No centro da trama está Agnes (a exuberante Jessie Buckley), jovem que prefere passar seus dias na floresta acompanhada de seu falcão, que encanta um jovem tutor (Paul Mescal). O casamento é logo seguido por filhos, mas ela percebe que ele está consumido por um bloqueio criativo e o despacha para a esfuziante Londres, ficando para trás com todo o fardo familiar. Uma morte inesperada na família aumenta a cisão mas a dor termina, por fim, alimentando uma obra de beleza e profundidade inquestionáveis.
“Hamnet” não é um filme fácil. Chloé Zhao é meticulosa em construir a vida do casal, sublinhando seus laços em uma trama que se dá o direito de tomar fôlego aos poucos. Este crescendo enriquece os detalhes, criando uma atmosfera sufocante da vida de tranquilidade aparente na pequena Stratford ao turbilhão que toma a mente do jovem autor em seu trabalho em Londres. Ao concentrar a narrativa na personagem de Jessie Buckley, contudo, Zhao desfralda um dos trabalhos dramáticos mais espetaculares do cinema moderno.
No papel de Agnes, a atriz irlandesa de 36 anos vai do Céu ao Inferno em um retrato devastador da maternidade, do júbilo do amor incondicional à ferida asfixiante da perda. Sua interpretação é contida em sua construção, explodindo de forma grandiosa em sua catarse. Se Paul Mescal surge generoso em um papel definitivamente de apoio, Buckley crava alguns dos momentos mais arrepiantes e arrebatadores do ano: é impossível não absorver seu amor, é inevitável não sofrer com sua dor.
Os momentos mais sufocantes de “Hamnet” mostram que Chloé Zhao não tem o menor pudor ao sucumbir ao peso por vezes melodramático da trama, certa de que o sentimentalismo encontra seu equilíbrio na performance de seu elenco. Jessie Buclkey é a âncora e Paul Mescal, o catalizador. Mas “Hamnet” seria menor sem a rigidez do amor de Emily Watson, a fraternidade inabalável de Joe Alwyn e a inicência interrompida de Jacobi Jupe.

2026-01-21 11:00:00



