Preso desde março de 2024, o delegado Rivaldo Barbosa é acusado de ter agido para atrapalhar as investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Segundo a delação de Ronnie Lessa, que confessou ter assassinado a dupla, o policial teria usado sua influência como chefe de Polícia Civil à época do assassinato, em 2018, para oferecer aos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, apontados como mandantes do crime, a “certeza da impunidade”. Em fevereiro deste ano, Barbosa, que é réu no Supremo Tribunal Federal (STF), foi denunciado pela segunda vez pelo Ministério Público Federal (MPF), desta vez acusado de integrar associação criminosa e de obstruir a apuração do duplo homicídio.
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O delegado Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior assumiu a chefia da Polícia Civil do Rio um dia antes da morte de Marielle e Anderson. O convite para o cargo fora feito uma semana antes e partiu dos generais Braga Netto, interventor do governo de Michel Temer na área da Segurança Pública do Rio, e Richard Nunes, secretário de Segurança durante a intervenção. Antes de ser promovido ao cargo mais alto da corporação, Barbosa havia exercido os cargos de subsecretário da Subsecretaria de Inteligência da Segurança, titular da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e diretor da Divisão de Homicídios, órgão que coordena as três delegacias destinadas à investigação de assassinatos no estado.
Rivaldo Barbosa ficou no cargo de chefe da Polícia Civil do Rio de março a dezembro de 2018. Foi ele quem levou ao ao delegado Giniton Lages, então titular da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), a informação de que delegados da Polícia Federal teriam conseguido achar uma testemunha do crime. A pista, depois, foi apontada como falsa em apuração paralela da própria PF, que ficou conhecida como a “investigação da investigação'”.
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Em outro momento, ainda na primeira fase das investigações, Rivaldo determinou que Giniton interrogasse o então policial militar Rodrigo Ferreira, o Ferreirinha, que teria, segundo a versão apresentada, testemunhado uma conversa entre o miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando da Curicica, e Marcello Siciliano (à época, vereador). Os teriam tratado de planos para executar a vereadora. Dez meses depois, a versão foi dada como falsa também a partir das descobertas feitas pela apuração paralela da Polícia Federal.
Ouro fato marcante da atuação de Rivaldo Barbosa logo após o crime foi a reunião que ele teve com parlamentares da bancada do PSOL para garantir que o crime seria esclarecido o mais rapidamente possível. O mesmo foi dito pelo delegado a familiares da vereadora. Em entrevista, Rivaldo chegou a dizer que a polícia estava “no caminho certo” para encontrar os criminosos. Os interlocutores que estiveram com o delegado naqueles dias ficaram chocados após as revelações, anos depois, da suposta participação do policial no crime.
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A denúncia mais recente do MPF contra Rivaldo, que inclui também o delegado Giniton Lages e o ex-comissário de polícia Marco Antonio Pinto Barros, conhecido como Marquinhos, tem origem nas investigações do Inquérito 4.954, em curso no STF, que determinou o desmembramento do caso para dar continuidade às apurações relativas aos crimes de associação criminosa e obstrução de justiça. Segundo a acusação, os três formaram uma associação criminosa no Rio, atuando para obstruir investigações e garantir a impunidade em casos de assassinatos cometidos por organizações criminosas.
Em depoimento à Polícia Federal em junho de 2024, pouco antes de se tornar réu no caso, o delegado Rivaldo Barbosa negou ter participado dos preparativos para o assassinato de Marielle Franco bem como ter agido para proteger os supostos mandantes do crime. O delegado segue preso no Presídio Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.



