O que se sabe sobre a Basij, milícia do regime iraniano na linha de frente da repressão aos protestos

Sob uma leva de protestos que se espalharam por todo o país, a República do Irã lança mão de uma de suas principais armas, o grupo paramilitar Basij, que há décadas atua como braço auxiliar do regime na contenção de


Sob uma leva de protestos que se espalharam por todo o país, a República do Irã lança mão de uma de suas principais armas, o grupo paramilitar Basij, que há décadas atua como braço auxiliar do regime na contenção de dissidências. Parlamentares iranianos chegaram a pedir ao ministro da Inteligência a retomada das patrulhas da milícia, enquanto as forças de segurança intensificam ações contra manifestantes em diferentes regiões do país. Veja a seguir o que se sabe sobre o Basij e a maneira como ele impõe os dogmas da teocracia iraniana, liderada pelo aiatolá Ali Khamenei.

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Criado logo após a Revolução Islâmica de 1979, o Basij — termo que significa “mobilização”, em farsi (ou persa) — foi idealizado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini como uma força popular capaz de defender o regime que se iniciava. À época, o líder religioso chegou a afirmar que o Irã jamais poderia ser derrotado se contasse com uma milícia de 20 milhões de homens.

O Basij, formalmente, é um grupo paramilitar voluntário subordinado à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), a força de elite das tropas iranianas, que responde diretamente ao líder supremo do país. Ao longo dos anos, a milícia consolidou-se como um instrumento central da segurança interna e da imposição da ideologia do Estado.

A organização recruta membros tanto em áreas rurais quanto urbanas e se estrutura principalmente a partir de mesquitas em Teerã e em outras grandes cidades. Seus integrantes, em geral, vêm de camadas mais pobres e conservadoras da população, segundo especialistas ouvidos pela CNN.

A missão do Basij vai além do policiamento convencional. A força atua para sustentar a teocracia iraniana, fazer cumprir códigos de moral islâmica e conter manifestações consideradas ameaças ao regime. Há décadas, o grupo é apontado como protagonista na repressão violenta a protestos e movimentos de contestação.

O papel da milícia ganhou notoriedade internacional durante a guerra Irã-Iraque, entre 1980 e 1988, quando seus integrantes participaram de ataques em “ondas humanas”, usados, segundo relatos, para limpar campos minados antes do avanço das tropas regulares. A partir de 2003, o Basij passou por um reforço significativo, ao ser concebido como primeira linha de defesa interna diante do temor de uma possível invasão liderada pelos Estados Unidos. Desde então, tornou-se presença recorrente nos estágios iniciais de revoltas e distúrbios.

Os Estados Unidos impuseram sanções ao Basij e a comandantes da força em diversas ocasiões, citando violações de direitos humanos, repressão a protestos estudantis e denúncias de uso de crianças-soldados.

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Em episódios recentes, a atuação da milícia voltou a ser decisiva. Em 2022, esteve na linha de frente da repressão às manifestações que se seguiram à morte de Mahsa Amini, detida pela polícia da moralidade. Enquanto no mais remoto 2009, o Basij liderou o controle de multidões quando dezenas de milhares de iranianos protestaram em Teerã contra o resultado da eleição presidencial.

Hoje, o grupo figura novamente entre as forças mobilizadas pelo Estado. A mídia estatal iraniana informou haver vítimas entre integrantes das tropas, incluindo membros do Basij. Além das ações nas ruas, a milícia também pode estar envolvida no monitoramento de atividades online. No domingo, a Agência de Notícias Basij, canal oficial da organização, afirmou que o site e as redes sociais de um blogueiro foram fechados e que “a prisão de blogueiros que apoiam os distúrbios continua”.

O Irã emplaca ainda uma ofensiva contra os meios de comunicação. Mesmo após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que pretende conversar com o bilionário sul-africano Elon Musk sobre a possibilidade de restaurar o acesso à internet por meio do serviço de satélite Starlink, operado pela empresa SpaceX, o apagão quase total permanece. De acordo com a organização de monitoramento NetBlocks, os níveis de conexão com o mundo exterior permanecem em 1% dos níveis normais. A realização de chamadas telefônicas e o envio de mensagens de texto também foi dificultada por lá.

Esta não é a primeira interrupção digital que o país enfrenta, mas especialistas em infraestrutura da internet, incluindo Doug Madory, acreditam que seja quase sem precedentes em sua gravidade e precisão. Madory e alguns outros analistas supõem que o governo construiu um sistema de desligamento automático, capaz de cortar a energia para a maioria, mas colocá-la na lista de permissões para outros. Isso significa que, embora o público iraniano tenha ficado praticamente sem internet, outros, como o próprio líder supremo, ainda conseguiram postar no X e no Telegram.

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O corte mais recente de internet no país foi uma das interrupções nacionais mais severas do mundo, segundo Alp Toker, fundador do NetBlocks. O Irã já bloqueou o acesso à internet durante protestos antigovernamentais anteriormente, inclusive durante um levante generalizado pela liberdade das mulheres em 2022, mas enquanto aqueles desligamentos foram graduais, o mais recente foi imposto em todo o país e de forma célere.

— Vimos que o processo foi totalmente automatizado em um verdadeiro ‘botão de desligamento’ que permite à autoridade cortar a nação inteira, o que é extraordinário — disse Toker.

