Oito pessoas já tinham morrido em tiroteios na Favela Santa Marta quando a polícia subiu o morro em Botafogo, na Zona Sul do Rio, com a missão de acabar com a “guerra” que havia tomado conta da comunidade, em agosto de 1987. Dois corpos tinham sido achados em uma Brasília estacionada no Largo dos Leões, colado na Rua São Clemente, uma das principais artérias do trânsito na região. No primeiro dia da operação, os agentes prenderam 22 suspeitos, sendo que dois deles foram capturados presos a postes do bairro. Ambos haviam sido deixados ali por integrantes do bando rival.
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A favela do Morro Dona Marta vivia um dos momentos mais violentos de sua história. Os bandidos Emílson dos Santos Fumero, vulgo Cabeludo, e Zacarias Gonçalves Rosa Neto, um ex-PM conhecido como Zaca, que dividiam o controle das bocas-de-fumo na comunidade, tinham dado início a uma disputa sangrenta pelo domínio da venda de drogas local. Trocas de tiro a todo instante deixavam os moradores presos no fogo cruzado. A situação ficou ainda mais grave quando cerca de 120 policiais subiram o morro em uma operação para prender os envolvidos. Foram seis dias de violência.
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O GLOBO dedicou várias páginas à cobertura do conflito. Repórteres da toda a imprensa carioca estavam diariamente na comunidade. Hoje, as fotos e relatos do episódio são documentos do que foi a maior guerra pelo controle da venda de drogas em uma favela até então. A disputa também foi um marco na transição do tráfico local para a realidade atual das organizações criminosas no Rio. Após os confrontos, a Santa Marta seria uma das primeiras comunidades na Zona Sul “dominadas” pelo Comando Vermelho. Quase 40 anos depois, a facção ainda controla a venda de drogas na área.
Na terça-feira, a Polícia Civil realizou uma megaoperação na favela para cumprir mandados de prisão contra líderes do grupo. Tiros de fuzil atingiram residências dentro e fora do morro. Seis pessoas foram presas. Um homem ficou ferido na perna dentro de um ônibus. Líder do Comando Vermelho no Dona Marta, Francisco Rafael Dias da Silva, o Mexicano, principal alvo da operação, conseguiu escapar ileso e manteve o seu poder. Esta é uma dinâmica que se repete há décadas numa favela vizinha do Palácio da Cidade e do 2º Batalhão da Polícia Militar (BPM), que tem mais de 400 soldados.
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Ao contar a história do traficante Marcinho VP no livro “Abusado: O Dono do Morro Dona Marta” (2003), o jornalista Caco Barcellos resgata a dinâmica do crime na favela nos anos 1980. Segundo o autor, quem mandava naquela época era o bicheiro Pedro Ribeiro, que controlava a venda de cocaína, mas deixava o comércio de maconha nas mãos da família Lino. Ele conta que os Lino eram assassinos estupradores que aterrorizavam a comunidade. Em meados dos anos 1980, porém, os bandidos Cabeludo e Zaca, cujos irmãos haviam sido mortos pelos Lino, juntaram forças contra eles.
Chefes das maiores quadrilhas de assaltantes no Dona Marta, os dois criminosos entraram em guerra contra os Lino e mataram, um a um, todos os homens do clã que impunha o terror na favela.
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Com a matança, Cabeludo e Zaca viraram heróis no morro. Então, o mandachuva Pedro Ribeiro, que estava preso, dividiu o controle do tráfico entre eles. Cabeludo passou a gerenciar os pontos de venda de droga na parte baixa da Santa Marta, enquanto o ex-PM gerenciava as bocas-de-fumo na parte alta do morro. Cada um com o seu bando, mas sem contestar o poder de Ribeiro. A favela não era ainda uma área de influência do Comando Vermelho como hoje. Formada nos anos 1970, no antigo presídio da Ilha Grande, a facção estava apenas começando a se espalhar nos morros no Rio.
A frágil aliança que dava “paz” no Dona Marta se desfez em 1987, quando Cabeludo se estranhou com o filho de Pedro Ribeiro. Conhecido como Pedrinho Perereca, o herdeiro do bicheiro tentou matar o bandido em uma emboscada. Segundo o livro de Barcellos, Cabeludo levou um tiro no peito e dois na barriga. Ele passou dois meses no hospital, mas se recuperou e executou Perereca com tiros de metralhadora a queima-roupa na frente de Zaca. A partir de então, acabou o sossego na favela.
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No conflito, Cabeludo recebeu armas e voluntários do Comando Vermelho. Um desses voluntários era Orlando Jogador, um dos primeiros líderes da facção, que seria morto em 1994 pelo traficante Uê, em um assassinato que causaria um racha na organização. Marcinho VP, sobrinho de Cabeludo que seria o chefe do Dona Marta nos anos 1990, também lutou ao lado do tio. Zaca, por sua vez, teve reforço de seus ex-colegas da PM (ele tinha sido expulso da corporação em 1977). Vários policiais, aliás, foram investigados por suspeita de receber propina de ambos os criminosos do Dona Marta.
