Com as bênçãos do passado, o futuro teve lugar de destaque no seminário “Rio em Tempo Real: O Centro Expandido”, realizado nesta terça-feira (23) na Câmara Municipal do Rio. Vereadores, representantes do executivo, do mercado imobiliário e da sociedade civil participaram do debate sobre a reocupação e recuperação do bairro de São Cristóvão e da área da Leopoldina.
A chegada de jovens, em busca do primeiro imóvel ou de aluguéis mais em conta, foi uma tendência apontada pelos participantes. O presidente da Comissão de Educação da Câmara, vereador Salvino Oliveira (PSD), disse que o bairro imperial tem todos os requisitos para atrair moradores mais jovens.
“Estudos mostram que os jovens se preocupam em fugir de áreas de conflito, no caso do Rio, nitidamente o de facções. São Cristóvão é razoavelmente poupado disso. Também é um bairro arborizado, com bom acesso a outras áreas da cidade. Cabe nesse conceito, procurado em todo o mundo, de cidade a 15 minutos de distância, onde o necessário pode ser feito sem grandes deslocamentos”, explica o vereador, sem esquecer de outra faixa etária importante para o bairro: “A principal demanda, depois da Segurança Pública, é a questão dos cuidados com as calçadas. O morador mais idoso enfrenta um desafio”.
Parcerias para atrair cada vez mais cabeças pensantes
Também de olho na união entre passado e futuro, a vereadora Tatiana Roque (PSB) ressaltou a importância de investir em parcerias entre a iniciativa privada e o poder público para que a inovação seja uma prioridade. Tatiana foi secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio e cita como exemplo o sucesso do Porto Maravaley, no Porto Maravilha, que já atraiu 70 empresas, com investimentos de R$ 150 milhões e faturamento de R$ 1 bilhão. Uma das conquistas do projeto do Porto foi a instalação do polo do IMPA Tech, que recruta os melhores de todo país, inclusive em Olimpíadas de Matemática.
“Precisamos atrair os cérebros para o Rio, evitar sua fuga para outros lugares. A articulação entre universidades, centros de pesquisa e setor privado cria um círculo virtuoso. O governo federal, por exemplo, terá um dos cinco maiores supercomputadores do mundo no Brasil. O Rio pode se candidatar a ter uma instalação para ele. No Porto Maravilha, os melhores foram atraídos para estudar e tiveram a opção de morar lá mesmo”, diz ela, acrescentando que São Cristóvão tem um legado ligado à ciência, com o Museu Histórico Nacional, o Observatório Nacional e o Museu de Astronomia.
Opção perfeita para os que buscam a primeira moradia
Trazendo a questão da juventude para o campo dos negócios, o empresário Beny Chor, sócio-diretor da TGB Gestão Imobiliária, contou que o foco de seus negócios atinge em cheio os jovens, que saem para morar sozinhos pela primeira vez. Sua empresa procura imóveis desocupados, numa área com boa infraestrutura e fácil acesso a outras áreas da cidade, e os transforma em unidades para aluguel.
“Acredito que vamos ter em São Cristóvão unidades que custarão cerca de R$ 2 mil ao mês, somando aluguel e condomínio. É uma opção ideal para jovens, casais e até pessoas que acabaram de se divorciar. São Cristóvão está perto de tudo e é uma alternativa inclusive para quem planeja onde vai morar até os próximos três, quatro anos, para tomar outra decisão depois”, explica.
Executivo da Caixa fala em novo fundo de investimento na região
Já dinheiro novo é o tópico abordado pelo superintendente executivo de Habitação da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro, Cláudio Martins.
“Pensamos na possibilidade de criar um Fundo Leopoldina, que invista na região sem sacrificar os cofres públicos. Queremos atrair investidores que ganhariam à medida em que Leopoldina e São Cristóvão fossem se desenvolvendo ainda mais”, diz Cláudio, que vê a reocupação urbana da área como fundamental: “Quem cuida é quem mora”.
Cláudio também destaca que o investimento em habitação na área passa necessariamente pela democratização do acesso. Desde unidades do Minha Casa Minha Vida até imóveis de padrão financeiro mais elevado.
“É importante não centralizar apenas numa faixa de renda. O ideal é que possam morar ali tanto empregados quanto empregadores”, afirma ele, que aposta no potencial turístico da região e acredita que um grande Mercado Municipal no local seria um atrativo inclusive de opções gastronômicas para atender tanto a moradores quanto a turistas.
Legado de infraestrutura para as próximas gerações
Outro que chama a atenção para a importância de passado, presente e futuro caminharem juntos é o diretor de operações da Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar), Pablo Koehler, que chama a atenção para o volume gigante de obras feitas no Porto Maravilha:
“O que foi feito lá ficará para as próximas gerações. Para citar o caso do esgoto, trocamos toda a estrutura e cessamos muito do despejo que era feito na Baía de Guanabara”, lembra ele, acrescentando que as intervenções em São Cristóvão, além pela estrutura já existente, serão mais pontuais.
Para o futuro, Pablo acredita que a questão do transporte terá papel de destaque. Ele lembra que seis pontes foram erguidas sobre o Canal do Mangue, e a ampliação do VLT pode acontecer com mais facilidade, visto que a estrutura próxima ao Terminal Gentileza, ao lado da rodoviária, está pronta. Ele acredita que o VLT, num futuro próximo, pode atender não só a parte interna de São Cristóvão:
“Adiante, ele pode chegar a bairros como Tijuca e Vila Isabel”, prevê.
VLT e ciclovias no horizonte dos investimentos
Sobre a chegada do VLT, o presidente da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara, Pedro Duarte (PSD), acrescenta que o projeto está pronto para receber financiamento do BNDES.
“Falta bater o martelo sobre o traçado interno. Nos próximos anos teremos muitas pessoas se mudando para São Cristóvão, que sofreu muito com um processo de esvaziamento, abandono e falta de segurança”, que também alerta para a necessidade de facilitar o transporte sobre suas rodas: “Além de ciclovias, precisamos criar locais onde as pessoas possam deixar suas bicicletas. Esse tipo de transporte pode ser viável de São Cristóvão tanto para o Centro quanto para a Grande Tijuca”, diz.
Olhar também para o passado da formação do bairro
O professor e historiador Rafael Mattoso chama a atenção para o cuidado com a história de São Cristóvão.
“Para além da alcunha de Bairro Imperial, é preciso lembrar que embaixo de São Cristóvão está um dos maiores sítios arqueológicos do Rio. O bairro foi decisivo para a ocupação da cidade. Há também um histórico ligado aos escravizados. O proprietário de grande parte das terra era um dos maiores escravocratas da história do Brasil, intimamente ligado à família real. Então, além do Império, o bairro tem várias camadas históricas que precisam ser preservadas”, diz.
Olhando para o futuro, o professor diz que São Cristóvão é um bairro “atravessado pela juventude”.
“Existe a grande unidade do Colégio Pedro II, o Cefet (Centro Federal de Tecnologia). História e cultura são grandes atrativos para os jovens no bairro”, pontua.
O seminário foi promovido pela Câmara de Vereadores do Rio e pelo TEMPO REAL. Contou com os painéis “Nova Leopoldina: o renascimento de um patrimônio carioca” e “São Cristóvão: o futuro do Bairro Imperial”. A mediação foi da jornalista Berenice Seara.



