dela. Os investigadores recuperaram o aparelho na tubulação de esgoto do prédio e, nele, uma gravação que mostra o momento em que ela foi atacada no subsolo.
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De acordo com a polícia, a gravação registrou a presença prévia de Cléber no subsolo, a aproximação inesperada pelas costas e o início da agressão “sem qualquer indicativo de discussão prévia”. Com as demais provas testemunhais, periciais e técnicas, a conclusão investigativa foi de uma “emboscada planejada”.
As imagens mostram que Cléber já estava no subsolo, com luvas, e se aproximou da vítima pelas costas, com identidade parcialmente ocultada. A agressão teve “início súbito”. “Ação sorrateira. Ataque inesperado”, apontou a polícia, em entrevista coletiva nesta quinta-feira.
— Ele estava com luvas nas duas mãos e com a capota (da caminhonete) aberta. Ele posicionou o carro mais próximo ao local onde pretendia render a Daiane — afirmou o delegado João Paulo Mendes.
A perícia com luminol identificou vestígios biológicos na carroceria de Cléber. Já o laudo cadavérico apontou lesões graves no crânio de Daiane e fraturas compatíveis com dois disparos de arma de fogo. Uma das balas ficou alojada na cabeça da corretora.
Daiane ficou desaparecida durante 42 dias, a partir de 17 de dezembro, quando desceu ao subsolo para religar a luz de seu apartamento. Imagens de câmeras de segurança do elevador registraram o deslocamento da corretora, que levou consigo o celular e filmou toda a movimentação até ser atacada.
— Cheguei na recepção, a [empresa] Equatorial não veio cortar. Claro, porque está pago. Agora vou descer lá embaixo para ver se disjuntor está desligado. Vou apertar aqui [botão do elevador] e vou gravar. [Andar] S1, onde ficam os disjuntores. Vou atrás do disjuntor do 402, e a gente vai filmar — relatou.
Assim que as portas do elevador se abrem, Daiane vê Cléber no subsolo.
— Ah, olha quem eu encontro. Acabou de perder minha energia no 402. Vamos ver se essa brincadeira está continuando. Mas o síndico está aqui embaixo, isso eu sei. Acho que o 402 fica aqui — diz ela, pouco antes de ser atacada e soltar um grito.
Corretora assassinada gravou momento de golpe dado por síndico em Caldas Novas
Até o crime, ao menos 12 processos envolvendo Cléber e Daiane corriam na Justiça, de crimes contra a honra a perseguição. Os dois protagonizavam uma sucessão de disputas administrativas, judiciais e pessoais que, segundo a investigação, ajudam a explicar a motivação do homicídio.
O corpo de Daiane foi localizado numa área de mata da mesma cidade do Sul de Goiás. Em nota enviada ao g1, a defesa do síndico disse que ainda não teve acesso à integralidade dos documentos inseridos na investigação e que só vai se manifestar após analisar todo o conteúdo.
Nesta quinta-feira, a Polícia Civil de Goiás convocou uma entrevista coletiva para detalhar a conclusão do caso, iniciado a partir do desaparecimento de Daiane e remetido ao núcleo de Homicídios ante a ausência de contato e “circunstâncias suspeitas”.
Desde o início, as investigações apontavam para um desaparecimento “não voluntário”, já que Daiane não levara objetos pessoais essenciais e não movimentou contas bancárias. Além disso, o celular dela deixou de emitir sinais de uso logo após o último registro e não havia histórico de fuga, depressão ou planejamento de viagem.
Os investigadores acrescentaram que outros elementos passaram a indicar a ocorrência de um crime violento, como a interrupção anormal de energia, relatos de testemunhas e análises periciais. O síndico tornou-se o principal suspeito. Cléber apresentou versões contraditórias sobre horários, procedimentos realizados, motivo da ida da vítima ao subsolo. A polícia também destacou que não havia registro de saída de Daiane do prédio nem testemunhos ou indícios de que ela teria deixado o local com vida.
O avanço das investigações apontou um “padrão típico” de crimes de ocultação de cadáver. Ainda de acordo com a polícia, a análise de dados telefônicos demonstrou deslocamento do investigado em horários críticos e ausência de comunicação durante o período compatível com a prática criminosa e posterior transporte do corpo. Cléber foi preso, confessou o crime e indicou onde estava o corpo e onde estava o celular dela.



