A memória de Ana (nome fictício) permanece na última semana de janeiro, quando ela e o filho ficaram juntos, entre beijos e abraços, como há muito tempo não acontecia. Em especial, ela lembra o dia em que ambos estavam sentados no chão da sala, ela massageando delicadamente os pés do rapaz, de 20 anos, enquanto orava silenciosamente, rogando a Deus que o mantivesse firme na decisão de deixar o tráfico. Rompendo o silêncio, ele pediu que a mãe colocasse um louvor, daqueles que ouviam quando ele era criança. Dias depois, Ana recebeu a notícia de que o filho tinha morrido, junto a mais três colegas de facção, voltando de uma “guerra” no Castelar, em Belford Roxo.
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O registro da morte, feito pela PM no dia 30, resume que uma equipe do 39° BPM foi acionada após o setor de inteligência avisar sobre uma troca de tiros na comunidade do Gogó da Ema, chefiada pelo Comando Vermelho. A informação detalhava ainda que criminosos estariam em um HB20 prata. A equipe foi ao local, encontrou o veículo e, no momento da aproximação, houve confronto — de no máximo quatro minutos, como escreveram os agentes na ocorrência.
O filho de Ana e os outros rapazes foram encontrados baleados no carro. Os policiais afirmaram que todos tinham sinais vitais e foram levados para o hospital municipal de Belford Roxo, onde morreram. Não houve perícia no local do crime porque havia “risco de novos confrontos”. Quatro fuzis, uma granada e cinco celulares foram apreendidos.
O GLOBO acompanhava o filho de Ana pelas redes sociais há dois meses, além de outro que também estava no carro e faleceu. Este, de 17 anos, começou a ter o perfil monitorado logo após a megaoperação policial na Penha, em 28 de outubro, na qual 117 suspeitos foram mortos. A história de ambos faz parte da série “Juventude Perdida”, que começou a ser publicada em dezembro. Os rapazes das primeiras reportagens, todos amigos, tinham ligações com esses dois mortos do dia 30.
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Ana correu para o hospital, mas foi surpreendida com a impossibilidade de ver o filho. Precisou aguardar a transferência para o Instituto Médico-Legal da Baixada Fluminense. No entanto, durante a espera, soube que uma foto dele, já morto, circulava por grupos de WhatsApp ligados ao Terceiro Comando Puro. A legenda era o vulgo dele com uma sequência de emojis de fogo.
Segundo Ana, ele e o irmão, dois anos mais velho, ingressaram simultaneamente para o tráfico. Foi na virada de 2018 para 2019, quando tinham, respectivamente, 13 e 15 anos. Enquanto os pais trabalhavam, eles fugiram para o baile que acontecia na comunidade onde moravam, dominada pelo TCP.
— Quando cheguei em casa, bati nos dois. Meus filhos foram criados brincando na rua, mas, depois que começou a ter boca de fumo, tivemos que privá-los disso. Eles não aceitaram bem e, sempre que tinham oportunidade, fugiam — lembra ela, que foi a muitas festas atrás deles.
A dupla, como conta, ficou “indo e voltando” do tráfico. A situação mudou quando o irmão mais velho foi assassinado pelo próprio TCP, em junho de 2024. O corpo nunca foi entregue à família, nem a justificativa foi revelada. Para evitar contestações, chefes da facção impediram que o caçula voltasse para a comunidade. E foi assim que ele migrou para o CV.
— Meus filhos foram usados. É isso que o tráfico faz, usa as pessoas. O CV se aproveitou da raiva dele, da sede de vingança, para prometer um monte de coisa. Nunca deixei faltar nada para eles, eu e meu marido abrimos mão da gente por eles, mas parece que a vida os guiou dessa forma, primeiro, com más influências, depois, com ilusões — lamenta.
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Ana confessa ter denunciado o filho algumas vezes à polícia, na expectativa de que, preso, ele não morresse como o irmão. O menino estudou até o segundo ano do ensino médio. Foi matriculado em uma série de cursos oferecidos pelo município e até chegou a participar de obras da Prefeitura de Queimados por meio de uma empresa terceirizada. Contudo, ele sempre retornava para o tráfico:
— Eu vi chefes importantes do CV ligarem para ele pedindo para voltar. Gente grande, lá da Penha. Não tinha ameaça, mas colocavam coisas na cabeça dele. No final, ele sempre me ligava chorando: “Mãe, eu não aguento mais, eu quero sair, mas não consigo. Eu já sou procurado, já está tudo perdido”. Eu insistia que era importante limpar o nome, mas nada o convencia por muito tempo. Eu sei que fica essa visão de que ele é bandido, mas meu filho era uma pessoa maravilhosa, sempre foi.
Enquanto estava no tráfico, ele foi apreendido três vezes e levado para o Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase). A mãe comenta que, durante as audiências de custódia, afirmava à juíza não ter condições de levá-lo para casa, pois sabia que ele voltaria para o crime — o que aconteceu em todas as vezes.
De acordo com o Instituto de Segurança Pública, 109 adolescentes foram apreendidos em 2025 na região da 54ª DP (Belford Roxo). Esse número é cerca de 82% maior do que em 2024, quando 60 ocorrências foram registradas.
— Eu fiz o que pude para evitar que esse fosse o fim do meu filho. Meu maior sonho era olhar para ele e saber que superou esse momento difícil da vida. Vê-lo se tornar um novo homem. Mas não vai acontecer — conclui a mãe.
Convite do chefe do tráfico
O adolescente que morreu no dia 30 é conhecido pela Polícia Civil desde os 13 anos, quando foi apreendido e prestou depoimento na Delegacia de Homicídios da Capital. À época, acompanhado pela mãe, ele contou que entrou para o tráfico aos 11 anos a convite de Carlos da Costa Neves, o Gardenal, um dos chefes do CV na Penha. Seu “batismo” foi o assassinato de um desafeto da facção. Ele puxou o gatilho e, desde então, ganhou a confiança do grupo.
O jovem atuou na Gardênia Azul, onde namorou uma adolescente também faccionada, e, no ano passado, foi para o Gogó da Ema. Ele e o filho de Ana eram da mesma equipe, destinada às disputas territoriais com o TCP na Baixada Fluminense. Nas redes sociais, os dois aparecem juntos, trajados com roupas camufladas, armados com fuzis e equipados com coletes balísticos.



