O avanço na infraestrutura dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário vem colocando o saneamento em posição de destaque e ampliando sua influência direta sobre áreas como saúde, educação, meio ambiente e desenvolvimento econômico. Mais do que obras estruturais, o setor se firma como um dos principais vetores de transformação social no estado, com impactos que já começam a se refletir de forma concreta no cotidiano da população fluminense.
Esse contexto esteve entre os destaques do seminário “Caminho das águas”, realizado no Museu do Amanhã, na Praça Mauá, Zona Portuária carioca. O encontro reuniu gestores, especialistas de diferentes áreas, professores e jornalistas para discutir os rumos do segmento. Promovido pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) Planetapontocom, o evento integrou as ações pelo Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março.
Entre as iniciativas apresentadas, o ambiente escolar ganhou evidência ao longo do debate. O programa Esse Rio é Meu, desenvolvido pela Planetapontocom, com apoio da Águas do Rio, empresa do grupo Aegea, estimula a conexão entre estudantes de diferentes idades e o território onde vivem. A proposta incentiva os alunos a observar a situação de rios próximos às suas residências e escolas e a participar ativamente de ações de cuidado, preservação e recuperação ambiental.
Para a presidente da Planetapontocom, Silvana Gontijo, mais do que conscientizar, o Esse Rio é Meu busca formar jovens protagonistas na defesa do meio ambiente. A iniciativa já impactou mais de 1,5 mil escolas em diversos municípios fluminenses e segue em expansão na Baixada Fluminense, com chegada neste mês a São João de Meriti, Japeri e Queimados.
“Já empoderamos mais de 640 mil estudantes, incentivando-os a monitorar rios, a criar projetos de reservação e a transformar o local onde vivem. Assim eles passam a ter a sensação de que aquele patrimônio hídrico pertence à toda comunidade, o que amplifica sua capacidade de mobilização”, destacou Silvana.
O cenário nacional reforça a importância de iniciativas como essa. Dados divulgados neste mês pelo Instituto Trata Brasil apontam que 33 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável, enquanto 90 milhões vivem sem coleta de esgoto — um quadro que impacta diretamente a saúde pública, o meio ambiente e o desenvolvimento social.
Para especialistas da área ambiental, o saneamento passa a ocupar papel central na reorganização urbana diante desse panorama. Presente em parte da capital e em outras 26 cidades fluminenses, a Águas do Rio vem demonstrando como investimento aliado ao planejamento pode acelerar avanços. Desde o início da concessão, em novembro de 2021, já foram destinados R$ 5,5 bilhões para obras de infraestrutura.
Mais alunos em sala de aula
Os efeitos tornam-se mais evidentes justamente em regiões historicamente negligenciadas ao longo das últimas décadas. Na Mangueira e na Barreira do Vasco, na Zona Norte da capital, por exemplo, a ampliação dos serviços de água e esgoto já impacta diretamente a saúde dos moradores. De acordo com o DataSUS, houve queda de 61,5% e 41,1% nos casos de doenças de veiculação hídrica, respectivamente, nas duas localidades.
“Quando falamos de um número menor de internações, podemos falar em uma ‘economia invisível’, ou seja, recursos que deixam de ser gastos e permanecem nos cofres públicos. Isso permite direcionar esse dinheiro para outras políticas e criar um ciclo de desenvolvimento”, explicou Anselmo Leal, presidente da Águas do Rio.
Para ampliar o acesso aos serviços, o modelo adotado combina sustentabilidade com inclusão social, como explica ele:
“Por meio do subsídio cruzado, modelo em que regiões com maior capacidade de pagamento ajudam a financiar o serviço em áreas de menor renda, quase 1 milhão de pessoas passaram a ter acesso de forma regular à água e ao esgoto no Rio, saindo da informalidade”, afirmou Anselmo.
Os impactos também chegam à educação, reforçando a conexão discutida no seminário realizado no Museu do Amanhã. Na Mangueira e na Barreira do Vasco, a redução das faltas escolares chegou a 45% e 28%, respectivamente, o que evidencia como o acesso a serviços básicos influencia diretamente o desempenho dos estudantes. Presidente do Instituto Aegea, Édison Carlos afirma que o saneamento é peça essencial para garantir melhores condições de aprendizagem e qualidade de vida.
“O saneamento é fundamental para o estudante ter o desenvolvimento escolar adequado, poder disputar uma vaga em universidade e ter acesso a um bom emprego. É uma cadeia de soluções. Isso engloba toda a dignidade da família”.
Maré passa por transformação
Esse mesmo direcionamento também orienta intervenções estruturais de maior escala, como as obras em andamento no conjunto de favelas da Maré. A expectativa é de que cerca de 200 mil moradores de 16 comunidades passem a contar com abastecimento regular de água, acesso à Tarifa Social e coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2027. Ao término das obras, aproximadamente 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês serão encaminhados para tratamento na Estação Alegria, no Caju, contribuindo diretamente para a recuperação da Baía de Guanabara.
A recuperação desse importante ecossistema da Região Metropolitana já começa a produzir efeitos que vão além da esfera ambiental. Com a redução de cerca de 130 milhões de litros diários de esgoto despejados na Baía, resultado de diversas ações de esgotamento realizadas pela Águas do Rio nos últimos quatro anos, a qualidade da água melhora gradualmente e o entorno se valoriza. Praias mais limpas tendem a atrair visitantes, fortalecendo o turismo e impulsionando a economia local.
“O saneamento é um dos setores que mais gera retorno imediato para a sociedade. É a chamada ‘prosperidade compartilhada’, que começa a deixar sua marca no Rio e vai transformar ainda mais a vida da população nos próximos anos”, finalizou Anselmo Leal.



