“Quando vamos marcar uma biriba?”, pergunta Lenny Niemeyer a Oskar Metsavaht ao fim da sessão de fotos que estampa esta reportagem.
Eles têm intimidade: se conheceram há mais de três décadas, quando Nazaré, mulher de Oskar, praticava esqui aquático na Lagoa Rodrigo de Freitas, bem em frente à casa da estilista, também adepta da modalidade à época.
O reencontro agora, no Píer Mauá, sintetiza o que ajudaram a erguer ao longo dos anos – um certo estilo de vida carioca, que é solar, esportivo, atento ao que pulsa nas ruas e afinado com o mundo lá fora.
Nenhum dos dois, curiosamente, nasceu nestas praias. Lenny, 74 anos, é paulista de Santos, mas já soma meio século por aqui; Oskar, 64, veio de Caxias do Sul e fincou raízes em 1984.
Juntos, compõem uma geração que traduziu um modo único de existir em roupas e atitudes e disseminou o espírito local para muito além de suas fronteiras.
É simbólico que eles sejam homenageados agora no Rio Fashion Week, evento inédito que sucede diferentes iniciativas do gênero e tem início na próxima terça (14), ocupando endereços diversos com a missão de recolocar o Rio no mapa global da moda.
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A ambição é grande, é verdade, porém tangível para uma metrópole que sempre ditou comportamento, dentro e fora das passarelas.
No verão de 1980, o jornalista Fernando Gabeira escreveu um desses capítulos memoráveis no manual de estilo local ao circular pelas areias de Ipanema a bordo de uma tanga de crochê.
De lá para cá, o chinelo de dedo saltou da praia para o bar sem cerimônia, e a marquinha de biquíni feita com fita adesiva, no início dos anos 2010, virou até ativo cultural (quem não viu uma amostra nos viralizados clipes de Anitta?).
Nesse contexto, a volta de um evento dedicado ao que há de mais novo nas vitrines brasileiras, doze anos após a última edição do Fashion Rio, devolve o protagonismo à capital fluminense, fortalecendo a economia e ensejando seu soft power – o vigor de atrair e gerar desejo.
“Para escolher as marcas, levamos em conta o diálogo que travam com o público estrangeiro e o legado que cada uma deixa ao Brasil”, explica Olivia Merquior, curadora de conteúdo do Rio Fashion Week, que dá o pontapé inicial com a Osklen no Palácio da Cidade, em Botafogo.
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No sábado (18), o derradeiro dia, Lenny Niemeyer encerra os desfiles em pleno Museu do Amanhã, na Zona Portuária.

E o evento não se fará apenas de talentos que germinaram na cidade. O diverso leque de estilos brasileiros estará sob holofotes, representado por grifes como a Misci, de Airon Martin, matogrossense que trocou a medicina pelo design, e Helô Rocha, que batizou a própria marca, egressa de Natal. Ambos, aliás, já vestiram a primeira dama Janja.

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No rol dos vinte nomes que cruzarão passarelas, só a Adidas vem de fora. Mas o Rio Fashion Week, é bom lembrar, não se limitará aos desfiles.
Espalhada por quatro armazéns e 35 000 metros quadrados do Píer Mauá, a semana de moda funcionará como plataforma de encontros: conversas entre profissionais, rodas de negócio e atividades de wellness se desenrolarão lado a lado com a apresentação das coleções, em um formato que se assemelha ao da Rio2C – outro exemplo de como a cidade vem se firmando como dinâmico polo de criatividade.

