Wagner Moura mostra que vingança é um prato que se come com dendê

Finos, eles agradeceram a premiação que havia ocorrido momentos antes. E Wagner aproveitou o momento para dar a alfinetada gostosa que você cansou de ver esses dias nas redes. “Prêmio de melhor filme que, no Brasil, é conhecido como filme


Finos, eles agradeceram a premiação que havia ocorrido momentos antes. E Wagner aproveitou o momento para dar a alfinetada gostosa que você cansou de ver esses dias nas redes. “Prêmio de melhor filme que, no Brasil, é conhecido como filme internacional”.

A piada é boa porque não é natural que o nativo dos Estados Unidos entenda que existem culturas que também são o próprio epicentro. Como um Copérnico moderno, de quimono de veludo, Wagner Moura usou o charme indefectível para mostrar ao estado-unidense que ele não é o centro do universo. “Americanos”, aliás, a maneira como eles chamam uns aos outros, está equivocada: eu e você também somos desse continente e, não, esse local não é um quintal dos Estados Unidos.

A cena me lembrou dois rapazes dos Estados Unidos que conheci em Barcelona, na Espanha. Eles tinham acabado de voltar do Afeganistão, onde lutaram defendendo sua pátria. Veteranos, ganharam um prêmio em dinheiro do governo americano pela coragem na batalha e por voltarem vivos. E escolheram gastar os dólares na praia do Mediterrâneo, famosa por ser um lugar onde o top less é liberado. Eu estava sozinha na areia, lendo e observando a conversa dos dois que variava em torno dos assuntos: 1) seios das meninas, 2) suas Budweisers e 3) a falta que o cachorro que um deles tinha estava fazendo naquela viagem.

Não lembro por que razão acabei interagindo com eles – acho que precisaram de tradução para o espanhol para se comunicar com alguém e me compadeci dos soldados. Eles ficaram absolutamente estarrecidos por eu ser brasileira (não sabiam direito onde ficava o Brasil e perguntaram se era perto da Espanha), falar português (contei para eles que no meu país esse era o idioma oficial), entender o idioma deles e conseguir me comunicar em espanhol ali na praia. “Nunca conheci alguém que falava mais de um idioma”, me disseram.

Nunca ter conhecido alguém que fala mais de um idioma é um dos símbolos da autossuficiência de uma nação que não quer saber do resto do mundo. Sua música, sua cultura cinematográfica, seu poderio bélico e seu dinheiro são alguns dos emblemas de uma supremacia que, creem, lhes dá o direito (e o dever, alguns dizem), de invadir outros países e ganhar muito dinheiro por isso.

Wagner Moura entra no palco porque seu povo reclamou na internet. “Para nós, vocês produzem filmes gringos, my friends”, explica, sem dizer isso, mas só com o sorriso que derrete nações. A nossa nação, no caso, se delicia com a cena, como fazemos com a nossa culinária na imensidão do país em que vivemos. A vingança tem um gostoso temperinho de dendê. E a gente fala mais de um idioma para fazer a piada de modo que eles entendam.



Conteúdo Original

2026-01-06 13:53:00

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