facções do tráfico da Venezuela e do Brasil aliciam imigrantes na fronteira

Nas proximidades de um dos abrigos da Operação Acolhida, em Boa Vista, capital de Roraima, quatro venezuelanos cochichavam na última sexta-feira, seis dias após a captura de Nicolás Maduro determinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Além das incertezas


Nas proximidades de um dos abrigos da Operação Acolhida, em Boa Vista, capital de Roraima, quatro venezuelanos cochichavam na última sexta-feira, seis dias após a captura de Nicolás Maduro determinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Além das incertezas sobre o futuro do país, a insegurança na própria fronteira dominava a conversa.

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— Há grupos que tentam convencer as pessoas a traficar, e quem recusa pode apanhar ou morrer — relatou um venezuelano de 25 anos, que vive há um ano em um abrigo mantido pelo Exército e atualmente sobrevive de “bicos” nas ruas de Boa Vista.

O relato encontra respaldo em informações de inteligência e investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) e as forças de segurança estaduais. Facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), além de grupos venezuelanos a exemplo do Tren de Aragua — classificado como terrorista pelo governo Trump no ano passado — e o Pranato, vêm aliciando imigrantes que cruzam a fronteira para atuar no tráfico de drogas.

O recrutamento ocorre tanto no limite com a Venezuela, em Pacaraima, quanto nas ruas e até dentro de abrigos humanitários em Boa Vista, a pouco mais de 200 quilômetros do país vizinho.

Abrigo em Boa Vista: aliciamento também ocorre nesses espaços — Foto: Isac Nóbrega

Ao longo de uma semana, O GLOBO ouviu imigrantes, acompanhou a atuação das forças de segurança no Brasil e na Venezuela, conversou com setores de inteligência e entrevistou autoridades locais. Há consenso que, após oito anos de explosão do fluxo migratório para Roraima, e apesar do reforço policial, a atuação de venezuelanos no tráfico espalhou-se por todo o estado.

Facções aliciam migrantes venezuelanos para o tráfico na fronteira com Roraima

Facções aliciam migrantes venezuelanos para o tráfico na fronteira com Roraima

De acordo com dados do governo federal, o número de venezuelanos em Boa Vista e Pacaraima chegou a 5.102 abrigados neste mês. Com tamanho movimento, facções brasileiras e do país vizinho intensificaram o recrutamento.

— Essas pessoas já viviam em situação de muita vulnerabilidade e ficam expostas. O crime organizado se aproveita disso — destaca Hércules Pereira, secretário de Justiça e Cidadania de Roraima.

Cemitério na capital escondia dez corpos, a maioria de venezuelanos — Foto: Patrik Camporez
Cemitério na capital escondia dez corpos, a maioria de venezuelanos — Foto: Patrik Camporez

Ao cruzarem a fronteira por Pacaraima, os venezuelanos passam inicialmente pelo posto de triagem da Operação Acolhida, onde são identificados, vacinados e recebem orientação básica. Em seguida, parte deles é encaminhada a abrigos temporários mantidos pelo governo federal e por agências humanitárias.

Após esse primeiro acolhimento, muitos seguem para Boa Vista, onde também podem permanecer em abrigos — a cidade concentra a maior parte das estruturas de acolhimento. Eles também recebem assistência social, atendimento de saúde e apoio para interiorização ou busca por trabalho.

A estrutura, no entanto, não impede a ação criminosa, apesar do reforço do Exército nos últimos anos. O secretário-adjunto de Segurança Pública de Roraima, Ellan Wagner Oliveira, afirma que a atuação das facções venezuelanas costuma ser mais violenta do que a das brasileiras, assemelhando-se mais aos cartéis mexicanos.

— Corpos já foram encontrados esquartejados e desovados em ruas dentro de lixeiras — narra Oliveira.

Esse padrão de violência ganhou contornos ainda mais graves com a descoberta, no ano passado, de um cemitério clandestino em uma área de mata entre os bairros Pricumã e Cinturão Verde, a menos de 500 metros de um dos principais abrigos da capital. Ao todo, dez corpos foram encontrados enterrados no local, a maioria de venezuelanos. A Polícia Civil investiga se os crimes têm ligação com o Tren de Aragua. Pichações por Boa Vista demarcam o domínio e a divisão territorial de facções.

— A gente ficou abalado. Nunca imaginei que existia um cemitério clandestino tão perto da minha casa — conta a feirante Karol Rodrigues, moradora da região há 15 anos.

Apesar de, segundo as autoridades, o aliciamento dentro dos abrigos ter diminuído com a presença constante das Forças Armadas, o recrutamento migrou para áreas externas. A própria Secretaria de Segurança Pública admite que criminosos passaram a atuar no entorno dos espaços de acolhimento e em bairros periféricos, oferecendo moradia e pequenas quantias em dinheiro em troca da entrada no tráfico. Algumas dessas casas funcionam como pontos de apoio e células do crime.

Procurado, o Exército disse que a Casa Civil ficaria responsável por comentar o aliciamento de venezuelanos. A pasta não se manifestou, tampouco o Ministério da Defesa.

Relatórios da inteligência da Polícia Federal, obtidos pelo GLOBO, apontam que o PCC passou a enxergar em Roraima uma “oportunidade estratégica” a partir do fluxo migratório de venezuelanos. Segundo a PF, a facção iniciou um processo de “recrutamento em larga escala de criminosos oriundos da Venezuela, com o objetivo de reforçar suas fileiras na disputa territorial com o Comando Vermelho”. A entrada desses criminosos no Brasil e sua posterior incorporação ao PCC foram confirmadas por provas colhidas na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo, a maior unidade prisional do estado.

Por onde eles entram — Foto: Editoria de Arte
Por onde eles entram — Foto: Editoria de Arte

Durante operações de revista no presídio, agentes apreenderam anotações com registros de “batismo” de venezuelanos na facção, muitas delas indicando as penitenciárias de origem dos recrutados, todas do outro lado da fronteira. Diante do risco de fortalecimento da organização criminosa, um inquérito específico sobre o caso foi aberto, o que resultou em 19 prisões.

Após essas ações, segundo a inteligência da PF, o PCC abandonou a política de recrutamento em massa, considerada incompatível com a hierarquia interna da facção, passando a admitir venezuelanos de forma pontual e individualizada. Ainda assim, a corporação alerta para a ocorrência de ataques violentos, como roubos com uso de ácido em sinais de trânsito, além de crimes marcados por mutilação deliberada, com agressões direcionadas aos olhos mesmo após as vítimas estarem imobilizadas. A mudança no perfil da criminalidade também é observada em crimes como esquartejamentos, associados ao Tren de Aragua.

Dados da inteligência estadual indicam ainda aumento do poder de fogo dessas facções. Entre 2015 e 2019, nenhuma arma de grosso calibre havia sido apreendida em Roraima. De 2020 até agora, período que coincide com o aumento do fluxo migratório, foram apreendidas 22 armas, entre fuzis, metralhadoras e submetralhadoras. No plano externo, a falta de cooperação internacional é apontada como um entrave.

— O governo venezuelano não colabora. Não recebemos informações confiáveis sobre os criminosos de lá — reclama o secretário de Justiça, Hércules Pereira.



Conteúdo Original

2026-01-14 03:30:00

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