O Rio de Janeiro acordou nesta terça-feira (10) com mais uma cena digna de novela: médicos e enfermeiros da rede municipal reunidos em frente à Prefeitura para cobrar reajuste salarial, medicamentos básicos e condições mínimas de trabalho. Até aí, nada fora do script. Mas o protagonista da manhã foi o secretário de Saúde, Daniel Soranz, que decidiu trocar o jaleco da diplomacia pelo figurino de comentarista ácido das redes sociais.
Em postagem, Soranz classificou parte dos manifestantes como “uma meia dúzia de idiotas, sem empatia alguma”. A frase, que poderia facilmente figurar em um manual de como incendiar uma categoria profissional em poucas palavras, caiu como gasolina sobre o fogo das reivindicações.
O protesto e a reação
Segundo o Sindicato dos Médicos, cerca de 100 profissionais participaram do ato. O secretário, no entanto, enxergou apenas “30 médicos de família” e acusou o sindicato de inflar números e dramatizar a situação. Para ele, pedir reajuste em meio aos estragos das chuvas seria “desumano”. Já para os profissionais, desumano é trabalhar sem remédios, sem segurança e sem reajuste há seis anos.
Pedro Varjão, diretor de comunicação do sindicato, ironizou a postura do secretário: “Sempre que vamos a uma reunião, ele nos chama de ‘idiotas’, ‘vagabundos’ e usa palavras de baixo calão”. É quase um stand-up de ofensas.
Greves e paralisações
Enquanto Soranz minimiza, a realidade não dá trégua: enfermeiros estão em greve parcial desde o dia 2, médicos mantêm paralisação de nove dias e o atendimento segue capenga. Mas, segundo o secretário, “todo mundo está trabalhando” — talvez em um universo paralelo onde farmácias não estão desabastecidas e equipes não atendem mais de 4 mil pacientes cada.
As reivindicações
Entre os pedidos, os profissionais exigem:
– Reajuste salarial após seis anos de congelamento.
– Pagamento da parte variável do salário, prometida e não cumprida.
– Abastecimento de medicamentos básicos como dipirona e insulina.
– Protocolos de segurança contra agressões.
– Redução da sobrecarga de equipes.
O retrato da crise
Enquanto a prefeitura insiste que tudo funciona, médicos e enfermeiros relatam filas, falta de remédios e agressões sem resposta. O dissídio coletivo promete levar as queixas à Justiça, mas, por ora, o embate segue nas ruas e nas redes sociais — com o secretário preferindo o teclado às negociações.
No fim, o episódio escancara a distância entre quem administra e quem atende. Soranz chama de “idiotas” os que protestam; os profissionais chamam de “desumano” o descaso. E o cidadão, que só queria um remédio para pressão ou um atendimento digno, fica no meio desse teatro tragicômico, sem aplausos e sem solução.



