Por Luciano Abreu*
Assumir a Diretoria-Geral da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) tem sido um dos maiores desafios e, sem dúvida, uma das maiores honras da minha trajetória pública. Ao cruzar as portas do Palácio Tiradentes, sou tomado por um sentimento que mistura responsabilidade institucional e profunda reverência. Administrar a estrutura que viabiliza a atividade parlamentar fluminense já é uma missão grandiosa; fazê-lo em meio às celebrações do centenário deste palácio monumental transforma o trabalho diário em um verdadeiro privilégio histórico.
Nesses meses de gestão, pude compreender que o Tiradentes não é apenas um monumento de pedra e mármore, mas um organismo vivo, onde o passado do Brasil ecoa nas decisões que moldam o nosso futuro.
Para compreendermos a magnitude do Palácio Tiradentes, precisamos olhar para as camadas de história depositadas no solo em que ele se ergue. A relevância política deste espaço na trajetória e na memória do Rio de Janeiro e do Brasil não começou em 1926.
Este endereço, no coração do antigo centro político do país, concentra em suas fundações a própria evolução cronológica da nossa sociedade.
Muito antes da imponente estrutura que conhecemos, o local abrigava a Cadeia Velha, um edifício que desempenhava funções administrativas e prisionais no período colonial. Foi naquelas masmorras que os ideais de liberdade da Inconfidência Mineira foram sufocados pela Coroa portuguesa. Ali, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, passou seus últimos quatro dias preso antes de ser executado em 1792.
O lugar que outrora serviu de masmorra para reprimir o desejo de liberdade tornou-se, mais tarde, o templo da democracia e do debate parlamentar. A escolha do nome do palácio, portanto, foi um ato de justiça histórica da jovem República, associando o espaço aos valores de civismo, soberania e identidade nacional.
Durante o Império, o terreno continuou no centro do poder, abrigando a Câmara dos Deputados imperial. Contudo, com a Proclamação da República em 1889, a nova capital federal demandava uma sede que refletisse visual e institucionalmente os novos tempos modernos. Assim, a antiga estrutura foi demolida para dar lugar, a partir de 1922 — ano do centenário da Independência —, ao projeto monumental dos arquitetos Archimedes Memória e Francisque Couchet.
Inaugurado em 6 de maio de 1926, o Palácio Tiradentes consolidou-se como um dos maiores expoentes do ecletismo arquitetônico brasileiro. Sua fachada imponente, ladeada por colunas clássicas, esculturas alegóricas e coroada por uma magnífica cúpula metálica, dialogava com o progresso que as elites da Primeira República queriam projetar. No interior, os vitrais coloridos, as pinturas históricas e os mármores refinados — que nossa equipe de gestão se empenha diariamente em preservar — transformaram o prédio em um patrimônio artístico nacional incomparável.
Durante décadas, o palácio foi o coração pulsante da política brasileira como sede da Câmara dos Deputados federal. Suas paredes testemunharam debates cruciais sobre as leis trabalhistas, a industrialização do país e as maiores crises institucionais do século XX, desde os anos conturbados da Era Vargas até as tensões que culminaram no golpe de 1964. Figuras que desenharam o destino do Brasil caminharam por estes mesmos salões onde hoje se encontra a sede histórica da Alerj.
A transferência da capital para Brasília, em 1960, mudou o destino do edifício, mas não diminuiu sua importância.
O palácio passou a abrigar a Assembleia Legislativa do antigo Estado da Guanabara e, após a fusão em 1975, tornou-se a casa do povo fluminense: a sede da Alerj.
Recentemente, em 2021, iniciou-se um novo capítulo. Com a transferência da estrutura puramente administrativa e dos gabinetes para o Edifício Lúcio Costa, o Palácio Tiradentes pôde reforçar sua vocação mais nobre como centro de memória política, cultura e patrimônio histórico, permanecendo como o solo sagrado das grandes solenidades e posses, mas seguindo como um símbolo da constante busca brasileira pela cidadania e pela democracia.
*Luciano Abreu é diretor-geral da Alerj



