Entre 19h24 e 20h42 do dia 31 de janeiro de 2026, câmeras de um prédio na Rua Viveiros de Castro, em Copacabana, registraram a entrada e a saída de cinco homens — um deles menor de idade — e uma adolescente de 17 anos. O que aconteceu no apartamento ocupado pelo grupo veio à tona na forma de um relatório da 12ª DP (Hilário de Gouveia): em seu depoimento, a jovem contou que, por cerca de uma hora, foi submetida a violência sexual e coação, além de receber tapas, chutes e socos dentro do imóvel no sexto andar.
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Os quatro suspeitos de ter participado do episódio foram indiciados por estupro coletivo qualificado — porque a vítima é menor de idade — e cárcere privado. São considerados foragidos desde o último sábado, quando a polícia montou uma operação para tentar prendê-los. Bruno Felipe dos Santos Allegretti e Vitor Hugo Oliveira Simonin, ambos de 18 anos, Mattheus Veríssimo Zoel Martins e João Gabriel Xavier Bertho, que têm 19, podem pegar penas de até 18 anos de prisão.
O quinto envolvido, um adolescente, que já havia tido um relacionamento com a vítima, é apontado como articulador do encontro e teve seu caso encaminhado para apuração na Vara da Infância e Juventude. Foi ele que, segundo o relatório da polícia, mandou uma mensagem por WhatsApp para a jovem, em torno das 18h do dia 31 de janeiro, convidando-a para ir ao apartamento em Copacabana. O rapaz teria comentado que outros dois amigos iriam se encontrar com eles e sugeriu a ela que levasse uma amiga. Ela respondeu que não tinha ninguém para levar e acabou indo sozinha.
Os dois se encontraram na portaria do prédio e, no elevador, ela ouviu dele uma insinuação de que fariam “algo diferente”. Ela deixou claro que não gostava da ideia e não a aprovaria. Ainda de acordo com o relatório, já estavam no imóvel Vitor Hugo — da família dos proprietários do endereço, usado eventualmente para aluguel — e Mattheus Veríssimo Zoel Martins. A presença de João Gabriel Xavier Bertho e Bruno Allegretti também foi confirmada.
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Depois de cumprimentar os presentes, os dois adolescentes foram para um quarto. Quando começavam a se beijar, Mattheus entrou no cômodo, sob o pretexto de buscar seu celular, e saiu. Eles estavam dando início a uma relação sexual quando, segundo depoimento da vítima, o espaço foi mais uma vez invadido, desta vez por três dos adultos. Eles ficaram assistindo e fazendo comentários debochados, até que Mattheus tocou seu seio. A jovem protestou, e os três chegaram a sair do quarto. Logo em seguida, no entanto, os quatro maiores de idade voltaram. A situação, a partir daí, evoluiu para uma sessão de estupro coletivo, descrita em detalhes sórdidos pela jovem à polícia.
Ela foi agarrada pelos cabelos, obrigada a praticar atos contra a sua vontade e chegou a levar, do adolescente, um chute na região abdominal. Ainda foi impedida de deixar o quarto quando manifestou intenção de ir embora, e continuou a sofrer agressões mesmo depois de dizer que estava “cansada” e pedir para que parassem. A certa altura, o adolescente que a havia convidado perguntou se a mãe a veria nua. Estava preocupado: ela “não podia vê-la assim porque estava com o corpo marcado e até sangrando”.
Quando finalmente deixou o apartamento, às 20h25, a vítima, na saída do prédio, contou ter enviado uma mensagem de áudio para o irmão dizendo que “achava que tinha sido estuprada”. No endereço onde mora, também no bairro, com a avó, a quem trata como mãe, a jovem relatou mais uma vez o que tinha acontecido. Em entrevista ao RJ2, da TV Globo, a avó desabafou:
— Quando eu me deparei com ela e falei: “Filha, o que houve?”. Aí foi quando ela suspendeu o vestido mais ou menos até aparecer a nádega, e eu fiquei desesperada. E só catei os documentos e falei: “Vamos pra delegacia”. Ela se sentia muito culpada e dizia querer desistir da vida por vergonha, porque achava que, por onde ela passasse, todo mundo iria apontá-la como estuprada e como culpada. Ela está conseguindo se conscientizar de que ela não tem culpa, de que ela não está sozinha e de que ela importa.
Policiais foram ao apartamento naquela mesma noite, mas os jovens já haviam deixado o local. O exame de corpo de delito anexado ao inquérito aponta a presença de múltiplas lesões, incluindo equimoses e escoriações na região dorsal e nas laterais do corpo, além de marcas na região glútea. O laudo também registra sangramento na genitália e descreve achados compatíveis com violência física recente.
O inquérito também registra que os jovens mantinham proximidade e histórico de convivência escolar. Dois dos envolvidos são estudantes do Colégio Pedro II, no campus Humaitá: o adolescente de 17 anos, cursando o 1º ano do ensino médio, e Vitor Hugo Oliveira Simonin, que ainda está no 9º ano do ensino fundamental após três reprovações. A reitoria da instituição disse que entrou com processo para o desligamento dos dois estudantes.
O Grêmio Estudantil do colégio emitiu nota exigindo a expulsão dos envolvidos no estupro coletivo antes mesmo da instituição se posicionar.
— Eles não respeitavam quando uma menina dizia “não”. Era algo recorrente. O Vítor Hugo foi expulso do time de futsal da escola porque arrumou briga, saiu na mão com outro rapaz de fora — disse uma aluna do ensino médio do Pedro II.
Uma aluna do 9º ano afirmou que, assim que recebeu a notícia, identificou os responsáveis antes mesmo de ler os detalhes.
— É assustador ver uma pessoa do seu dia a dia ter coragem de fazer algo tão brutal. Na hora em que falaram que havia um menor de idade envolvido, eu sabia que era ele. Antes mesmo de mostrarem a foto — conta.
Mattheus Veríssimo Zoel Martins concluiu os estudos no Colégio Intellectus, em Botafogo, em 2024. João Gabriel Xavier Bertho é atleta, com passagem pelo time de futebol Serrano RJ. Bruno Allegretti é estudante de Ciências Ambientais da Unrio.
Em nota, o Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ) informou que a 2ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal de Violência Doméstica da Área Centro ofereceu denúncia, perante a Vara Especializada em Crimes contra a Criança e o Adolescente, no caso envolvendo o estupro coletivo da adolescente.
* Estagiária sob a supervisão de Leila Youssef



