Era dezembro de 2022 quando Ana Camarillo tentou comprar um rifle Barrett M82, modelo semiautomático calibre .50, em uma feira de armas em Phoenix, no Arizona. O rifle, projetado para destruir blindagem leve, estruturas, equipamentos de comunicação e aeronaves em solo, tem preço avaliado entre US$ 8 mil e US$ 14 mil. Ele se destaca pelo seu alcance efetivo de 1,5 a 2,5 km e pelo alto poder de destruição. Ana não conseguia erguê-lo sozinha. Ainda assim, o comerciante concluiu a venda, completada com pagamento feito em dinheiro vivo.
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Mais tarde no mesmo dia e local, outro grupo de pessoas também adquiriu sete rifles calibre .50, além de cinco rifles de assalto e duas pistolas. Três anos depois, em março de 2025, uma dessas armas foi recuperada em Sinaloa, no México, dando início a uma investigação abrangente da Agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos Estados Unidos (ATF, na sigla original em inglês). Como resultado, foi revelado o funcionamento de uma rede que comprava armas legalmente no Arizona para revendêlas ao crime organizado no México.
Ao todo, nove americanos foram denunciados por coordenar o esquema entre 2022 e 2024, num caso que lançou luz sobre a facilidade de aquisição de armamentos de alto poder nos EUA e seu destino ao sul da fronteira. Documentos aos quais o El País teve acesso evidenciam o crescimento do fluxo de armamento que supostamente favorece grupos criminosos ao sul do Rio Grande. Nesse esquema, Ana era apenas uma peça na estrutura de “compradores de fachada”, como são conhecidas pessoas que emprestam seu nome para a aquisição legal de armas.
De acordo com relato de Jesús Álvarez, agente da ATF, os responsáveis por coordenar o esquema eram os irmãos Jorge e Alejandro Corona. Eles são acusados de adquirir oito rifles calibre .50, quatro metralhadoras semiautomáticas M240-SLR, um rifle semiautomático adicional e duas pistolas de 9 milímetros. O calibre .50, destaca o relatório da agência, consolidou-se como uma das armas longas mais cobiçadas pelo crime organizado mexicano, frequentemente descrita como “arma favorita” ou de “uso de guerra” devido ao alto poder destrutivo.
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De acordo com a denúncia, os irmãos Corona recrutavam colaboradores por meio de redes sociais como Snapchat e Facebook, utilizando perfis falsos ou clonados, e ofereciam entre US$ 800 e US$ 1 mil para que terceiros comprassem as armas indicadas por eles. Os interessados recebiam em espécie o valor necessário e as especificações do armamento. No momento da compra, preenchiam com informações falsas um formulário obrigatório da ATF, exigido para a aquisição em estabelecimentos autorizados nos Estados Unidos.
Pela legislação americana, o comprador deve preencher pessoalmente o documento para que sua elegibilidade seja verificada por meio de checagem de antecedentes. Fornecer informações falsas constitui crime federal, punível com até 15 anos de prisão e/ou multa de até US$ 250 mil. O depoimento de Álvarez não detalha os critérios de pagamento adotados pelos irmãos Corona, mas indica que outros sete integrantes do grupo receberam quantias que variaram de US$ 1.500 a US$ 14 mil para concluir compras e entregas de armas de diferentes tipos e calibres.
— Os EUA praticamente não fazem nada. Isso não significa nada, já que faz parte de pequenos esforços de agências com orçamento muito limitado, que de tempos em tempos realizam detenções desse tipo. Nossos números mais consistentes indicam que cerca de 145 mil armas entram no México por ano. São cerca de 400 por dia — afirmou Carlos Pérez Ricart, professor da Divisão de Estudos Internacionais do Centro de Pesquisa e Docência Econômicas (CIDE), ao El País.
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Ricart, autor do livro “A violência veio do Norte”, classifica os “laranjas” como parte de uma “rede formiga” de tráfico de armas que envolveria ao menos 50 mil pessoas em todo o território americano. Para ele, a atuação conjunta da ATF, da Alfândega e do México equivale a procurar “uma agulha em um palheiro”, diante da dimensão do problema.
Movimentação financeira
O inquérito também detalha a movimentação de grandes quantias em dinheiro. Segundo Álvarez, os irmãos Corona mantinham elevados montantes em espécie. April Corral, uma das colaboradoras, relatou que, em certa ocasião, havia dinheiro espalhado pela caminhonete e uma sacola plástica com cerca de US$ 50 mil em espécie quando foi buscada para realizar uma compra.
Alejandro Corona disse que costumava depositar o dinheiro em uma cidade do Arizona e sacá-lo em outra, sempre em valores inferiores a US$ 9 mil para evitar exigências de comunicação bancária. Declarou ainda que adotava a estratégia para evitar questionamentos em postos da Patrulha de Fronteira dos EUA e que, em algumas ocasiões, colava dinheiro ao corpo com fita adesiva para atravessar controles.
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Após a compra, segundo seu depoimento, as armas eram repassadas a dois cúmplices — Salvador García Moreno e Noe N. —, responsáveis por contrabandear dinheiro aos EUA e transportar armamento ao México. No processo, aparecem ao menos sete lojas com licença federal para comercialização de armas onde o grupo realizou múltiplas compras. Em algumas ocasiões, as transações não foram concluídas por diferentes razões, mas o relatório não menciona negativa formal de venda.
Operações da área de Investigação de Operações Industriais (IOI) da ATF em feiras de armas também identificaram a aquisição de armamento considerado “inadequado” por civis que pagavam grandes quantias em dinheiro. Em dezembro de 2022, segundo Álvarez, uma loja comercializava rifles de alta gama com alimentação por correia e variantes do AK-47, todos calibre .38, além de cartuchos populares para autodefesa e uso policial, descritos como de “bom poder de parada”.
— Todas essas armas são preferidas por membros dos cartéis mexicanos e são amplamente desviadas do comércio tradicional de armas e traficadas para o México — afirmou o agente.
Em outubro de 2025, autoridades estaduais do Arizona apresentaram outra denúncia formal, com 113 acusações, após documentar a compra de 334 armas entre 2024 e 2025 por 20 pessoas junto a 23 comerciantes da região de Phoenix, com o objetivo de traficá-las para o México. Ao menos 14 desses comerciantes tinham licença para fabricar e vender armas. Das armas identificadas, 184 rifles foram produzidos por uma empresa sediada na Flórida.
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O tema ganhou dimensão política em meio às pressões do presidente americano, Donald Trump, para conter o tráfico de drogas aos EUA. No México, o governo de Claudia Sheinbaum mantém a cobrança para que Washington combata o fluxo de armas que fortalece os cartéis, especialmente em estados como Sinaloa. Durante entrevista coletiva em 4 de fevereiro, a líder mexicana questional “como é possível que no México haja lançadores de granadas apreendidos de grupos criminosos” quando essas armas são “de uso exclusivo do Exército nos EUA”.
— Os dados e as acusações nos tribunais mostram que o Arizona se tornou o principal corredor para o tráfico de armas dos EUA para o México. O estado tem um mercado muito aberto, altamente militarizado e massivo, o que torna fácil para traficantes comprarem armas — conclui John Lindsay Poland, coordenador da iniciativa Stop US Arms to Mexico, ao El País. — Muitas dessas armas vão para Sinaloa, alimentando o conflito entre grupos que disputam essa organização criminosa. A rota do Texas até Sinaloa não seria tão viável porque teria que atravessar territórios controlados por outros grupos.



