O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, está sendo investigado por, pelo menos, dois escritórios de procuradores federais dos Estados Unidos, segundo três fontes familiarizadas com o assunto. As investigações têm explorado, entre outras coisas, os possíveis encontros de Petro com traficantes de drogas e se sua campanha presidencial solicitou doações de criminosos. As apurações, que são independentes, estão em fase inicial e, por ora, não se sabe se resultarão em acusações criminais formais.
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A mídia colombiana já veiculou informações sobre pessoas ligadas a traficantes que tentaram canalizar fundos para a campanha de Petro, inclusive por meio de seu filho, Nicolás Petro Burgos. Nicolás, de acordo com promotores colombianos, admitiu que dinheiro ilícito entrou na campanha eleitoral de seu pai em 2022. Desde então, os promotores, porém, não apresentaram acusações criminais contra Petro, que nega qualquer irregularidade e afirma que as acusações são politicamente motivadas.
Petro, de fato, sempre negou ter ligações com o tráfico de drogas, destacando o sucesso do seu governo no combate ao cultivo de coca, matéria-prima da cocaína, e as suas ordens para que os militares atacassem grupos armados de narcotráfico. Ele, inclusive, já fez parte de um grupo guerrilheiro urbano e conduziu negociações de paz com outras organizações armadas — algumas com raízes em guerrilhas de esquerda — que acabaram por fracassar.
Segundo as fontes, as investigações independentes, que estão em fase inicial, são conduzidas pelos escritórios do procurador dos EUA em Manhattan e no Brooklyn, em Nova York, e envolveram promotores especializados em tráfico internacional de narcóticos, bem como agentes da Administração de Combate às Drogas (DEA, na sigla em inglês) e da Divisão de Investigações de Segurança Interna (HSI).
Procurados, os dois gabinetes recusaram-se a comentar sobre o caso, assim como a DEA. O HSI e um assessor de Petro não responderam.
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Até o momento, não há informações sobre a participação da Casa Branca nas investigações. Mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que frequentemente usa investigações criminais como arma contra seus rivais, faz críticas duras à Petro, chamando-o de “homem doente”. E Trump poderia usar as investigações como forma de pressionar a Colômbia, que é tanto a maior produtora mundial de cocaína quanto uma das aliadas mais importantes de Washington no combate ao narcoterrorismo na região.
O presidente americano, por sua vez, também poderia usar as investigações para tentar influenciar o resultado das eleições presidenciais da Colômbia, que vão acontecer em maio. Petro, o primeiro presidente de esquerda do país, está limitado a um mandato, mas pediu aos seus apoiadores que se unam em torno de seu sucessor escolhido a dedo.
Logo após a operação militar americana em Caracas, em janeiro, que resultou na captura e deposição do líder venezuelano Nicolás Maduro, Trump foi questionado por repórteres se os militares poderiam tomar medidas contra a Colômbia.
— Para mim, parece uma boa ideia — disse Trump, na ocasião.
Relação espinhosa de Trump e Petro
Apesar de terem se mostrado mais estáveis nos últimos meses, as relações entre Trump e Petro, ao longo do último ano, foram abertamente hostis, com os dois presidentes trocando insultos nas redes sociais. Em janeiro do ano passado, Petro impediu que aviões militares americanos transportando colombianos deportados pousassem em seu país, recuando apenas depois que Trump ameaçou a Colômbia com tarifas elevadas.
Em setembro, os EUA revogaram o visto do presidente colombiano durante a Assembleia Geral da ONU, depois que ele pediu que soldados americanos desobedecessem Trump em um comício pró-Palestina em Nova York. A inimizade se intensificou no mesmo mês, quando os militares americanos começaram a bombardear barcos que, segundo eles, traficavam drogas no Caribe e no Pacífico Oriental, levando Petro a acusar o governo Trump de cometer “assassinatos”.
Pouco tempo depois, o Departamento do Tesouro americano impôs sanções contra Petro e sua família, congelando quaisquer bens que eles pudessem possuir nos EUA e dificultando suas viagens ao exterior.
— O presidente Petro permitiu que os cartéis de drogas prosperassem e se recusou a impedir essa atividade — disse o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, à época.
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Em dezembro, a relações parecia ter atingido o seu ponto mais baixo. Naquele mês, Trump disse que o Petro devia “ficar atento” e acusou-o de inundar os EUA com cocaína. Dias depois, aconteceu a operação em Caracas.
Já no dia 7 de janeiro, Petro e Trump realizaram sua primeira conversa telefônica, intermediada pelo embaixador da Colômbia em Washington e pelo senador republicano Rand Paul, do Kentucky. Posteriormente, Trump referiu-se à conversa como uma “grande honra”, enquanto Petro a descreveu como “histórica”. O presidente colombiano, em fevereiro, visitou a Casa Branca, indicando inesperadas demonstrações de cordialidade entre os chefes de Estado.



