Além de organizado, o crime no Rio de Janeiro está digitalizado. Narcotraficantes, milicianos e outras quadrilhas, cada vez mais, estão anexando a tecnologia às suas práticas ilegais, como já ocorre em outros países. Para exercer determinadas funções, ocorre um “recrutamento” de profissionais de TI (Tecnologia da Informação) por parte dos criminosos. As informações são do Diário do Rio.
Recentemente, duas “fazendas” de criptomoeadas foram descobertas por policiais nos complexos do Lins e da Maré. Além disso, drones estão sendo utilizados em regiões dominadas por narcotraficantes ou milicianos, como aconteceu em Rio das Pedras na última semana.
Em maio deste ano, imagens captadas por uma aeronave da Polícia Militar (PM) mostraram um treinamento realizado por criminosos em uma área aberta do Complexo do Alemão, dominada pelo Comando Vermelho (CV). No vídeo, ao menos dez homens aparecem próximos a um drone de aproximadamente três metros de comprimento, momentos antes da decolagem.
A Subsecretaria de Inteligência da Secretaria estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro (SSINTE) identificou que traficantes do CV vêm recebendo treinamento especializado para operar drones de grande porte usados no transporte de armas e drogas entre favelas dominadas pela facção no Rio de Janeiro.
Investigações mostram que o responsável por instruir os criminosos nesse caso do Complexo do Alemão é um brasileiro que retornou da guerra na Ucrânia, onde teria atuado como voluntário no conflito contra a Rússia.
O Comando Vermelho tem custeado passagens aéreas para que integrantes deixem o Brasil e sejam voluntários na guerra entre a Rússia e a Ucrânia, como relata a Polícia.
Fora a mineração clandestina de criptomoedas e do uso de drones, câmeras de monitoramento, sistemas de comunicação criptografados, provedores e bloqueadores clandestinos de internet, plataformas de apostas online e criptoativos para movimentação de recursos financeiros também são ações ilegais cometidas pelos criminosos do Rio de Janeiro.
“Na prática, essas tecnologias auxiliam no monitoramento do território, no alerta sobre operações policiais, na comunicação entre criminosos e na lavagem de dinheiro. O ponto central é que o crime organizado deixou de atuar apenas no espaço físico e territorial e passou a operar também no ambiente digital“, detalha Arthur Lebrum, especialista em segurança digital e Inteligência Artificial, com mais de 20 anos de experiência em tecnologia e atuação internacional.
Em relação à Inteligência Artificial, Lebrum ilustra que ela “pode ser utilizada para criar golpes mais convincentes, automatizar mensagens, clonar vozes, produzir deepfakes e aprimorar fraudes de engenharia social. Ela também pode ser empregada em fraudes financeiras, extorsões, ataques de phishing e na criação de identidades falsas. O maior risco está na escala: o que antes exigia muitos operadores agora pode ser realizado de forma semi-automatizada. No Brasil, esses crimes digitais são investigados principalmente pelas Delegacias de Repressão a Crimes Cibernéticos das Polícias Civil e Federal”.
Em agosto do ano passado, a Polícia Civil do Rio de Janeiro realizou uma operação contra uma rede criminosa que aplicava golpes em um empresa de aplicativo de transportes. As fraudes eram cometidas por meio do uso de Inteligência Artificial. O prejuízo causado à Uber foi de R$ 114 mil.
A “Operação Rota Falsa” foi realizada por policiais da Delegacia de Defraudações (DDEF). Entre os bairros com o cumprimento de mandados de busca e apreensão estavam Alto da Boa Vista, Tijuca, Maracanã e Honório Gurgel.
Em um dos locais, os agentes encontraram diversas fotos utilizadas para fraudar o sistema de verificação do aplicativo. Ocorreu, ainda, a apreensão de celulares, computadores, fotos, um carro e uma moto.
‘Recrutamento’ de profissionais da tecnologia
Autoridades como a Europol e a INTERPOL alertam que o crime organizado está cada vez mais dependente de especialistas em tecnologia, especialmente nas áreas de cibercrime, fraudes digitais, criptomoedas e inteligência artificial. Segundo o pesquisador italiano Antonio Nicaso, o recrutamento de hackers e profissionais de TI “tornou-se uma tendência nas maiores organizações criminosas do mundo“.
“Investigações da Polícia Federal já identificaram grupos criminosos especializados em ataques hackers, serviços cibernéticos ilegais e crimes envolvendo criptomoedas, indicando uma demanda crescente por conhecimento técnico avançado dentro do ecossistema criminoso“, pontua Lebrum.
De acordo com apurações da reportagem do DIÁRIO DO RIO, em favelas das zonas Oeste e Sudoeste da cidade do Rio de Janeiro, dominadas por narcotraficantes ou milicianos, é muito comum criminosos se instalarem e imediatamente procurarem moradores que trabalhem com Tecnologia da Informação e estejam dispostos a trabalhar para os criminosos.
