Quem conhece o presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União), sabe o quanto ele tinha receio de sofrer interceptações telefônicas ou ser alvo de escuta ambiental. Em seu gabinete, muito antes de ser preso pela Polícia Federal — atualmente está solto e cumpre medidas cautelares por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes —, Bacellar evitava celulares por perto e colocava música alta, segundo fontes. A surpresa maior veio quando agentes da PF encontraram, na sala da presidência da Assembleia Legislativa, um equipamento para bloquear sinais de celular e impedir gravações, conhecido como jammer.
- Chefe do CV ligado a TH Jóias volta ao Rio após deixar presídio federal, na semana em que Bacellar é preso
- PF adota ‘fator surpresa’ para evitar vazamentos e impedir sumiço de celulares, como na prisão de Bacellar
Em 28 de janeiro deste ano, Bacellar foi indiciado pela Polícia Federal por suspeita de vazamento de informações sigilosas para integrantes do Comando Vermelho. Segundo o relatório assinado pelo delegado federal Guilhermo Catramby — o mesmo que investigou os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes —, no âmbito da Operação Zargun, realizada em 3 de setembro do ano passado, o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias, teria sido avisado pelo presidente da Alerj sobre o mandado de prisão contra ele. Além de alertá-lo sobre a operação, Bacellar ainda teria orientado que destruísse provas e mudasse de celular, o que foi prontamente atendido. TH fez uma nova ligação para o presidente da Alerj de outro aparelho.
- Moraes diz que encontrou indícios de autoria do desembargador Judice Neto em cinco crimes; veja quais são
Durante as investigações, hábitos atribuídos a Bacellar e aos demais indiciados revelam uma preocupação constante em evitar a produção de provas que pudessem incriminá-los. Se, no gabinete da presidência, foi apreendido um jammer, no apartamento do ex-chefe de gabinete de Bacellar, Rui Carvalho Bulhões Júnior, ao lado da cama, havia anotações com um passo a passo de como excluir dados de celulares. Os dois aparelhos de Bulhões estavam desligados no mesmo local em que o manuscrito foi encontrado. Apesar disso, o ex-chefe de gabinete não foi incluído entre os indiciados — ao todo, a PF apontou cinco nomes.
A Polícia Federal também analisou os celulares de Bacellar e do desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, Macário Judice, investigado sob suspeita de vazamento de informações sigilosas ao presidente afastado. O magistrado está preso. No relatório, os investigadores registram uma “ausência incomum” de interações entre ambos, indicando um “suposto apagamento seletivo de conversas”. Há, segundo a PF, “notória existência de conversa entre ambos, extraída do celular de Bacellar”, mas os mesmos diálogos não foram localizados no telefone do magistrado.
- PF relaciona soltura de Bacellar com distribuição de cargos no governo do RJ a deputados estaduais
Chamou atenção ainda o uso de telefone “bomba” ou “bucha” — aparelho utilizado exclusivamente para falar com uma pessoa ou com um grupo restrito. Um dos três celulares apreendidos com Bacellar no momento da prisão, na sede da Superintendência da PF, na Praça Mauá — quando o superintendente, delegado Fábio Galvão, o atraiu sob o pretexto de uma conversa —, tinha numeração em sequência e era da mesma operadora. Nos contatos, em vez de fotos, apareciam figuras genéricas no perfil.
No relatório, Catramby explica que a escolha dessa operadora específica se devia ao fato de ela impor “empecilhos” de ordem prática que “frustram a fluidez da persecução penal”. A autoridade policial não detalha quais seriam essas barreiras, mas destaca que a estratégia dificultaria a identificação dos interlocutores.
- PF planeja terceira fase da Operação Unha e Carne baseada em dados extraídos de celulares de Bacellar e desembargador
As conversas entre Bacellar e Macário, de acordo com a investigação, também ocorreriam por meio de chamadas de vídeo — uma alternativa que reduziria o risco de interceptações telefônicas tradicionais.
Os investigadores identificaram ainda um movimento digital que ampliou as suspeitas. Flávia Judice, esposa do desembargador, pesquisou em sites de busca formas de apagar dados da nuvem e ocultar aplicativos. A perícia revelou que os registros de localização disponíveis começam apenas em 4 de setembro do ano passado, às 14h24. Não há qualquer dado anterior. Justamente nos dias 2 e 3 de setembro de 2025 — período central dos fatos sob investigação — as informações desapareceram. Também foram apagados dados e gravações de câmeras do dia 8 daquele mês. A sequência de exclusões criou um vazio cronológico que, para os investigadores, não parece casual — e pode indicar que algo relevante ocorreu exatamente nesse intervalo.
- Magistrado preso: Desembargador Judice Neto ficará em presídio de Niterói numa sala com cama, TV e refrigerador
A preocupação com segurança extrapolava o ambiente institucional. No apartamento de Bacellar, na Avenida Atlântica, em Copacabana, a porta de acesso é blindada.



