Neste domingo (8), um pastor encontrou uma caravana escondida em uma trilha na floresta abaixo do Monte Okolchitsa, no noroeste da Bulgária. Dentro do veículo estavam os corpos de dois homens e um adolescente de 15 anos, todos com ferimentos de bala na cabeça. A descoberta ocorreu seis dias após o desaparecimento do trio e transformou em um caso ainda mais complexo a investigação policial, que já apurava a morte de outros três homens, encontrados em 2 de fevereiro em uma cabana incendiada perto do Passo de Petrohan, a cerca de 16 quilômetros dali.
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Segundo a Direção-Geral da Polícia Nacional, os seis mortos estavam ligados a uma mesma organização ambiental. “Este é um caso sem precedentes em nosso país”, afirmou em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (9) Zahari Vaskov, diretor da corporação. A promotora Natalia Nikolova, responsável pelo inquérito, disse que a investigação trabalha com duas hipóteses centrais: homicídio seguido de suicídio ou uma série de suicídios, cenário que abriu espaço para especulações e dividiu a opinião pública.
O incêndio na cabana e as primeiras vítimas
De acordo com a Reuters, o primeiro episódio ocorreu em 2 de fevereiro, quando bombeiros atenderam a um incêndio em uma cabana na região de Petrohan. No local, foram encontrados os corpos de Ivaylo Ivanov, advogado de 49 anos, Decho Vasilev, contador de 45, e Plamen Statev, instrutor de mergulho de 51, todos com tiros na cabeça, além de dois cães mortos no andar superior do imóvel parcialmente destruído pelo fogo. As vítimas integravam a Agência Nacional para o Controle de Áreas Protegidas, ONG que mantinha, desde 2022, um acordo-quadro com o Ministério do Meio Ambiente para monitoramento ambiental na região próxima à fronteira com a Sérvia.
Imagens de câmeras de segurança, divulgadas pela polícia, mostram que, em 1º de fevereiro, os seis homens se despediram em frente à cabana. Ivaylo Kalushev, apontado como líder da organização, deixou o local com Nikolay Zlatkov, de 22 anos, e o adolescente. Os três que permaneceram no abrigo foram vistos recolhendo os cães e, em seguida, incendiando o prédio. “Foi uma honra para mim”, diz uma das vozes registradas. Os corpos foram encontrados enfileirados.
A cabana funcionava como base operacional da ONG, cujos membros patrulhavam a área havia anos e chegaram a ser descritos por veículos locais como “guardas florestais” que auxiliavam a polícia de fronteira — função nunca reconhecida oficialmente. O acordo com o ministério foi rescindido em junho de 2025, após auditoria interna concluir que a entidade não tinha “propósito claro” nem “base legal”, segundo declarou o então ministro Manol Genov.
Perícias indicaram que as três vítimas de Petrohan morreram por ferimentos à queima-roupa, aparentemente autoinfligidos. No local, foram encontradas quatro cápsulas, duas pistolas e um rifle, com DNA compatível apenas com o das vítimas, de acordo com os investigadores. Na caravana em Okolchitsa, a polícia concluiu que os disparos partiram de dentro do veículo; dois corpos apresentavam tiros na cabeça, e a autópsia do terceiro seguia em andamento.
A versão do suicídio coletivo, no entanto, é contestada. Em entrevista a uma rádio local, Plamen Hristanov, ex-chefe da polícia de fronteira, afirmou que o grupo pode ter “visto algo terrível” durante as patrulhas e associou o caso às rotas de tráfico de drogas entre Sérvia e Bulgária, parte da chamada Rota dos Bálcãs, historicamente usada para o contrabando de drogas, migrantes e madeira ilegal.
A controvérsia ganhou contornos políticos. Nikolai Denkov, primeiro-ministro entre 2022 e 2023, acusou instituições de promoverem um “esforço coordenado para encobrir os fatos”. Já Denyo Donev, diretor da Agência Estatal de Segurança Nacional, afirmou que havia recebido, dois anos antes, informações sobre supostos crimes sexuais contra menores na cabana, sem explicar por que não houve providências — declaração que provocou reação de amigos das vítimas, que negam irregularidades e relatam ameaças recentes contra o grupo.
O pai do adolescente, identificado como Markulev, disse à televisão, enquanto o filho ainda estava desaparecido, que acreditava que o encontro com Kalushev seria “seguro” e sugeriu a atuação de um agente externo. As autoridades informaram que ele não colaborou com a investigação. Entre 27 e 31 de janeiro, Kalushev e dois acompanhantes estiveram no sul do país, perto da fronteira com a Turquia, em obras em uma propriedade ligada ao líder da ONG.
Até o momento, nenhuma substância ilícita foi encontrada nos locais. A polícia solicitou 18 perícias forenses, incluindo balística, incêndio e DNA, e ouviu ao menos 15 testemunhas. As autoridades afirmam que continuam apurando possíveis ligações com seitas religiosas, tráfico de pessoas e outras atividades criminosas, enquanto o país acompanha, sem respostas, um dos casos mais enigmáticos de sua história recente.



