‘Escudo’ de Trump contra narcotráfico e crime organizado aumenta risco de intervenções na América Latina

Nos primeiros dias de março, antes do encontro organizado pelo presidente americano, Donald Trump, no dia 7, em Miami, para lançar a iniciativa “Escudo das Américas” — uma aliança com 17 países latino-americanos para atuar no combate ao crime organizado


Nos primeiros dias de março, antes do encontro organizado pelo presidente americano, Donald Trump, no dia 7, em Miami, para lançar a iniciativa “Escudo das Américas” — uma aliança com 17 países latino-americanos para atuar no combate ao crime organizado e ao narcotráfico — o presidente do Equador, Daniel Noboa, anunciou uma operação militar inédita com os Estados Unidos. Num país em que a taxa de homicídios disparou entre 2020 e 2024, passando de 7,8 para 38,8 por 100 mil habitantes, os EUA aprofundaram o que promete ser uma nova era de cooperação militar com os países da região. Uma fase que, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO, desperta incertezas sobre a abrangência e impacto de uma cooperação considerada necessária para enfrentar um flagelo que os governos latino-americanos não têm capacidade de combater sozinhos.

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“Estamos iniciando uma nova fase contra o narcoterrorismo e a mineração ilegal. Em março, realizaremos operações conjuntas com nossos aliados na região, incluindo os EUA. A segurança dos equatorianos é nossa prioridade”, escreveu Noboa no X.

Já o Comando Sul dos EUA informou que “essas operações são um exemplo claro do compromisso de seus parceiros na América Latina e no Caribe no combate ao flagelo do narcoterrorismo”.

Números do narcotráfico na região — Foto: Editoria de Arte/O Globo

Classificar organizações criminosas como terroristas é o primeiro passo para uma ação mais contundente dos EUA em outros países. De acordo com a legislação americana, se uma organização for considerada terrorista, a Casa Branca pode promover intervenções usando a força militar — e até mesmo realizar operações unilaterais contra essas organizações.

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Um dos objetivos do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, um dos cérebros por trás do escudo trumpista, é ampliar a lista de organizações terroristas no continente. Esse é um dos pontos sensíveis da agenda bilateral entre EUA e Brasil, que poderia gerar tensões na visita de Lula a Washington — prevista inicialmente para este mês, mas agora sem data definida. O governo brasileiro se opõe a que grupos como o Comando Vermelho (CV) ou o Primeiro Comando da Capital (PCC) passem a ser considerados terroristas. Nas palavras de uma fonte do governo Lula, “a situação de países como o Equador é compreensível, mas o Brasil não é o Equador”.

O Equador não se tornou apenas um dos países mais perigosos do mundo, mas também um hub de produção e distribuição de drogas. Segundo um relatório da Profitas, consultoria de risco político baseada em Quito, “o crescimento sustentado da oferta e da demanda por cocaína, aliado à maior concorrência com outras drogas sintéticas, especialmente nos Estados Unidos, levou as organizações de narcotráfico a diversificarem suas atividades de comercialização.

Nesse contexto, o Equador consolidou-se como um enclave estratégico para a distribuição aos principais mercados consumidores”. O país, diz o documento, é hoje um “centro logístico do narcotráfico”.

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— O ataque contra organizações criminosas no início de março, com colaboração dos americanos, foi inédita. Agora a expectativa é sobre como essa cooperação vai continuar — afirma Sebastián Hurtado, que preside a Profitas. — A situação do país é dramática.

Ele explica que o governo Noboa relançou sua estratégia de combate ao crime organizado decretando, por exemplo, novas regras sobre a implementação do toque de recolher em regiões onde o narcotráfico e o crime organizado atuam.

— A situação é tão dramática que, mesmo que o governo tenha perdido um referendo em 2025 sobre a instalação de bases americanas no país, hoje os equatorianos estão dispostos a quase qualquer coisa para ter segurança.

Assim como Noboa, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, também reforçou a cooperação militar com os EUA. Em dezembro de 2025, os dois países selaram um Acordo sobre o Estado das Forças (Sofa, na sigla em inglês), segundo o qual militares americanos podem permanecer temporariamente em território paraguaio para treinamentos, assistência humanitária e combate ao crime transnacional. Desde então, crescem rumores sobre futuras bases militares americanas no Paraguai.

Na Argentina, fontes do Ministério da Defesa afirmam que a cooperação entre Equador e EUA é observada com atenção e que a Casa Rosada poderia seguir os passos de Noboa. Em fevereiro, a imprensa local informou que o governo de Javier Milei estaria finalizando os detalhes de um exercício militar conjunto entre os Comandos de Operações Especiais da Argentina e dos EUA, que será chamado de “Adaga do Atlântico”. A operação, que promete ter uma dimensão inédita na relação bilateral, está prevista para a primeira quinzena de abril.

A Bolívia, que é parte do escudo de Trump, tem um histórico de cooperação com os EUA em matéria de combate ao narcotráfico e crime organizado. Essa cooperação se tornou mais difícil durante os 20 anos em que o Movimento ao Socialismo (Mas) esteve no poder, mas nunca deixou de existir. Como explicou uma fonte do governo brasileiro, “a presença da DEA (agência federal antidrogas dos EUA, criada em 1973) em vários países da região, entre eles a Bolívia, é conhecida e deve se aprofundar agora com Trump”. Na sexta-feira, o governo de Rodrigo Paz informou que o narcotraficante uruguaio Sebastián Marset foi preso no país e deportado para os EUA. O narco uruguaio foi entregue pela polícia boliviana a agentes da DEA no aeroporto de Santa Cruz, de onde partiu para os EUA.

Colômbia e México não foram convidados para o encontro em Miami, mas analistas de ambos os países lembram que a cooperação militar com os EUA é intensa. No caso da Colômbia, poderia ser ainda maior caso um candidato de direita vença as eleições presidenciais de maio.

— Nos governos de [Álvaro] Uribe e [Juan Manuel] Santos os EUA forneciam equipamentos militares e ajuda na área de inteligência. Foram os anos do Plano Colômbia. Com [Gustavo] Petro, o país continua recebendo ajuda dos americanos — afirma Jorge Restrepo, do Centro de Recursos para a Análise de Conflitos Armados e Política de Segurança (Cerac).

De fato, Petro celebrou o envio de 145 veículos blindados dos EUA em fevereiro, confirmando que a cooperação com os americanos na área militar é uma tradição na Colômbia que se mantém até mesmo em governos de esquerda. Para o colombiano Mario Gomez, sócio diretor da Prospectiva, “se houver uma mudança política, a aliança militar com os EUA será reativada com força”.

— Na Colômbia, essa aliança militar é vista como natural — frisa Gomez.

No México, outro país excluído do escudo de Trump, a cooperação militar com os EUA vive um período de esplendor, confirma Eduardo Guerrero, diretor da Lantia Intelligence.

— O Exército mexicano contou com estreita colaboração dos americanos na operação em que morreu Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como El Mencho, principal líder do cartel Jalisco Nova Geração — assegura Guerrero. — A única condição inegociável para a presidente Claudia Sheibaum é que militares americanos não atuem em território mexicano sem autorização de seu governo. E Trump não vai cruzar essa linha vermelha.



Com informações da fonte
https://boletimrj.com.br/escudo-de-trump-contra-narcotrafico-e-crime-organizado-aumenta-risco-de-intervencoes-na-america-latina/

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