Especialistas em direitos digitais alertaram na terça-feira que, embora o restabelecimento possa ajudar familiares a se reconectarem, ele pode criar novos riscos ao permitir que as autoridades monitorem os cidadãos e rastreiem suas atividades.

— Há agora um risco muito maior associado ao uso dessas linhas fixas, porque elas não são seguras nem criptografadas — ponderou Toker, acrescentando: — E, de fato, é bem possível que seja por isso que esse serviço tenha sido habilitado seletivamente.

Oficialmente, as autoridades disseram que o bloqueio foi ordenado após a conclusão de que os manifestantes estavam sendo orientados do exterior para criar o caos no país. Na terça-feira, Fatemeh Mohajerani, porta-voz do governo, disse que as autoridades ainda não decidiram quando restaurarão o acesso à internet.

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Há relatos de que a teocracia recorreu a “jammers” — supostamente de uso militar — para bloquear o acesso ao Starlink, que é proibido no país. Paralelamente, forças de segurança passaram a apreender antenas parabólicas em cidades como Teerã, Sanandaj e Isfahan, além de Marivan, Mahabad e Baneh, noticiou a BBC Persian. Após anos priorizando o bloqueio eletrônico de sinais, o regime indica agora uma mudança de estratégia, com a retomada da retirada física das parabólicas como forma de controle das comunicações.

O bloqueio da internet acendeu o alerta de organizações de direitos humanos sobre um possível endurecimento da repressão no Irã. A Anistia Internacional declarou que o corte da internet parece ter como objetivo ocultar a dimensão de violações graves de direitos humanos durante a repressão, uma acusação que as autoridades iranianas rejeitam. O comandante-chefe da polícia, Ahmadreza Radan, afirmou que o “nível de repressão” foi elevado e que prisões importantes foram realizadas. Segundo ele, parte das mortes teria ocorrido por golpes de faca ou disparos feitos por “elementos treinados”, e não pelas forças de segurança. O governo também acusa os EUA e Israel pelos distúrbios.

Com o apagão, brasileiros em Teerã procuraram a embaixada nos últimos dias para contatar familiares no Brasil e tranquilizá-los, conforme antecipou a coluna Lauro Jardim. Esses cidadãos, segundo a reportagem, se dirigiram pessoalmente à sede da representação brasileira para pedir auxílio. A missão diplomática também enfrenta dificuldades de comunicação, mas tem buscado alternativas para falar com Brasília.

Sobre a caça aos usuários da Starlink, apontada ao Wall Street Journal por Amir Rashidi, diretor do Miaan Group, uma organização sem fins lucrativos dos EUA que se opõe à censura na internet, a avaliação dele é de que se trata de uma “guerra eletrônica” em curso. Ele afirmou que as interrupções são piores justamente em partes de Teerã onde ocorrem protestos e à noite, quando os manifestantes se reúnem.

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Embora o sul-africano e a SpaceX não tenham comentado o assunto, Musk tem apoiado a disponibilização do Starlink a iranianos para ajudá-los a contornar as restrições impostas pelo governo, inclusive durante protestos anteriores, em 2022. Naquele ano, a Casa Branca, ainda sob comando do democrata Joe Biden, dialogou com o bilionário para implementar os serviços da Starlink no Irã, depois que o país foi tomado por protestos após a morte, sob custódia policial, de Masha Amini, de 22 anos. Os protestos atuais seriam os maiores desde então.

Os vídeos das ruas nas manifestações costumam funcionar como uma das poucas maneiras de divulgar informações capazes de dimensionar os protestos e as ações das autoridades iranianas.

De acordo com a empresa de segurança digital Cloudflare, interrupções generalizadas de serviços vêm ocorrendo desde quinta-feira. Ainda que apagões de internet sejam comuns no país, Amir Rashidi, diretor de segurança da internet e direitos digitais da ONG Miaan Group, disse à BBC que nunca tinha visto condições como essa. Outro pesquisador da área, Alireza Manafi, afirmou que a única forma provável de conexão seria via satélite Starlink, mas alertou que os usuários devem ter cautela, porque as atividades podem ser rastreadas pelo governo.

— Eu nem quero pensar nisso. A ideia me assusta. Eu poderia ser acusado de espionagem — disse um morador ao ser questionado sobre o que as autoridades iranianas fariam se descobrissem que ele estava conectado. — [Mas] essa dor e essa fúria não deveriam ficar escondidas. O mundo precisa saber o que está acontecendo conosco aqui dentro.

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Organizações de direitos humanos alertam que o apagão prolongado impede a confirmação de dados sobre vítimas. A ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, afirma ter confirmado ao menos 192 mortes, mas considera que o número real pode ser muito maior. A Hrana, outra organização com sede nos EUA, por sua vez, disse ter verificado a morte de 490 manifestantes e 48 integrantes das forças de segurança, além da prisão de mais de 10,6 mil pessoas em duas semanas de protestos. O Irã não divulgou um balanço oficial de mortos.

Os protestos tiveram início em 28 de dezembro, motivados pela disparada dos preços e pelo agravamento da crise econômica. Com o passar dos dias, as manifestações ganharam um caráter mais amplo e passaram a questionar diretamente a elite clerical que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979. A insatisfação também se voltou contra a Guarda Revolucionária, força poderosa com interesses bilionários em setores estratégicos da economia iraniana. (Com agências internacionais).



Conteúdo Original

2026-01-14 00:00:00

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