Décadas depois, mães chinesas ainda buscam filhos raptados por tráfico alimentado pela ‘política do filho único’ nos anos 1980 e 1990; entenda

Trinta anos após o rapto de seu bebê, Chen Mingxia ainda convive com a dor da perda. A lembrança do filho, sequestrado quando tinha menos de um ano, segue viva, como a de milhares de famílias chinesas atingidas por um


Trinta anos após o rapto de seu bebê, Chen Mingxia ainda convive com a dor da perda. A lembrança do filho, sequestrado quando tinha menos de um ano, segue viva, como a de milhares de famílias chinesas atingidas por um tráfico de crianças alimentado pela preferência cultural por filhos homens durante a vigência da política do filho único.

  • Veja: Nova acusadora de Epstein alega ter tido encontro sexual com o ex-príncipe Andrew
  • Britney Spears: Antes dos rumores sobre show em Copacabana, a diva disse que sua volta aos palcos seria ‘em breve’

Com um mechão de cabelo e vestindo um pijama verde, Li dormia enroscado entre os pais naquela quente noite de verão de 1995 em que foi levado, recorda a mãe, hoje com 52 anos, em entrevista à AFP.

Sete ou oito homens invadiram a casa da família na província de Cantão, no sul do país. Após serem espancados e amarrados, os pais ficaram impotentes, ouvindo o choro do bebê.

“Levaram o meu bebê” e desapareceram, relata Chen, por telefone, com a voz embargada.

Não há estatísticas oficiais que dimensionem a magnitude do fenômeno, mas especialistas estimam que milhares de crianças tenham desaparecido dessa forma na China nas décadas de 1980 e 1990.

Na maioria dos casos, os menores e seus pais biológicos foram vítimas de sequestradores que agiam sob encomenda de famílias desesperadas por ter um filho homem. Meninas indesejadas eram frequentemente abandonadas ou até vendidas.

À época, o país aplicava de forma rigorosa a política do filho único, adotada para conter o crescimento populacional, impulsionar o desenvolvimento e combater a pobreza. A medida só foi abolida em 2016 — e hoje a China enfrenta o problema oposto: uma acentuada queda populacional.

A taxa de natalidade caiu no ano passado ao nível mais baixo desde o início dos registros, em 1949, segundo dados oficiais divulgados em janeiro.

Nos dias que se seguiram ao sequestro de Li, Chen Mingxia e o marido saíam de casa antes do amanhecer para procurá-lo nas montanhas próximas. O menino estava a poucas semanas de completar um ano.

— Eu me culpo muito por não ter podido celebrar o primeiro aniversário dele com ele — diz a mãe.

Ela afirma que seu “maior desejo” é reencontrar o filho. “Sinto como se tivesse uma enorme pedra sobre o coração. Se eu não o encontrar, será um grande pesar pelo resto da minha vida.”

— É uma dor terrível — resume.

Segundo Jingxian Wang, pesquisadora do King’s College de Londres, o tráfico de menores era alimentado em parte por “um desejo profundamente enraizado de perpetuar a linhagem patriarcal”.

— Considerava-se que um herdeiro homem era o único que podia garantir a continuidade familiar — explica, destacando que o sobrenome é transmitido pelos filhos do sexo masculino.

Xu Guihua, tia de um menino de quatro anos desaparecido em 1995, relata que seis crianças que viviam em sua rua, na província de Guizhou, no sudoeste da China, sumiram entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990.

O sobrinho voltava sozinho para casa, a pé, a partir do mercado onde a mãe vendia verduras. Nunca chegou.

— Como poderíamos saber que havia tantos traficantes de pessoas naquela época?” — questiona Xu: — Não havia vigilância. Por isso os traficantes de pessoas podiam agir com tanta liberdade.

Em 2024, as autoridades chinesas lançaram uma ampla campanha contra o tráfico de pessoas. Diversas condenações à morte foram decretadas, entre elas a de Yu Huaying, executada em fevereiro de 2025 após ser considerada culpada pelo sequestro e tráfico de 17 crianças entre 1990 e 2000.

As estratégias de busca também mudaram radicalmente. Se nos anos 1990 pais aflitos percorriam o país em buscas solitárias, hoje recorrem às redes sociais para tentar alcançar os cerca de um bilhão de internautas chineses.

Aplicativos como Xiaohongshu, equivalente ao Instagram, e Douyin, a versão chinesa do TikTok, estão repletos de avisos de desaparecimento publicados por famílias, com fotos, descrições físicas e datas dos sequestros.

Xu Guihua conta que chegou a percorrer várias províncias com cartazes do sobrinho na mão.

— Por que você não aparece? Por que não se mostra e nos encontra? Sua tia, seu pai e sua mãe têm procurado você por toda parte — diz ela: — Sinto muito a sua falta.



Com informações da fonte
https://oglobo.globo.com/mundo/epoca/noticia/2026/02/03/decadas-depois-maes-chinesas-ainda-buscam-filhos-raptados-por-trafico-alimentado-pela-politica-do-filho-unico-nos-anos-1980-e-1990-entenda.ghtml

Posts Recentes

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE