Apesar da queda nos índices de homicídios e roubos no Brasil, o crime organizado segue em expansão e diversificação. Foi o alerta dado pelo especialista em segurança pública Leandro Piquet Carneiro, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em depoimento à CPI do Crime Organizado nesta terça-feira (31).
Carneiro destacou que a redução da violência não significa vitória contra o crime. Pelo contrário: pode refletir maior controle territorial das facções e sua migração para atividades menos visíveis, como fraudes digitais e contrabando.
“Mais crime organizado, menos violência. É um pouco dessa lógica”, afirmou o pesquisador, ao apresentar dados dos Anuários Brasileiros de Segurança Pública.
Mercado clandestino em expansão
O especialista ressaltou que o crime organizado hoje se sustenta em atividades aparentemente “legítimas”, como o comércio irregular de cigarros, combustíveis, fertilizantes e remédios. A combinação de fiscalização frágil e boom do comércio online torna o negócio altamente lucrativo.
“É muito dinheiro envolvido nesse negócio, e isso exerce enorme pressão sobre o sistema de segurança pública”, disse Carneiro.
Conivência social
Pesquisa da USP em 2025 revelou que 20% dos brasileiros admitem consumir produtos ilegais — de combustíveis a roupas — quando o preço é mais vantajoso. Para Carneiro, essa tolerância social fortalece o mercado paralelo e dificulta o combate.
Desafio institucional
Carneiro defendeu maior integração entre polícias, Ministério Público e auditores fiscais. A fragmentação entre União, estados e municípios, além da separação entre Polícia Militar, Civil e Federal, compromete a eficácia.
“Talvez a criação de uma agência para investigar crimes complexos favoreça essa solução”, sugeriu.
Quebra de estereótipos
O relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), reforçou que o crime organizado não se limita às periferias.
“Rompe-se o mito de que é representado exclusivamente pelo pobre preto armado numa favela”, afirmou.
Esse depoimento expõe uma contradição inquietante: enquanto os números da violência caem, o poder econômico e político das facções cresce, infiltrando-se em mercados, instituições e até no consumo cotidiano da população.



