Para o clínico geral do Hospital Sírio-Libanês, Dr. Alfredo Salim Helito, o baixo desempenho no ENAMED expõe a fragilidade da formação médica no país e ajuda a explicar por que tantos profissionais evitam a residência e entram precocemente no mercado.
A primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) acendeu um alerta no país. O levantamento avaliou centenas de cursos e revelou que uma parcela expressiva das faculdades de medicina teve desempenho considerado insatisfatório. Em paralelo, outro dado preocupa entidades médicas: o número de vagas de residência é insuficiente para absorver todos os formandos, o que faz com que muitos médicos iniciem a prática sem especialização. Para o clínico geral do Hospital Sírio-Libanês, Dr. Alfredo Salim Helito, o resultado do exame apenas confirma um problema antigo – e grave – na formação médica brasileira. Em entrevista, ele faz críticas duras ao modelo atual de ensino, à abertura indiscriminada de faculdades e aos atalhos adotados por parte dos recém-formados.
O ENAMED revelou que uma parcela significativa das faculdades de medicina tem desempenho muito abaixo do esperado. O senhor diria que o exame apenas confirmou um problema que já era conhecido dentro da medicina?
Sem dúvida. Esse volume excessivo de faculdades abertas em locais sem estrutura adequada, sem corpo docente qualificado e sem campos de estágio consistentes já apontava para um mau desempenho. O resultado do ENAMED apenas confirmou algo que, dentro da medicina, já era amplamente previsto.
Quando uma faculdade recebe nota 1 ou 2, o que isso significa, na prática, para a formação clínica desse futuro médico e para a segurança do paciente?
Significa que, mesmo sendo uma prova teórica, sem avaliação prática, com questões básicas, alunos prestes a se formar não demonstram domínio mínimo do conhecimento necessário para lidar com a medicina no dia a dia. Ao se formar, esse profissional recebe um CRM e passa a ter poder de decisão sobre a vida das pessoas. Isso é extremamente grave. Se o modelo da prova é o melhor possível é discutível, mas o fato é que, mesmo em uma avaliação teórica considerada acessível, muitos alunos não conseguem demonstrar conceitos fundamentais.
Há quem diga que hoje temos um excesso de médicos no Brasil. O problema é quantidade ou qualidade?
O problema central é qualidade e distribuição. Temos, por exemplo, seis faculdades de medicina em Manaus, mas a maioria dos formados permanece nos grandes centros. Regiões do interior, Norte e Nordeste continuam com carência de profissionais – principalmente por falta de estrutura de trabalho. Muitas faculdades privadas foram abertas com o argumento de suprir essa deficiência, mas são caras e frequentadas por alunos de alto poder aquisitivo, que dificilmente irão atuar em áreas remotas ou carentes.
Muitos recém-formados optam por não fazer residência. Isso é reflexo da formação, do sistema ou de uma cultura de atalhos?
É um conjunto de fatores. Primeiro, há alunos que entram na medicina sem ter clareza do que desejam fazer. Segundo, menos de 20% dos formados conseguem vaga em residência hoje no Brasil. Antigamente era difícil entrar na faculdade, mas havia mais acesso à especialização. Hoje ocorre o inverso: entrar na graduação ficou mais fácil, mas a residência tornou-se muito mais disputada. Soma-se a isso a busca por atalhos – abrir consultório sem formação adequada, atuar em áreas sem respaldo científico ou priorizar o lucro antes da boa prática médica.
Um médico que sai da faculdade sem residência está preparado para atuar como generalista?
Os profissionais formados em faculdades que tiveram desempenho muito baixo no ENAMED – ou mesmo no ENADE – provavelmente não têm a menor condição de atuar como médicos. É uma afirmação dura, mas necessária, porque estamos falando de alunos que não demonstram domínio mínimo do conhecimento básico ao final da graduação.
Por outro lado, é importante diferenciar. Jovens médicos que se formam em boas escolas, que tiveram estrutura adequada, são estudiosos, têm bom senso e responsabilidade, podem sim iniciar a vida profissional como generalistas, especialmente na atenção primária.
Qual deve ser a punição para faculdades com nota baixa no ENAMED?
É uma questão delicada, porque há alunos ali que podem ser bons, mas não tiveram formação adequada. Na minha opinião, o vestibular dessas instituições deveria ser suspenso até que comprovem melhora estrutural e pedagógica. Não se trata de fechar a faculdade, mas de exigir qualidade. Inclusive com impacto econômico, já que essas instituições sobrevivem das mensalidades.
O MEC falhou ao permitir a abertura indiscriminada de faculdades?
Na minha visão, sim. Não ficou claro se houve critérios técnicos rigorosos — como hospital-escola estruturado, qualidade docente e capacidade assistencial. Muitas aberturas tiveram mais cheiro de decisão política do que de planejamento educacional.
Plantões exaustivos e mal remunerados também fazem parte desse cenário?
Fazem, e comprometem o sistema. Há médicos sobrecarregados, mal pagos e oferecendo atendimento de baixa qualidade. Outros seguem o caminho comercial, atuando em áreas sem reconhecimento científico – terapias hormonais indiscriminadas, chips, procedimentos estéticos sem base médica. É uma medicina voltada ao lucro, não à saúde.
Se pudesse resumir, qual é o maior erro do modelo atual de ensino médico?
A formação de baixa qualidade em muitas instituições. Estamos formando profissionais sem preparo adequado para atender as reais necessidades da população brasileira, especialmente na atenção primária.
O senhor está otimista ou pessimista com o futuro da medicina brasileira?
Temos centros de excelência e uma medicina de altíssimo nível no país, comparável às melhores do mundo. Mas ela é pouco acessível. Quando olhamos para a formação massiva de profissionais mal preparados, sou extremamente pessimista quanto à assistência médica oferecida à população em geral.
Alexandre Hercules é editor-chefe do portal Brazil Health (www.brazilhealth.com)



