A duas semanas do início de um novo julgamento pelo assassinato da jovem Paulina Lebbos, morta em 26 de fevereiro de 2006 na província de Tucumán, na Argentina, uma ex-amiga da vítima admitiu, durante audiência, que mentiu no processo realizado em 2018. Virginia Mercado fechou acordo com o Ministério Público para cumprir três anos de prisão por encobrimento, em regime condicional.
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Um quarto julgamento do caso está marcado para 2 de março e deve definir os responsáveis diretos pela morte de Paulina. O principal acusado é o ex-companheiro da vítima, Víctor César Soto, hoje com 44 anos e pai de uma filha com ela. Também será julgado como suposto cúmplice Sergio Kaleñuk, filho de um ex-secretário do então governador José Alperovich.
Já Virginia, considerada testemunha-chave, havia prestado depoimento em fevereiro e dezembro de 2018. Na noite do crime, ela saiu com Paulina, então com 23 anos, para uma boate e deixou o local em um carro alugado com a vítima — último contato conhecido. Após cerca de 15 dias desaparecida, a jovem foi encontrada morta em 11 de março, às margens da rodovia 341, na altura de Tapia, a cerca de 30 quilômetros de San Miguel de Tucumán.
Naquele processo, os juízes determinaram a investigação de Mercado por inconsistências em seu depoimento, incluindo divergências em relação a testemunhos anteriores e respostas evasivas sobre os acontecimentos.
Para o Ministério Público provincial, a conduta ultrapassou o falso testemunho e configurou atuação deliberada para impedir a descoberta da verdade, motivo pelo qual ela foi acusada de encobrimento agravado contra a administração da Justiça. Na audiência recente, admitiu o crime, aceitou a tipificação penal e ratificou o acordo de três anos de prisão condicional.
— Há muitas inconsistências. Quando Paulina desaparece, vou procurar Virginia. Ela me diz o que todos sabemos: que saiu com um grupo para a boate Gitana e depois voltaram em um carro de aluguel. Ela desceu primeiro e minha filha seguiu para se encontrar com Soto. Aí me comenta e também declara que haviam ocorrido episódios de violência, que um dia Paulina voltou chorando porque Soto a havia estrangulado. Mas, quando começou o julgamento, vieram os ‘não me lembro’. Perguntaram por que haviam se separado do grupo e ela não respondeu. Disse que não tinha conhecimento da relação com Soto, quando sabia que tinham uma filha em comum. São mentiras muito grosseiras — afirmou o pai da vítima, Alberto Lebbos, antes do julgamento abreviado.
Durante a audiência, Mercado não detalhou o que ocorreu nem indicou possíveis autores materiais ou intelectuais do assassinato.
— Ela sabe perfeitamente a verdade do que aconteceu. A única forma de se redimir é dizer a verdade para que se faça justiça por Paulina. Há muita gente que sabe o que aconteceu e está em um delito continuado. Continuam protegendo os assassinos — acrescentou Lebbos.
A última audiência com Paulina foi realizada de forma virtual, já que Mercado reside atualmente no Paraguai. Na sessão, ela confirmou o entendimento firmado com os promotores e confessou ter mentido no julgamento iniciado em 2018 e concluído em 2019, quando foram condenados por encobrimento o ex-ministro de Segurança de Tucumán Eduardo di Lella e o ex-chefe da polícia provincial Hugo Sánchez, entre outros.
A homologação depende de decisão do juiz Patricio Prado, que tem prazo de dez dias úteis para analisar a legalidade do acordo e eventual necessidade de pena mais severa.
Segundo a reconstrução do caso, Paulina encontrou-se com Soto após sair para dançar na noite de 26 de fevereiro de 2006. O corpo foi localizado apenas em 11 de março, preso à vegetação de um barranco durante buscas policiais, e identificado dois dias depois.
O cadáver apresentava avançado estado de decomposição, ferimentos de arma branca, queimaduras de cigarro e desprendimento do couro cabeludo. “Eu teria gostado de estar quando encontraram Paulina; acho que teria conseguido reconhecê-la”, declarou Soto à imprensa local na época. A autópsia apontou estrangulamento como causa da morte.
O crime provocou forte repercussão política em Tucumán. Ao longo de três julgamentos anteriores, foram condenados por encobrimento integrantes da cúpula da polícia provincial, além de funcionários públicos, políticos e membros do sistema judicial.
De acordo com a acusação, Kaleñuk teria ajudado Soto a ocultar o corpo e a construir uma versão para impedir que a verdade viesse à tona.



