O cirurgião do aparelho digestivo Dr. Ricardo Purchio Galletti explica por que a azia pode ir além do incômodo e quais sinais indicam que é hora de procurar ajuda
Você já sentiu aquela queimação incômoda subindo pelo peito depois de um jantar caprichado ou de uma taça de vinho a mais? Aquela sensação de que a comida resolveu fazer o caminho de volta? Se a resposta for sim, saiba que você não está sozinho. Ouço essa queixa diariamente no consultório. Estamos falando da famosa Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE), um problema que afeta milhões de brasileiros.
O que é o refluxo e por que a azia aparece
Mas o que exatamente é o refluxo? Imagine que o seu estômago é um tanque cheio de ácido, projetado pela natureza para dissolver os alimentos. Entre o esôfago e o estômago, existe uma válvula, o esfíncter esofágico inferior. A função dele é simples: abrir para a comida passar e fechar logo em seguida, como uma porta de mão única. O problema começa quando essa porta fica “frouxa” ou abre na hora errada. O ácido do estômago, que deveria ficar lá embaixo, escapa e sobe pelo esôfago. Como o esôfago não tem proteção contra esse ácido, o resultado é aquela queimação clássica, a azia.
Sintomas que podem passar despercebidos
Além da queimação, o refluxo pode se manifestar de formas curiosas e silenciosas. Algumas pessoas apresentam tosse seca persistente, rouquidão, pigarro, sensação de um “bolo” na garganta e até desgaste no esmalte dos dentes. Muitas vezes, o paciente vai ao otorrino ou ao dentista antes de descobrir que o verdadeiro vilão está no estômago.
O que piora, como tratar e quando a cirurgia entra
A grande pergunta é: por que essa válvula falha? A resposta, na maioria das vezes, está no nosso estilo de vida moderno. O estresse constante, o sedentarismo e, principalmente, a nossa alimentação desempenham um papel crucial. Alimentos ultraprocessados, excesso de gordura, frituras, chocolate, café, refrigerantes e bebidas alcoólicas são verdadeiros gatilhos para o relaxamento dessa válvula. Some a isso o hábito de comer grandes volumes e deitar logo em seguida, e temos a tempestade perfeita para o refluxo. O sobrepeso e a obesidade também são fatores de risco importantes, pois aumentam a pressão dentro do abdome, empurrando o conteúdo do estômago para cima.
A boa notícia é que o refluxo tem tratamento e, na grande maioria dos casos, não envolve cirurgia. O primeiro passo é sempre a mudança de hábitos. Pequenos ajustes na rotina podem fazer uma diferença notória. Evitar refeições pesadas à noite, esperar pelo menos duas horas entre o jantar e a hora de dormir, elevar a cabeceira da cama e manter um peso saudável são medidas fundamentais.
Quando as mudanças no estilo de vida não são suficientes, entramos com o tratamento medicamentoso. Hoje, dispomos de excelentes medicações que reduzem a produção de ácido no estômago, permitindo que o esôfago cicatrize e aliviando os sintomas. No entanto, é fundamental que o uso desses remédios seja acompanhado por um médico. A automedicação prolongada pode mascarar problemas mais sérios.
E a cirurgia? Costumo dizer que a operação é a exceção, não a regra. Ela é indicada para casas específicos, como quando o paciente não responde bem aos medicamentos, não deseja tomar remédios para o resto da vida ou apresenta complicações graves, como uma hérnia de hiato volumosa. Quando devidamente indicada, a cirurgia moderna é feita por videolaparoscopia ou com auxílio da plataforma robótica, com pequenas incisões na pele, recuperação rápida e bons resultados a longo prazo, recriando a barreira que impede o ácido de subir.
O mais importante é não normalizar o desconforto. Sentir azia todos os dias não é normal. O refluxo crônico e não tratado pode levar a complicações sérias no longo prazo, como inflamações severas, estreitamento do esôfago e até alterações celulares que aumentam o risco de câncer.
Portanto, se aquele “fogo no peito” tem sido um visitante frequente na sua vida, não hesite em procurar um especialista. Com o diagnóstico correto e o tratamento adequado, é perfeitamente possível apagar esse incêndio e voltar a desfrutar das boas refeições com tranquilidade e sem queimação.
Dr. Ricardo Purchio Galletti – CRM-SP: 210301 | RQE: 128585 / RQE: 147545
Médico Cirurgião do Aparelho Digestivo