A abertura ao público, com venda de ingressos, amplia tal movimento, e a engrenagem da economia é posta para girar: são esperados quinhentos compradores vindos de efervescentes endereços mundo afora, como as Galeries Lafayette, de Paris, e a londrina Selfridges, além de uma programação paralela que faz boa mistura entre gastronomia, cultura e música.
“This city has style” é a frase que já badala o evento pelas ruas e redes sociais. “Eu costumo dizer que nós, cariocas, somos bonitos, saudáveis, sexy e alegres”, brinca Oskar, o diretor-criativo da Osklen, movido pela autoestima e o bom humor há décadas exportados pela cidade.
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O regresso da semana de moda não aconteceu por acaso. A ideia da retomada vinha sendo gestada desde 2021, quando a secretária municipal de Turismo, Daniela Maia, iniciou conversas para reativar o projeto.
À época, a IMM – responsável pela Luminosidade, produtora do São Paulo Fashion Week e detentora da marca Rio Fashion Week, que permaneceu engavetada por quinze anos – considerou o cenário demasiado incerto, em meio às restrições da pandemia de covid-19. Mas a realidade agora é outra.
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“O Rio está em alta. Aprovamos a ideia em novembro e conseguimos lançar um mês depois. Viemos para ficar”, promete Gustavo Oliveira, diretor da IMM, à frente de outras agendas de envergadura na cidade, como o SailGP e o Rio Open.
Ao pôr em plena marcha todo o ecossistema da moda, a atual programação reposiciona o Rio como efervescente polo de criação e negócios. “É um estímulo a inovação, formação profissional e novos empreendimentos”, diz Antonio Queiroz, presidente do Sistema Fecomércio RJ, que engloba o Senac, patrocinador do RioFW.
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Foi lá atrás, em 2009, que o empresário Paulo Borges, fundador do São Paulo Fashion Week, assumiu o Fashion Rio, criado pela Dupla Assessoria, de Eloysa Simão.
À época, pairava no ar a desconfiança de que a temporada carioca perderia espaço para a versão paulistana, o que acabou mesmo por ocorrer. O Fashion Rio chegou ao fim em 2014, enquanto a SPFW seguiu como a principal vitrine do setor, ainda que tenha adentrado uma era de edições mais enxutas para os próximos anos.
“Tudo tem seu tempo”, reflete Daniela Maia, aliviada ao ver o projeto, já confirmado para 2027 e 2028, deslanchar.
A marca Fashion Rio, aliás, nunca deixou de existir: continuou registrada pela Firjan, que patrocinou o evento no passado e apoia a nova iniciativa.
Capital federal até 1960, o Rio cultiva uma tradição na moda que antecede em muito as semanas fashion tal como as conhecemos hoje.
Já na primeira metade do século passado, a elegante Casa Canadá apresentava à clientela criações de grifes europeias como Balenciaga e Lanvin, enquanto os salões do Copacabana Palace serviam de palco para o Miss Elegante Bangu, embrião dos concursos de beleza nacionais.
A virada de página viria com a incorporação de uma estética mais brasileira – e, sobretudo, mais carioca.
Foi essa identidade que ganhou impulso nas passarelas a partir dos anos 2000, quando o estilo local passou a dialogar com a paisagem e o imaginário da cidade.
Em 2006, a Blue Man transformou os Arcos da Lapa em cenário de desfile, e a Sommer levou um “safári” à Floresta da Tijuca.
No ano seguinte, a diretora Bia Lessa encenou um engarrafamento com dez carros na exibição da coleção da Mara Mac, na Marina da Glória, obrigando as modelos a ziguezaguear entre os veículos – um retrato performático da própria “cidade maravilha purgatório da beleza e do caos”, como lembra a canção.
Naquele período, o Rio também atraiu atenção internacional, com nomes como Gisele Bündchen, Naomi Campbell, Paris Hilton, Olivia Palermo e Daniela Cicarelli (com o então marido, Ronaldo Fenômeno, na primeira fila) nas passarelas.


