É carnaval! Tem samba, blocos, mas tem muito mais no rolé pelas ruas do Rio

É carnaval e, neste verão, o Rio parece menos interessado em “lugares bombados” e mais obcecado por uma ideia antiga que a cidade faz melhor do que qualquer capital: a rua como programa. Não como passagem, não como paisagem, e


É carnaval e, neste verão, o Rio parece menos interessado em “lugares bombados” e mais obcecado por uma ideia antiga que a cidade faz melhor do que qualquer capital: a rua como programa. Não como passagem, não como paisagem, e sim como destino. O sol tem um jeito próprio de empurrar o carioca para fora de casa, mas desta vez o movimento ganha uma marca mais nítida: menos “evento”, mais circulação. Menos “chegar”, mais estar.

Quem ajuda a enxergar esse desenho antes de ele virar consenso é Giuliana Costa, publicitária de 25 anos e criadora da página @rolesbons, que virou um termômetro do que está vivo na cidade. “Eu sentia falta de uma curadoria que fosse um pouco mais jovem, voltada para quem gosta de sair e viver a cidade com um olhar autêntico”, resume.

Esse espírito aparece com clareza na Rua Moraes e Vale, onde o rolé não depende de um endereço específico, mas do conjunto: calçada virando extensão dos lugares, som atravessando paredes, gente que vai “só dar uma olhada” e termina circulando como se estivesse num corredor de festa, mesmo sem festa declarada. E não é abstração: ali tem rua com jazz e choro, intervenções artísticas nos muros e lugares que já emplacaram a ideia do vinil como trilha do rolé, puxando um público que gosta de caminhar com a noite, e não de “sentar e resolver” o programa. 

Em pleno carnaval, rua do Senado vira ponto de encontro

A poucos metros, o Baiuca entra como um desses lugares que funcionam como filtro de cena: não é “bar”, não é “galeria”, não é “festa” no sentido clássico, mas um ponto que atrai quem quer música, estética e conversa na mesma coordenada. E é aqui que aparece uma obsessão silenciosa do verão 2026: mistura com naturalidade. “Eventos que não são muito nichados, música que não é uma coisa muito nichada é muito bom, porque realmente mistura todo mundo”, diz Giuliana sobre o tipo de rolé que está ganhando força.

Quando o roteiro desce mais o Centro, entra uma tendência clara: garimpo como programa social. A Rua do Senado vira ponto de encontro porque junta três coisas que o Rio voltou a gostar de fazer no mesmo lugar: bater perna, conversar e parar sem pressa. A Feira do Senado puxa o fluxo, os antiquários seguram a narrativa da rua e, no meio disso, você vê gente de moda, design, música e arquitetura garimpando como quem caça referência, não como quem caça “pechincha”. 

Dali, o caminho escorre para a Feira da Praça XV, tradicional feira de antiguidades da cidade com aquele perfil mais “achado encontra o passeio” – que animou a cantora Rosalía ao passar pela cidade – e fecha o triângulo na Feira da Glória, que funciona como termômetro de rua cheia: caminhada, encontros, bancas, brechó, artesanato, música ao redor. O ponto comum das três é circular e conhecer coisas novas.

Se as feiras registram o Rio da memória, as galerias registram o Rio do presente, e cada uma faz isso com assinatura, num Centro que ganhou fôlego com o Reviver Centro. A Refresco aparece como vitrine de artistas e produções que conversam com cotidiano e rua, sem pose de museu. A Proeza aposta no híbrido, com acervo que transita entre arte, design e objeto, e com vocação de ponto de encontro criativo. Já a Arrecife firma um recorte que diz muito sobre o momento: valoriza artistas e narrativas fora do eixo, com atenção para produções nordestinas e independentes dentro do circuito normal do rolé, não como “exceção cultural”.

No mesmo pacote de reocupação, o Mercado Central vira síntese do verão: um lugar onde o rolé se organiza em torno de permanência. E dentro desse ecossistema, o Bocado se tornou um ponto de referência justamente por entender o que o público está procurando: clima e dinâmica, não promessa. Todas as quintas, a casa faz uma noite de ostras ao som de vinil, em outras puxa uma noite de jogos e, no pátio central, já recebeu baile com recorte de soul, groove e funk. 

À frente desse movimento está Larissa Lopes, que comanda o Mercado Central, e ela resume a virada do Centro com precisão: “Queremos mostrar que aqui também é lugar de ficar, de viver. A gente quer que o público crie uma relação de permanência.” É o Centro se comportando como bairro, com vida própria, em vez de cenário.

Mercadinho São José voltou ao jogo com boxes, bares e espaço para atividade cultural

Nessa mesma onda, o Mercado São José, em Laranjeiras, aparece como contraponto de escala e de cadência: uma construção tombada que voltou ao jogo com boxes nas laterais e mesas compartilhadas no centro. Com curadoria da Junta Local, o espaço ganhou um prédio anexo de três pavimentos (com elevador) e um terraço ao ar livre, e reservou o térreo para atividades culturais, com programação divulgada nas redes do espaço. 

Já em Copacabana fechamos o capítulo com o 111 Music Bar. Não é after, não é “segredo”, não é lugar de gritaria. Ele começa antes mesmo de abrir a porta: no elevador, o aviso já dá o tom do pacto do lugar, “Não perturbe a música”. Lá em cima, o clima é de sala bem desenhada: luz baixa, sofás confortáveis, madeira sob medida e peças garimpadas que parecem escolhidas com o mesmo critério das faixas. 

E a obsessão é técnica mesmo: o andar foi equipado com caixas Genelec, referência em alta fidelidade, para tratar a música como protagonista, sem virar “clima de festinha”. A curadoria musical também vira parte da experiência, com DJs como Danny Dee e Memê aparecendo com frequência, em sets que fazem a gente abrir o Shazam no meio do rolé.

Giuliana amarra esse espírito com uma frase que traduz a temporada: “A gente tem a bossa e o borogodó próprio do Rio. É muito mix de pessoas, de lugar, de música, tudo isso e muito mais”. No verão, o Rio não pede um plano perfeito de rolé. Ele pede presença e, claro, muita energia.



Com informações da fonte
https://temporealrj.com/e-carnaval-tem-samba-blocos-mas-tem-muito-mais-no-role-pelas-ruas-do-rio/

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