O avanço do crime organizado sobre serviços essenciais no Rio de Janeiro acendeu um alerta vermelho — e agora provocou reação direta do regulador. A Agenersa decidiu estruturar um setor de inteligência para combater furtos, fraudes e a atuação do poder paralelo nas concessões de energia, gás e saneamento.
O prejuízo é bilionário. Só no setor elétrico, os chamados “gatos” já geram perdas superiores a R$ 1 bilhão por ano. No saneamento, o problema vai além: redes são desviadas e exploradas ilegalmente por grupos criminosos, criando um mercado clandestino de água e dificultando o acesso das concessionárias. No fim da cadeia, a conta chega ao consumidor — com tarifas mais altas.
Para enfrentar esse cenário, a agência aposta na integração direta com forças de segurança. Criada em 2024, a Assessoria de Inteligência reúne especialistas com experiência em investigação e passa a mapear áreas dominadas pelo crime, onde empresas não conseguem cobrar ou sequer operar. “Esse custo acaba sendo repassado à população. Como reguladores, precisamos evitar isso”, afirmou o presidente da Agenersa, Rafael Menezes.
A ofensiva não se limita ao saneamento. Com convênio firmado com a ANEEL, a agência também ampliou a fiscalização sobre distribuidoras como a Light, um dos principais alvos de furtos de energia no estado. A ideia é usar inteligência para antecipar e sufocar as ações criminosas.
No setor de gás, o foco recai sobre fraudes em postos de GNV. A Naturgy enfrenta adulterações em medidores que geram prejuízos milionários e impactam diretamente nas tarifas. O novo setor pretende mapear esses pontos e atuar em conjunto com a polícia para desmontar os esquemas.
A preocupação cresce ainda mais com os investimentos em áreas sensíveis. Regiões como a Rocinha e o Complexo da Maré já recebem obras de saneamento — e entram no radar da inteligência para evitar interferência direta do crime organizado.
A avaliação dentro da agência é clara: deixar as concessionárias lidarem sozinhas com esse tipo de problema não funcionou. “Historicamente, elas foram deixadas à própria sorte. A experiência mostra que não conseguem enfrentar organizações criminosas estruturadas. Não vamos repetir esse erro”, afirmou Menezes.
A nova estratégia marca uma mudança de postura: do papel técnico de regulação para uma atuação mais ativa no enfrentamento de um dos maiores desafios do estado — a captura de serviços públicos pelo crime.



