A plataforma de jogos on-line Roblox virou alvo de investigação da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) após a descoberta de que o ambiente virtual estaria sendo usado para simular bailes funk regados a drogas, em cenários que imitam comunidades fluminenses dominadas pelo Comando Vermelho (CV).
Vídeos que circulam na internet, feitos por meio de gravações de tela, mostram a dinâmica dentro desses espaços. Nos registros, é possível ver personagens, controlados pelos jogadores, usando entorpecentes e empunhando fuzis.
Eles usam cordões de ouro, escondem os rostos com máscaras, e há aqueles que aparecem paramentados, inclusive, com fardas camufladas comumente usadas por integrantes do CV em ataques criminosos.
Em determinado momento dos vídeos, é possível ver, inclusive, um cartaz de procurado, semelhante aos elaborados pelo Disque-Denúncia, colado em uma parede do cenário do jogo. Nos muros dos edifícios também há pichações com a marca CV.
A Polícia Civil informou que um procedimento foi instaurado na Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV). Diligências estão em andamento para apurar os fatos.
À coluna, a Roblox afirmou que proíbe conteúdos que retratem ou promovam atividades ilegais. “Onde encontramos evidências de conteúdo que viole nossas políticas, tomamos medidas para proteger nossa comunidade.”
Danos mentais
À coluna, a psicóloga Laina Amorim, do Hospital Mantevida, ressaltou que o grande perigo não é apenas o ato violento isolado, mas a forma como esse tipo de conteúdo molda a estrutura mental de crianças e adolescentes. “De tanto ver o crime de forma ‘estilizada’, o cérebro do jovem sofre uma espécie de anestesia emocional”, afirmou.
Segundo ela, o adolescente pode confundir o poder do criminoso com sucesso, passando a admirar o infrator como um modelo de autonomia e força. “O risco é que, na vida real, esse jovem perca a capacidade de negociar ou dialogar, recorrendo à agressividade sempre que se sentir frustrado.”
A simulação de bailes funk ligados a facções ou ao tráfico pode naturalizar a criminalidade na percepção infantil. A especialista explicou que crianças aprendem sobre o mundo observando e imitando comportamentos.
“Quando o crime é misturado com lazer, música e pertencimento social, o cérebro cria uma conexão positiva com o que deveria ser um sinal de perigo ou ilegalidade. A criminalidade deixa de ser algo errado para se tornar algo natural e cultural dentro daquele grupo”, alertou.
A psicóloga aconselha os pais a se atentarem a mudanças no comportamento dos filhos, como aumento de agressividade e irritabilidade, isolamento social ou alterações de humor, além de interesse excessivo por temas violentos ou criminosos.
“Proibir pode até funcionar no curto prazo, mas, geralmente, não é a solução mais eficaz. Muitas vezes, isso pode aumentar o interesse da criança ou do adolescente pelo conteúdo proibido. O diálogo é mais indicado: conversar sobre os riscos, contextualizar o conteúdo e estimular o pensamento crítico.”
A Roblox afirmou que utiliza uma combinação de IA e uma equipe de especialistas em moderação para revisar o conteúdo de jogos e experiências antes que sejam publicados na plataforma.
“A Roblox também fornece ferramentas de denúncia fáceis de usar para que os usuários possam reportar conteúdos que possam violar nossas regras, e trabalhamos em estreita colaboração com as autoridades policiais brasileiras para apoiar suas investigações.”


