Antes de qualquer coisa, o PSOL é um partido que escolhe seus rumos e decide o que faz. Mas entrar em uma federação na qual o PT é hegemônico, do ponto de vista de estratégia e tática eleitoral, é, no mínimo, curioso. Veremos o PSOL, que historicamente tem posições mais à esquerda, passando a ser base e colaborando para o tempo de TV e em coligações de partidos como União Brasil, MDB, Solidariedade e, aqui no Rio, por exemplo, de Eduardo Paes.
Antes de entrar no caso do Rio e no apoio ao Eduardo, preciso explicar o que é federação e a diferença dela para a coligação. Em linhas gerais, a coligação é um acordo temporário e focado puramente nas urnas: os partidos se unem para disputar uma eleição específica (hoje, apenas para cargos majoritários, como prefeito, governador, senador e presidente) e, no dia seguinte ao pleito, cada legenda segue sua vida de forma independente. Já a federação partidária é um compromisso muito mais profundo, uma espécie de casamento civil que dura, por força de lei, no mínimo quatro anos. Ao formarem uma federação, os partidos passam a atuar obrigatoriamente como se fossem uma única sigla em todo o território nacional. Eles compartilham estatuto, fundo partidário, tempo de TV e precisam atuar como uma bancada unificada no legislativo, do Congresso Nacional às Câmaras Municipais, perdendo parte considerável de sua autonomia local em nome do bloco.
Desde a fundação do PSOL, o partido teve candidatos ao Governo do Estado do Rio de Janeiro, com exceção de 2022. Isso colaborou muito para o crescimento da sua bancada, que é uma das maiores e mais fortes do Brasil. Milton Temer em 2006, Jefferson Moura em 2010, Tarcísio Motta em 2014 e 2018. Em 2006, Milton Temer teve 1,44% dos votos e, em 2018, Tarcísio teve 10,72%. Isso significa um crescimento muito significativo.
Para além disso, a bancada de deputados federais do PSOL no Brasil tem quase metade dos seus membros no Estado do Rio de Janeiro, e todos eles são nacionalmente conhecidos e reconhecidos como parlamentares de luta, de esquerda, etc. Sem sombra de dúvida, o Rio de Janeiro é um dos principais polos do PSOL no Brasil.
Não vou entrar aqui no mérito da relação de interesses pessoais do Boulos ao levar o PSOL para a Federação Brasil da Esperança, mas, ao tomar essa decisão, quem mais é impactado no Brasil é, sem dúvida, o PSOL do Rio de Janeiro.
Vamos voltar ao Dudu?
A eleição estadual está desenhada para uma disputa direta entre Eduardo Paes e Douglas Ruas. Não há, hoje, nenhum outro candidato viável para ganhar a eleição. Como a federação liderada pelo PT já assumiu a posição de caminhar com Eduardo Paes, existia uma óbvia animação dos candidatos do PSOL de entender que, nesta eleição, eles poderiam performar muito bem para o governo do estado, já que os votos mais à esquerda iriam com seu candidato.
Fazendo uma conta de padaria, a tese central seria lançar William Siri, vereador da capital, que teria uma performance de 2% a 3%, ou lançar um Glauber Braga, para chegar aos 7% ou 8% (ou até mais). Em ambos os cenários, o PSOL teria um candidato ao governo do estado mais à esquerda para buscar votos, inclusive do PT, ao apontar as contradições que uma frente ampla requer para garantir a reeleição do governo Lula (apoiar Eduardo Paes, Reis, etc.).
Com a federação consolidada com o PT, o partido teria que, obrigatoriamente, apoiar o Eduardo Paes; ou seja, o storytelling de oposição de esquerda ou oposição ao que está posto no estado cai. Imagine, ao final de um vídeo de um dos deputados do PSOL, você ver subir no horário eleitoral as logomarcas de Eduardo Paes e de Jana Reis. Isso tira um pouco da grife PSOL.
Outro problema é a lógica do Senado. Com o partido fora da federação, o PSOL poderia estrategicamente lançar um candidato próprio e, na segunda vaga, apoiar a Benedita. Com o partido na federação, as duas vagas são escolhas da coligação como um todo, e não me parece razoável ver o PSOL tendo que assinar a mesma coligação de um candidato ao Senado indicado pelo Republicanos, que poderia ser até o Crivella. Não faz muito sentido, considerando o que conhecemos do PSOL até aqui.
A federação para o PSOL pode ajudar o partido a eleger nomes por todo o Brasil, mas no Estado do Rio de Janeiro não me parece fazer sentido do ponto de vista eleitoral. Pode fazer sentido para o Boulos ganhar força na sucessão do Lula, para quadros do PSOL que quase foram para o PT e para algumas lideranças que não conseguiriam montar nominatas, mas no Rio de Janeiro, a federação é muito interessante para Eduardo Paes, que poderia ganhar a eleição no primeiro turno, pois é menos um nome disputando a vaga de governador para tirar votos dele.
Escrevo esse texto com muito respeito ao PSOL e às lideranças que defendem a federação. Acho que faz parte da disputa política defender seus interesses e está tudo bem, e as implicações disso se dão hoje e na próxima eleição. Agora, vamos combinar aqui, para nós que gostamos de política: seria, no mínimo, curioso ver o PSOL apoiando Eduardo Paes, Jana Reis e um senador da Universal nesta eleição.
Com informações da fonte
https://boletimrj.com.br/federacao-impacto-eleicao-governador-rj/



