“Negra Palavra: Poesia do Samba” é um espetáculo de força rara que afirma o samba como poesia viva e como uma das mais importantes expressões da cultura brasileira. Em cena, o Complexo Negra Palavra reúne artistas negros que dançam, cantam, tocam instrumentos e interpretam com talento, precisão e um carisma luminoso. A atuação coletiva de Adriano Torres, André Américo, João Manoel, Eudes Veloso, Jorge Oliveira, Lucas Sampaio, Muato, Raphael Elias, Renato Farias, Rodrigo Átila e Thiago Hypolito sustenta uma encenação que pulsa emoção do início ao fim.
Com texto e concepção dramatúrgica de Muato — artista premiado e referência do teatro negro contemporâneo —, o espetáculo parte de sambas inesquecíveis para construir uma narrativa profunda sobre sentimentos universais como perda, paixão, liberdade e desigualdade. Ao transformar letras cantadas em palavra falada, a montagem revela o samba como enredo dramático: complexo, poético e capaz de traduzir as múltiplas realidades brasileiras, evidenciando a sofisticação literária do gênero.
Dirigido por Muato e Renato Farias, o trabalho nasce do desejo de homenagear outro grande poeta negro após o sucesso de “Negra Palavra: Solano Trindade”. O ponto de partida foi Nei Lopes, mas a proposta se ampliou para celebrar o vasto conjunto de poetas-sambistas brasileiros, reconhecendo que suas letras possuem a mesma densidade dos poemas consagrados pela literatura.

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Os figurinos, assinados por Ananda Almeida e Raphael Elias — ambos indicados ao Prêmio Shell de Teatro —, impressionam pelo apuro visual. A paleta de tons terrosos, laranjas e amarelos dourados constrói o imaginário do sambista com chapéus, suspensórios e sapatos bicolores que evocam memória, elegância e identidade negra. Lucas Sampaio também é indicado ao Prêmio Shell.
A movimentação em cena é contínua e orgânica. Os intérpretes transitam entre instrumentos, dança, canto e declamação, criando uma experiência sensorial intensa em que tudo é emoção. O público, acomodado no próprio palco, participa de uma proximidade afetiva que reforça o caráter coletivo e ritualístico do samba.


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Aqui, Poesia do Samba se revela como a própria vida do maior gênero musical brasileiro — nascido nos rituais, nos terreiros e nos agrupamentos de ex-escravizados como forma de afirmação: estamos aqui; nossa arte e nossa cultura importam.
Em cartaz até 8 de fevereiro, no Teatro Firjan SESI Centro, “Negra Palavra: Poesia do Samba” é, sem exagero, o melhor esquenta para o Carnaval — especialmente porque, ao final, o teatro vira roda de samba no saguão, como deve ser.




