— As notícias recentes, com prisão de Vorcaro e parceiros flagrados combinando ações violentas e corrupção de agentes públicos, deixam claro o óbvio: é atuação típica de crime organizado de altíssima periculosidade e pode e deve ser objeto de atuação da CPI no Senado — afirmou.
A nova prisão de Vorcaro, determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), surpreendeu integrantes da CPI do Crime Organizado no Senado. Nos bastidores do Congresso, parlamentares afirmam acreditar que a nova prisão pode levar o empresário a negociar um acordo de colaboração premiada.
Vorcaro era aguardado para prestar depoimento na comissão nesta quarta-feira, mas parlamentares afirmam que já consideravam provável que ele não comparecesse ao colegiado, sobretudo após decisões do STF que tornaram facultativa a presença dele e de outros convocados. O que pegou integrantes da CPI de surpresa foi a decisão judicial que resultou na nova prisão preventiva do banqueiro.
Cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, também era esperado na CPI nesta quarta-feira. Ele foi alvo de mandado de prisão preventiva no âmbito da operação e se entregou à polícia.
A possibilidade de ausência havia sido aberta na véspera pelo próprio Mendonça. Ao analisar pedido da defesa, o ministro afastou a obrigatoriedade de comparecimento do empresário à CPI e transformou a convocação em facultativa, com base no direito constitucional de não autoincriminação. Na decisão, o magistrado citou precedentes do STF segundo os quais investigados não são obrigados a comparecer a interrogatórios, inclusive em comissões parlamentares de inquérito, e ressaltou que o direito ao silêncio inclui a faculdade de decidir se comparecer ou não ao ato, sem que haja sanção pelo não comparecimento.
A informação sobre as prisões passou a circular rapidamente entre integrantes da CPI em grupos de WhatsApp e mensagens trocadas entre senadores. Nos bastidores da comissão, senadores relatam que operação da Polícia Federal mudou o clima em torno da investigação.
Parlamentares ouvidos pela reportagem avaliam que a decisão de Mendonça pode dar novo impulso político às investigações no Congresso, que vinham enfrentando entraves judiciais nas últimas semanas. Entre eles, a suspensão da quebra de sigilos bancário, fiscal e telemático da empresa Maridt Participações S.A., medida aprovada pela CPI. Como noticiou O GLOBO, o colegiado recorreu da decisão do ministro Gilmar Mendes.
— A CPI vê com satisfação a justiça sendo realizada. A permanência de Vorcaro em liberdade ameaçava a investigação, considerando o poder econômico e a sua rede de influência. O ministro André Mendonça tem mostrado zelo pela justiça, então era uma medida provável — afirmou o senador Sergio Moro (União-PR), titular da comissão.
O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), também integrante da CPI, disse que já esperava que Vorcaro optasse por não comparecer ao depoimento marcado para esta semana, mas afirmou que não imaginava que a situação evoluiria para uma nova prisão nesta quarta-feira.
— Eu não tinha dúvida de que ele não iria comparecer, pois o silêncio é a melhor arma dele — disse.
A sessão da CPI do Crime Organizado prevista para esta quarta-feira acabou cancelada após decisões do STF que tornaram facultativa a presença de Vorcaro e Zettel. Em nota, o colegiado afirmou que a ausência dos depoentes não interrompe os trabalhos e que as investigações seguem em curso com análise de documentos e outras medidas.
A repercussão da prisão também chegou à Câmara dos Deputados. Na mesma linha de Vieira, o relator da CPI do INSS, o deputado Alfredo Gaspar (União-AL), também reiterou que o colegiado seguirá com suas tentativas de investigação do Banco Master. Na semana passada, a comissão também tinha um depoimento marcado com Vorcaro, ao qual ele não compareceu.
— Vejo a prisão de Vorcaro como uma necessidade premente diante dos graves fatos expostos. Já defendia essa medida mais restritiva, porém agora o investigado passou de todos os limites. A CPMI do INSS vai seguir investigando o Master e outras instituições financeiras
O deputado Paulo Pimenta (PT-RS), integrante da CPI do INSS, afirmou que o episódio reforça a necessidade de aprofundar as investigações.
— Queremos que esta investigação sobre o Master seja levada às últimas consequências, porque o Brasil precisa conhecer o subterrâneo desse banqueiro que se tornou bilionário a partir de decisões adotadas dentro do governo Bolsonaro — afirmou.
Também integrante da CPI do INSS, o deputado Ricardo Ayres (Republicanos-TO) comentou o impacto de uma eventual colaboração premiada.
— Existe muita apreensão no meio político, e uma eventual delação, que já é esperada, pode abalar todas as instituições da República.
A terceira fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta quarta-feira. Além da prisão de Vorcaro, foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão em São Paulo e Minas Gerais.
A decisão de André Mendonça também determinou o afastamento de investigados de cargos públicos e o bloqueio e sequestro de bens que podem chegar a R$ 22 bilhões, com o objetivo de interromper a movimentação de ativos vinculados ao grupo investigado.
As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou nesta quarta-feira a terceira fase da Operação Compliance Zero e levou novamente à prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, além de outros investigados. A investigação da Polícia Federal apura um suposto esquema bilionário de fraudes no sistema financeiro, com suspeitas de crimes como gestão fraudulenta de instituição financeira, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Segundo investigadores, o esquema teria utilizado estruturas do mercado financeiro para captar recursos e movimentar ativos de alto risco ou de baixa liquidez, além de operações que teriam servido para ocultar prejuízos e desviar recursos. A decisão também cita suspeitas de interlocução com servidores públicos e tentativas de interferir nas investigações.
A operação, chamada de Compliance Zero, já teve três fases. A primeira, deflagrada em novembro de 2025, investigou a suspeita de venda de carteiras de crédito sem lastro a outras instituições financeiras. A segunda, em janeiro deste ano, ampliou o foco para o uso de fundos de investimento ligados à gestora Reag para a circulação de recursos e aquisição de ativos considerados problemáticos. Já a terceira fase, autorizada agora pelo STF, inclui novas prisões e medidas cautelares contra investigados ligados ao caso.