A guerra gerou um Deus nos acuda. O Jornal O GLOBO, dedicou várias páginas ao confronto. Bandidos atiravam em transformadores para cortar a luz no morro. Trocas de disparos ocorriam a qualquer hora. Os traficantes usavam cocaína pra passar dias e noites sem dormir. Moradores abandonavam suas casas levando roupas em sacolas de mercado, deixando para trás as casas cravejadas de balas. Muitas pessoas eram ameaçadas de morte devido a ligação com um ou outro rival na briga. A polícia efetuava prisões, mas bandidos armados eram vistos entrando e saindo da favela o tempo todo.
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Na manhã de uma terça-feira, 25 de agosto de 1987, policiais empurravam um camburão com defeito que levava três suspeitos, enquanto uma senhora “bêbada” afirmava aos berros que Cabeludo era um benfeitor da comunidade e mantinha até um carro para levar moradores doentes a hospitais.
O Dona Marta é ocupado desde a década de 1930. Passados 50 anos, não havia um serviço público sequer na favela. Esgoto corria a céu aberto, lixo se acumulava nas ruas e a iluminação era precária. Os bandidos ofereciam “proteção” e distribuíam alimentos e brinquedos para crianças. Em novembro de 1985, quando Zaca havia sido preso, uma multidão se reuniu na Delegacia de Entorpecentes, na Praça Mauá, para pedir sua liberdade. “A gente não sabe se ele é traficante”, disse uma adolescente, de acordo com O GLOBO na época. “Mas ele trouxe a paz no morro. Não queremos os Linos de volta”.
A cobertura do confronto em 1987 mostra a relação entre os traficantes e a imprensa. Os bandidos chegavam a convocar entrevistas coletivas. Numa segunda-feira de manhã, um “avião” entregou aos jornalistas um convite para ouvir os “moradores” num ponto no alto do morro. Quando chegaram lá, os repórteres encontraram Zaca. O bandido disse que a guerra começara depois que Cabeludo tentou estuprar uma menina de 13 anos, namorada do sobrinho dele. “Cabeludo me desrespeitou. Agora não tem mais jeito: ou sai do morro ou vai morrer”, disse o criminoso.
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Cabeludo tinha até um “assessor chefe de comunicação”, o Chico Boca Mole, que circulava pelo morro cumprimentando policiais e levando moradores para falar bem de seu chefe. O líder do tráfico na parte baixa da favela também deu uma “entrevista coletiva”, com metralhadora a tiracolo, mas sem permitir fotografias. “Esta é uma briga moral”, disse ele. “Estou brigando porque fui acusado injustamente pelo Zaca de tentar estuprar uma garota. Tenho três filhas lindas e nunca faria isso. A história foi inventada pela mulher que vivia com Pedrinho. É uma vingança por eu ter matado o marido dela”.
Cabeludo já tinha sido visto por jornalistas dias antes, quando surgira da mata nos fundos do Palácio da Cidade, acompanhado de cinco comparsas, com cinturão de balas cruzado no peito, sem camisa, com revólver na mão perguntando se “a barra” estava limpa. No fim das contas, ele e Zaca fugiram do morro. Cabeludo foi visto saindo da favela vestido de mulher com seus cúmplices e entrando numa kombi que o aguardava. Seu rival foi cercado no alto do morro pela polícia, mas escapou depois de, supostamente, fazer uma criança de refém e desaparecer na mata do Corcovado.
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Segundo uma reportagem do GLOBO, quando acabou a “guerra”, grande parte dos detidos no conflito eram policiais envolvidos com Cabeludo, mas, principalmente, com Zacarias. Foi encontrado na posse de traficantes um caderno com nomes de agentes que estariam recebendo propina dos bandidos. “O negócio deles é dinheiro”, disse o criminoso Cosme Rodrigues, após ser preso. “Eu era o encarregado de levar o dinheiro. O Cabo Lopes recebeu dinheiro e cocaína para desovar os corpos de dois homens que o Zaca matou. Ele também vendeu uma metralhadora para o Zaca”.
Cabeludo morreu em janeiro de 1988, quando levou um tiro a queima roupa na Praça Saenz Pena, na Tijuca. Duas versões circularam sobre o crime, na época. Em uma delas, o bandido foi baleado quando tentava assaltar um motorista. Na outra, ele foi executado por um bicheiro que lhe devia dinheiro.
Com a morte de Cabeludo, Zaca, que havia vencido a guerra no Dona Marta, começou uma retaliação sobre os aliados do seu rival assassinado. Um deles era Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP. Sobrinho de Cabeludo, o bandido havia lutado ao lado do tio quando ainda era adolescente. Ele fugiu da favela para não morrer. Em 1989, porém, Zaca foi preso e perdeu o controle do tráfico local. Foi então que o Comando Vermelho avançou sobre o Dona Marta. Era o início da ascensão de Marcinho, que se tornaria o chefe da venda de drogas no local nos anos 1990.
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