Casos em corridas e no futebol levantam um alerta: segundo o Prof. Dr. Carlos Alberto Pastore, o esforço extremo pode expor doenças do coração que estavam silenciosas
Quando um atleta cai durante uma partida ou um competidor sofre um colapso em uma prova de endurance, a explicação quase sempre aparece rapidamente: “morte súbita”. A expressão, porém, pode dar a falsa impressão de que o coração simplesmente parou sem motivo. Na cardiologia, a realidade costuma ser diferente. Na maioria das vezes, o evento é consequência de uma doença cardíaca pré-existente – muitas vezes silenciosa – que se manifesta de forma abrupta durante um momento de grande estresse fisiológico.
O que a ‘morte súbita’ significa na prática
A chamada morte súbita cardíaca é definida como a morte inesperada que ocorre, geralmente, até uma hora após o início dos sintomas e que tem origem em uma arritmia grave do coração, como fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular. Essas alterações elétricas impedem o coração de bombear sangue de forma eficaz, levando à perda de consciência e, se não houver intervenção imediata, ao óbito.
Quando o exercício revela um problema oculto
Praticar atividade física regular é um dos fatores mais importantes para proteger o sistema cardiovascular. No entanto, em algumas situações específicas, o esforço intenso pode funcionar como gatilho para revelar doenças cardíacas que, até então, não haviam sido diagnosticadas.
Durante exercícios intensos, o organismo passa por mudanças fisiológicas importantes: aumento da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial, maior liberação de adrenalina e aumento significativo da demanda de oxigênio pelo músculo cardíaco. Se o coração tiver alguma alteração estrutural ou elétrica, essas condições podem desencadear arritmias potencialmente fatais.
Estudos internacionais estimam que a incidência de morte súbita associada ao esporte varie entre 1 e 3 casos por 100 mil atletas por ano. Dependendo do país e do método de análise, esse número pode variar entre 0,5 e 13 casos por 100 mil atletas ao ano. Na população geral, eventos desse tipo relacionados à atividade física são ainda mais raros, ocorrendo em cerca de 4 a 5 casos por milhão de pessoas por ano.
Embora os números sejam baixos, o impacto desses episódios costuma ser enorme, principalmente porque frequentemente envolvem pessoas jovens e aparentemente saudáveis.
As causas variam conforme a idade
A origem das mortes súbitas no esporte costuma variar de acordo com a faixa etária do praticante. Entre atletas com menos de 35 anos, as causas mais comuns são doenças cardíacas estruturais ou genéticas. Entre elas estão a cardiomiopatia hipertrófica – considerada a principal causa nesse grupo –, a cardiomiopatia arritmogênica, anomalias das artérias coronárias e doenças elétricas do coração, como a síndrome do QT longo.
A cardiomiopatia hipertrófica, por exemplo, é uma condição relativamente rara, mas não excepcional: estima-se que esteja presente em cerca de uma em cada 500 pessoas. Muitas vezes, ela permanece silenciosa por anos e pode se manifestar apenas durante um esforço intenso.
Após os 35 ou 40 anos, o cenário muda. A principal causa de morte súbita relacionada ao exercício passa a ser a doença coronariana – caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias que irrigam o coração. Nessas situações, o esforço físico intenso pode desencadear infarto ou arritmias graves.
Endurance extremo e provas de alta exigência
Eventos como maratonas, provas de Ironman, ciclismo de longa distância e montanhismo de altitude representam um desafio fisiológico extremo para o organismo. Nessas atividades, o coração é submetido a um esforço prolongado e intenso.
Em maratonas, por exemplo, o risco de morte súbita é estimado em aproximadamente um caso para cada 50 mil participantes ao longo da carreira esportiva. Embora seja um número muito baixo, episódios desse tipo continuam sendo registrados em diferentes países, especialmente nos momentos finais das provas ou logo após a chegada.
É importante destacar que a maioria dos casos não ocorre com atletas profissionais. Estudos indicam que mais de 90% das mortes súbitas relacionadas ao esporte acontecem durante atividades recreativas, como corridas de rua, partidas de futebol amador, ciclismo ou trilhas.
Isso ocorre, em grande parte, porque atletas profissionais costumam passar por avaliações médicas regulares e monitoramento constante. Já entre praticantes recreativos, muitas vezes não há triagem cardiovascular antes da prática de exercícios intensos.
Avaliação médica pode reduzir riscos
A avaliação cardiovascular antes da prática esportiva é uma das principais estratégias para reduzir o risco de eventos graves. Esse tipo de triagem busca identificar doenças cardíacas silenciosas que poderiam representar perigo durante atividades de alta intensidade.
Entre os exames mais utilizados estão avaliação clínica detalhada, eletrocardiograma, ecocardiograma e teste ergométrico. Em alguns casos específicos, exames mais avançados, como ressonância magnética cardíaca ou monitoramento prolongado do ritmo cardíaco, também podem ser indicados.
Experiências internacionais mostram que programas estruturados de triagem podem ter impacto significativo. Na Itália, por exemplo, a introdução obrigatória do eletrocardiograma para atletas competitivos foi associada a uma redução importante na incidência de morte súbita em esportistas ao longo das últimas décadas.
Um evento raro, mas que exige atenção
Casos de atletas que sofrem colapso durante atividades esportivas frequentemente ganham grande repercussão na mídia, especialmente quando ocorrem em partidas de futebol ou grandes competições. Apesar disso, os estudos indicam que a incidência desses eventos permanece relativamente estável ao longo do tempo. O que mudou, na verdade, foi a visibilidade dessas situações e o maior acesso à informação.
A chamada morte súbita raramente é completamente inesperada do ponto de vista médico. Em muitos casos, o coração já carregava uma condição silenciosa que ainda não havia sido diagnosticada. O esforço extremo, nesses cenários, funciona como o momento em que o problema finalmente se manifesta.
Por isso, antes de se lançar em desafios físicos muito intensos – seja uma maratona, um Ironman ou uma expedição de alta altitude –, a avaliação médica adequada deixa de ser apenas uma formalidade e passa a ser uma medida essencial de segurança.
Prof. Dr. Carlos Alberto Pastore – CRM: 24264 | RQE 69372
Médico Cardiologista
Livre-docente pela FMUSP
Membro Brazil Health


