Médicos e enfermeiros das Clínicas da Família da Prefeitura do Rio de Janeiro decidiram entrar em greve entre 2 e 11 de fevereiro. O estopim foi a combinação explosiva de salários atrasados, insumos em falta e acordos descumpridos. Os profissionais reivindicam pagamento em dia, recomposição salarial e condições mínimas para exercer a função sem transformar cada plantão em um ato de heroísmo.
Acordos que nunca chegaram
Segundo o Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (Sinmed-RJ) e o Sindicato dos Enfermeiros do Rio de Janeiro (Sindenf-RJ), o adicional de desempenho (Variável 3), prometido desde 2023, continua atrasado. A recomposição salarial de 5% também não saiu do papel. Enquanto isso, equipes enfrentam clínicas sem material básico, escalas incompletas e unidades em áreas de conflito sem protocolos de segurança.
Atendimento pela metade
Durante a paralisação, apenas serviços considerados prioritários serão mantidos: pré-natal, tuberculose, hanseníase, oncologia e casos graves. Consultas eletivas, visitas domiciliares e atividades coletivas ficam suspensas. Em uma rede com mais de 200 Clínicas da Família, o impacto é imediato: milhares de atendimentos desaparecem da rotina da cidade.
CREMERJ acompanha e cobra
O CREMERJ (Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro) acompanha a mobilização e já havia denunciado em relatórios anteriores a precarização das unidades, com falta de medicamentos e sobrecarga das equipes. O Conselho considera que a situação compromete diretamente a qualidade da assistência e reforça a necessidade de medidas urgentes da Prefeitura.
Sobrecarga sem limites
Equipes que deveriam atender até 2,5 mil pessoas chegam a lidar com mais de 4 mil. A gestão por organizações sociais, apontada como modelo “eficiente”, é vista pelos profissionais como motor da precarização, transformando saúde pública em negócio.
Ato e denúncias
No dia 2 de fevereiro, às 9h, médicos e enfermeiros farão ato em frente ao Super Centro Carioca de Especialidades, em Benfica. Além das reivindicações salariais e estruturais, sindicatos denunciam assédio, ameaças e demissões desde o anúncio da greve.
A resposta da Prefeitura
A Secretaria Municipal de Saúde afirma que mantém salários em dia e joga a culpa nos profissionais de saúde, alegando que a paralisação é irresponsável por prejudicar a população. A gestão promete medidas judiciais contra o movimento e acusa os profissionais de “emendar a greve com o carnaval”, como se não existissem plantões.
O retrato da crise
De um lado, profissionais exaustos e cobrando o mínimo. Do outro, a Prefeitura insistindo em pintar um cenário cor-de-rosa. No meio, a população, que depende exclusivamente do SUS, assiste ao espetáculo da precarização como se fosse mais um bloco carnavalesco: barulhento, desorganizado e sem hora para acabar.