Entretanto, essa “convocação” não costuma ser tranquila. Profissionais que se recusam a aceitar a proposta dos criminosos sofrem ameaças e às vezes precisam se mudar.
“Quando não encontram pessoas da própria comunidade, eles trazem alguém de fora, que já trabalham com eles. Principalmente para instalar internet, TV e câmeras“, disse uma fonte que preferiu não ter o nome citado.
Na mesma região, ainda segundo apuração do DIÁRIO, também é comum o uso de bloqueadores de sinal de internet. Assim, a facção que controla a região força moradores a utilizarem seus serviços de conexão.
Controle de internet é um caso à parte
Foto: Freepik
Até o início do mês de abril deste ano, o estado do Rio de Janeiro tinha 59 torres de telefonia móvel sequestradas pelo crime organizado. A informação é da Associação Brasileira de Infraestrutura para Telecomunicações (Abrintel).
Em São Gonçalo, uma área de aproximadamente 12 km conta com quatro torres de telefonia sequestradas no momento. A região inclui o bairro de Jardim Catarina, considerado um dos maiores loteamentos do País.
“Hoje em dia, a gente usa internet para praticamente tudo na vida. Então, quando controlam isso, eles [os criminosos] controlam nossa vida“, afirmou um morador da região que não quis ser identificado na reportagem.
Crimes parecidos com os cometidos em outros países
De acordo com especialistas, as práticas criminosas com uso de tecnologia no Rio de Janeiro repetem modelos adotados em outros países.
“Um dos casos mais emblemáticos vem do sudeste asiático, onde redes criminosas utilizam IA generativa, deepfakes, malwares, golpes de investimento e criptomoedas para lavar dinheiro. A Organização das Nações Unidas (ONU) apontou que esses grupos criaram uma verdadeira indústria de ciberfraudes. A Europol, agência de cooperação policial da União Europeia, alerta que a Inteligência Artificial já está acelerando a atuação do crime organizado e tornando os ataques mais sofisticados e personalizados. A entidade também aponta o uso da IA em fraudes, ataques cibernéticos e manipulação digital. Isso demonstra que o fenômeno não é local, mas sim uma tendência global”, explica Arthur Lebrum.
Foi apresentado em abril de 2025, no Rio de Janeiro, o Desafio do Crime Organizado Híbrido, elaborado por Antonio Nicaso, diretor do Centro de Pesquisas em Cibercrimes da Fondazione Magna Grecia.
O encontro teve como objetivo debater as oportunidades de cooperação entre a Itália e o Brasil no enfrentamento de crimes cibernéticos e no fortalecimento de setores estratégicos para os dois países, como segurança pública, defesa, turismo e imigração.
Um dos casos citados pelo estudo é uma investigação realizada em 2018 por policiais italianos que interceptaram diálogos de um suspeito de fazer parte de uma facção mafiosa. Nas conversas, o investigado lamentou a recusa de traficantes de drogas brasileiros em aceitar pagamentos em bitcoin.
Desde 2024, os governos de Brasil e Itália têm intensificado relações para colocar em prática um acordo de cooperação que visa combater o tráfico internacional de drogas e demais crimes cometidos com uso de tecnologia.
O que autoridades e pessoas devem fazer para se proteger
Divulgação / Polícia Civil
Arthur Lebrum acredita que “é necessário combinar inteligência policial, rastreamento financeiro, perícia digital, cooperação internacional e capacidade de análise de blockchain. Operações recentes no Brasil já demonstram o uso do rastreamento de criptoativos para investigar esquemas de lavagem de dinheiro. Também é fundamental investir em equipes especializadas em Inteligência Artificial, drones, telecomunicações e crimes digitais. Atualmente, a segurança pública precisa atuar tanto nas ruas quanto na infraestrutura tecnológica utilizada pelo crime organizado”.
Em relação às pessoas e empresas, a recomendação de Arthur Lebrum é reforçar mecanismos de autenticação multifator, monitoramento de transações, treinamento contra ataques de engenharia social e processos de verificação de identidade em pagamentos sensíveis.
“Também precisam adotar uma postura de cautela diante de áudios, vídeos e mensagens com caráter de urgência, pois deepfakes já vêm sendo utilizados em diferentes tipos de fraude“, afirma.
Já os cidadãos “devem evitar transferências para desconhecidos, desconfiar de promessas de investimento em criptomoedas com ganhos fáceis e sempre confirmar solicitações financeiras por um canal alternativo. A melhor defesa continua sendo a combinação entre tecnologia, senso crítico e um hábito simples: verificar antes de confiar”.
No Rio de Janeiro, as forças de segurança informam que estão trabalhando para investigar e coibir tais crimes com uso de tecnologias.