“O jeito despojado do carioca é um ativo, por isso são de extrema importância a valorização e a visibilidade de quem somos”, defende Daniela Maia.
O Brasil é um dos poucos países com direito a cadeia têxtil completa, da fibra às passarelas, girando centenas de bilhões de reais por ano e empregando milhares de profissionais em todas as etapas.
No estado do Rio, são mais de 130 000 trabalhadores formais com carteira assinada e 82 000 pequenos empreendedores que encontram na moda um campo de criação e sustento.
O retorno de uma semana de moda com ambição global, portanto, não é apenas a celebração de um jeito de ser, o que já seria notável, mas um potente motor para irradiar oportunidades.
“O impacto é direto na economia”, resume o prefeito, Eduardo Cavaliere. “Estamos mostrando que temos passado e futuro”, observa Oskar Metsavaht.
Em uma cidade onde estilo nunca foi esforço, mas quase uma extensão do ato de existir, a moda volta a ocupar seu lugar de vitrine em um recomeço à altura do que o Rio é e sempre soube ser.
O peso da moda
Dados que dimensionam a força do setor no Rio e no Brasil
Brasil
203,9 bilhões de reais foi o faturamento da indústria têxtil e de confecção brasileira em um ano
2,6 bilhões de dólares é o valor das exportações para 231 países
1,7 milhão de dólares gerados em negócios na feira Coterie NY, com participação de marcas cariocas como Farm e Dress To
Rio
130 000 trabalhadores formais atuam na área + 10 000 empresas compõem a cadeia produtiva fluminense
Fontes: Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), Coterie NY e Senac RJ
Talentos em cena
Estreias, retornos e apostas ajudam a traduzir o espírito da nova semana de moda
O Reino Unido de Ipanema. A Osklen fará uma grande ode ao bairro da Zona Sul, abrindo a semana de moda no Palácio da Cidade, após integrar 27 edições do São Paulo Fashion Week. “Vou receber os convidados de forma clássica”, adianta Oskar Metsavaht.
Marco Na trajetória. Cabo-verdiana que vive no Rio desde 1994, Angela Brito participou de seis edições do SPFW. Em casa, a estilista promete mostrar um Rio de Janeiro diferente do imaginário convencional, mas cheio de bossa.
Do Oscar para o Píer Mauá.

Vale ficar de olho em marcas que vêm chamando a atenção, como a Normando, de Marco Normando e Emídio Contente, que vestiu a atriz Alice Carvalho para o tapete vermelho em Los Angeles.
Filha de peixe.

Aos 27 anos, Chica Capeto fará sua estreia numa semana de moda ao lado da mãe, Isabela Capeto. “Acompanho tudo desde muito nova, ia para todos os eventos com ela. Agora, estou pronta para colaborar”, anima-se Chica, que levará a inspiração na planta dracena e no movimento neoconcreto para as peças.
Volta ao passado. Depois de voltar a desfilar no Rio com uma exibição icônica no Palácio Capanema, em agosto do ano passado, Lenny Niemeyer promete outra apresentação histórica, no átrio do Museu do Amanhã, com releituras de looks emblemáticos da marca.
Dia de estreia.

Conhecida por peças maximalistas e luxuosas que misturam tramas estruturadas com a fluidez da lycra, a Argalji, da carioca Monique Argalji, levará seus modelitos pela primeira vez a uma passarela.
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Muito além da passarela
Com ingressos à venda, programação mistura moda, bem-estar, negócios e animadas noitadas
Haverá diversas atividades promovidas por patrocinadores, como o ateliê criativo do Senac RJ, além de debates, rodadas de negócios e atividades de wellness.
As sunset parties começam às 17h com sets de DJ e, à noite, rolam as festas até as 2h. No sábado (18), o fervo deve se estender até as 5h.
Alguns desfiles podem ser conferidos mediante compra de ingresso — há a possibilidade de comprar um bilhete para uma apresentação específica, como as de Isabela Capeto, Lucas Leão e Dendezeiro.

Aulas de ioga, funcional, spinning e pilates acontecem no sábado (18), às 8h, e serão gratuitas.

Na quarta (15), a mesa Mídia e Networking reúne Imruh Asha, diretor de moda da Dazed Magazine; Juan Costa Paz, fundador da Convoy e diretor-criativo da Love Magazine; e Luz García, editora da Vogue Latam.

As rodas de negócio acontecem de quarta (15) a sexta (17).
Instalações do coletivo catalão Penique Productions e a exposição A Alta-Costura do Carnaval, produzida por Gringo Cardia com criações de Henrique Filho, poderão ser visitadas.

Para comer e beber, cinco restaurantes estarão presentes. Entre eles, a Nolita Oven Bar e a Destilaria Maravilha.
Rio Fashion Week. Armazéns 1 a 4 do Píer Mauá. Avenida Rodrigues Alves, 10, Zona Portuária. Ter. (14) a sáb. (18), 14h/2h. R$ 100,00 a R$ 2 400,00. Ingressos pelo Eventim. Informações em riofw.com.br.



