Secretaria de Cultura disponibilizou quase R$ 1,4 milhão, graças à iniciativa do Governo Federal, para dezenas de cineastas locais
O cinema brasileiro vive, e não apenas com as grandes produções que lotam as salas do país e conquistam prêmios como o do Oscar ou em festivais consagrados como os de Cannes, Veneza e Berlim. Graças à Lei Paulo Gustavo, cineastas de todo o país puderam realizar produções que ficam à margem dos sucessos de bilheteria, mas que são essenciais para gerar empregos, fazer circular a economia criativa e manter viva a nossa cultura.
E Volta Redonda não ficou de fora dessa nova retomada. A prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), obteve por meio do Edital VR Filmes – uma das iniciativas contempladas pela lei federal, aprovada em 2022 como mecanismo para auxiliar artistas dentro do contexto da pandemia de Covid-19 – um total de R$ 1,362 milhão para produtores, roteiristas e diretores criarem curtas e médias-metragens.
A valorização do audiovisual local resultou no Festival de Cinema Paulo Gustavo, realizado em julho de 2025 no Gacemss e na Biblioteca Municipal Raul de Leoni, no qual foram exibidos 31 filmes que abordaram temas culturais, sociais e históricos, com destaque para a diversidade de autores e estilos. Todos eles estão disponíveis em uma playlist da SMC no YouTube (youtube.com/playlist?list=PLf5KEF-RCkAQSYNXIVhP9ZqncQI8Qf_GR).
Mas não para por aí. Existe todo um ecossistema de festivais pelo país em que essas produções são selecionadas, e tem gente da Cidade do Aço brilhando por todo o Brasil. É o caso da diretora, roteirista e professora Lane Lopes, que dirigiu o curta-metragem “Benedita” ao lado de Cadu Azevedo. A produção levou o prêmio de Melhor Curta-metragem na 2ª Mostra Competitiva de Curtas de Diamantina; Melhor Filme Brasileiro pelo Sesc TV no 36º Festival Internacional de Curtas de São Paulo – Kinoforum 2025; o Prêmio Franklin Casares de Melhor Filme no VI Floripa Que Horror! International Fantastic Film Festival; e a categoria Olhares da Planície no 1º Festival Internacional Goitacá de Cinema 2025.
A história da personagem-título – uma trabalhadora que, sufocada pela rotina pela tripla jornada a que é submetida, começa a derreter igual o material de ferro-gusa que manuseia no trabalho – também foi selecionada para o 34º Festival Curta Cinema – Internacional de Curtas do Rio de Janeiro; 27º FestCurtasBH; II International Festival Film of Antares, na Rússia; 2ª Mostra Baixada Fantástica; 23° Festival de Cinema de Marília; 1ª Mostra de Curtas do Cine Cajá, em Cabo Frio; 1ª Mostra Curta Santa, em Campos dos Goytacazes; 5° Festival Mate Com Angu de Cinema; e a 7ª edição da 3Margens – Festival Latino-americano de Cinema.
A importância do financiamento
“Graças ao financiamento pela Lei Paulo Gustavo o filme foi realizado e a gente conseguiu circular com essa história em diversas regiões do Brasil e até fora do país, ser premiado. Então a gente vê a importância desses editais, dessa verba federal e municipal para projetos de cultura, entretenimento e artísticos no geral. É uma forma de incentivar essas redes produtiva e criativa que temos no interior”, diz Lane Lopes. “Volta Redonda é uma cidade rica de artistas, de trabalhadores da cultura, de agentes culturais, e que precisam desse apoio, desse financiamento, desse fomento.”
A cineasta pontua, ainda, que há uma pluralidade de projetos que são realizados graças a esses editais. “Eles possibilitam que artistas do interior tragam também as suas histórias, construam os seus projetos. É fundamental lutar pela manutenção e ampliação desses projetos. Fico muito feliz por fazer parte dessa história e lutando pela ampliação cada vez maior dessas iniciativas.”
Enquanto Lane Lopes partiu da ficção para refletir sobre questões que permeiam nosso cotidiano, Tadeu Veiga realizou o documentário “Rap de Aço”, com a participação de vários nomes que ajudaram a criar uma cena musical que mostra sua força há décadas.
“Nossa trajetória de exibição foi muito focada na descentralização cultural. Tivemos a estreia oficial no bairro Vale Verde, e seguimos em circulação por outras cidades do Sul Fluminense: Barra do Piraí, Valença e Barra Mansa, sempre em eventos articulados com as lideranças da cultura Hip-Hop locais”, conta, além de afirmar que a Lei Paulo Gustavo foi um divisor de águas para toda uma demanda reprimida de profissionais talentosos em Volta Redonda.
“Esse incentivo abriu caminhos para que produções autorais finalmente ganhassem vida com a qualidade que merecem. Para mim, morador da periferia e envolvido com a cultura Hip-Hop, acessar esse financiamento é a realização de uma luta histórica. Muitos que vieram antes produziram sem nenhum recurso, na raça. Poder registrar e celebrar nossa cultura hoje, com o suporte do governo municipal e federal, é o que dá sentido a toda essa caminhada. É o reconhecimento real disso tudo.”
O poder transformador das políticas públicas
O secretário municipal de Cultura, Anderson de Souza, lembra que a realização do festival foi mais um elemento de fortalecimento da cena cultural de Volta Redonda, graças às políticas públicas para o audiovisual e a consequente ampliação do alcance das obras por meio de parcerias institucionais e ações contínuas.
E não são ações pontuais, como ele salienta; ao investir na realização de dezenas de produções, o Edital VR Filmes contribui para o desenvolvimento de projetos futuros e o fortalecimento da produção audiovisual local.
“O audiovisual em Volta Redonda vem ganhando um grande espaço. Começamos com a criação de uma cadeira do audiovisual no Conselho de Cultura, que está estruturando as políticas culturais para o audiovisual, somado ao investimento da Lei Paulo Gustavo, que possibilitou a realização de filmes com produção local. E através de oficinas e da valorização do setor, a gente vem fazendo com que o nosso audiovisual seja uma realidade e forme novos profissionais.”
Para este ano, Anderson adianta que está sendo preparado o edital Projetos Livres, por meio do Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), que vai selecionar propostas de artistas residentes do município nas mais diversas manifestações artísticas – e o cinema, é claro, não ficará de fora.
Dinheiro que vai, dinheiro que volta
Dentre os argumentos mais preguiçosos – ou mal-intencionados – está o de que investir em cultura é jogar dinheiro fora. Nada mais errado, claro: além de ser essencial para a formação da identidade local, regional ou nacional, ser ferramenta para a educação e cidadania, entre outros, fomentar a produção cultural gera renda e empregos.
É o que mostra, por exemplo, o levantamento do Sebrae Rio divulgado no último mês de março: existem no estado, atualmente, 38,3 mil empresas ligadas ao audiovisual – e que precisam, claro, de funcionários para estar em atividade. Esse segmento cresceu nada menos que 71% nos últimos cinco anos, e 99% das empresas abertas em 2025 eram de pequenos negócios, que correspondem a 6,8 mil novos empreendimentos.
No Brasil, o Rio de Janeiro está em segundo lugar no segmento de pequenos negócios do setor audiovisual, com 12% do total, atrás apenas dos 35% de São Paulo.
Fotos de divulgação – Secom/PMVR.



