A necessidade de atrair o comércio e os serviços típicos dos bairros residenciais para a área central do Rio foi a principal linha de debate no evento “Rio em Tempo Real: o Centro em transformação”, realizado nesta terça-feira (31), na Câmara de Vereadores do Rio. Depois de duas versões vitoriosas do projeto Reviver, a ideia foi apontar os próximos passos na revitalização da área mais antiga — e charmosa — da cidade.
O presidente da Câmara, vereador Carlo Caiado (PSD), destacou que um dos desafios para a terceira fase é lidar com questões como o IPTU ainda alto, e a falta de benefícios fiscais específicos para atrair o comércio, completando um ciclo que se inicia com a chegada dos novos moradores.
“Lembro que 2021 foi um ano difícil para a humanidade e, claro, também para o Rio, por causa da pandemia. Naquele momento, nosso esforço foi fazer as pessoas acreditarem na cidade. E o Legislativo lutou por isso. Os poderes são independentes, mas harmônicos. Agora, nessa terceira fase da revitalização do Centro, é fundamental que tenhamos mais restaurantes, bares, supermercados e outros estabelecimentos”, disse Caiado.
Primeiro-secretário da Câmara e presidente da comissão que revisou o Plano Diretor, o vereador Rafael Aloisio Freitas (PSD) disse que, em 2021, o Centro do Rio parecia um cenário do seriado “Walking dead” (aquele em que o mundo era dominado por zumbis), tamanho o abandono do local, que ficava praticamente vazio.
“Nosso primeiro desafio foi a transformação através de incentivos urbanísticos e fiscais. O potencial construtivo em outras áreas mais nobres atrai a iniciativa privada. Incentivos extras como o Reviver Cultural também são fundamentais”, explicou Rafael.
Secretário de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento da Prefeitura do Rio, Gustavo Guerrante fez coro com a questão dos benefícios fiscais e destacou que a atuação do poder público municipal concedendo subsídio de 36 meses para determinados tipos de estabelecimentos foi fundamental no processo de revitalização.
“Hoje a Lapa é mais reconhecidamente residencial. Queremos atingir isso no Centro raiz. Ser normal, por exemplo, procurar apartamento na Almirante Barroso, o que antes seria impensável”, disse Guerrante, lembrando que, além da boa infraestrutura, existem inúmeras opções de lazer próximas, incluindo aí até o Aterro do Flamengo e praia, com parte da Baía de Guanabara estando balneável.
Fernando Costa, diretor da Plano B Arquitetura, reforçou o discurso da boa infraestrutura do Centro, citando como exemplo as opções de transporte.
“Tem ônibus, VLT, metrô, trem, barcas próximas. A gente brinca dizendo que a única coisa que está faltando é uma base para foguetes”, destacou Costa.
Quem também bateu na tecla de que é preciso atenção especial a taxas e tributos foi Cláudio André de Castro, diretor da Sérgio Castro Imóveis. Ele citou o exemplo de agências bancárias desativadas que poderiam ser convertidas em ótimas unidades para comércios, mas que se tornam inviáveis devido a certos gastos.
“Sei de um caso de um edifício que pagava R$ 10 mil mensais de água e esgoto. Com a revisão das taxas, esse gasto passou para R$ 137 mil”, contou Castro, explicando que, por causa disso, há uma corrida para casarões históricos, menos onerosos, em detrimento de outras unidades.
Marcos Saceanu, CEO da Piimo Empreendimentos Imobiliários, ressaltou que, entre 2021 e o ano passado, houve um crescimento de 100% no setor imobiliário do Rio, enquanto a média nacional foi de 40%.
“Mas meu desejo é que a gente não fique embebedado pelo sucesso. O Reviver Centro passou apenas por seu primeiro ciclo imobiliário, que costuma ser medido de cinco em cinco anos. O projeto é um avião que já decolou, uma etapa sempre sensível, mas que precisa ganhar altitude”, comparou Saceanu.
Numa coisa, políticos e construtoras concordam: que na próxima etapa do Reviver, os benefícios da operação consorciada que impulsionam a construção e o retrofit de imóveis no Centro possam chegar a outras regiões. Flávio Wrobel, diretor da W3 Engenharia, falou dessa necessidade.
“Já houve a concessão desses benefícios em locais na Zona Sul. Mas é preciso acontecer também na Zona Norte, em locais como a Tijuca, por exemplo”, acrescentou Wrobel.
Vereadores destacam dimensão humana e social do Reviver Centro, e a preocupação com a segurança
O vereador Felipe Pires (PT), presidente da Comissão de Assistência Social da Câmara, chamou a atenção para a questão social, inclusive no que diz respeito a moradores de rua. Ele destacou que não é adequado tratar todos do mesmo jeito, pois há casos distintos, como os moradores de outros locais da Região Metropolitana que não têm dinheiro para o transporte diário entre suas casas e o trabalho, os dependentes químicos e ainda os que enfrentam problemas de saúde mental.
“É preciso criar abrigos menores e mais eficientes, próximos dos locais onde esses moradores estão. São processos diferentes. Não pode haver segregação”, disse Felipe, acrescentando ainda a necessidade de apostar na economia criativa de áreas como o Morro da Providência e o entorno da Central do Brasil.
A vereadora Tânia Bastos (Republicanos), 2ª vice-presidente da Câmara, acrescentou que um dos desafios na área central é inserir mais pessoas no mercado de trabalho. Ela se mostra otimista com as mudanças que vêm acontecendo.
“Mas é preciso estar atentos também a questões como segurança, meio ambiente, saúde e educação”, declarou.
Presidente da Comissão de Assuntos Urbanos, o vereador Pedro Duarte se mostrou otimista.
“Acompanho o Reviver desde o início. Encontramos um Centro muito esvaziado. A situação já é bem melhor. Mas há ainda um desafio grande pela frente”, comentou.
“Rio em Tempo Real: o Centro em transformação” teve a mediação da jornalista Berenice Seara, colunista do Tempo Real, e a participação do presidente da Câmara do Rio, Carlo Caiado; dos vereadores Tânia Bastos, Felipe Pires e Rafael Aloísio Freitas; do secretário Gustavo Guerrante; e dos empresários Flavio Wrobel, Marcos Saceanu, Fernando Costa e Cláudio André de Castro.



