Como um palácio fortificado, que atravessou séculos de guerras e crises, pôde amanhecer vazio sem que ninguém ouvisse um único alarme? Há 49 anos, no dia 1º de fevereiro de 1976, o Palácio dos Papas, em Avignon, na França, acordava diante de um dos episódios mais enigmáticos da história da arte: o desaparecimento de 119 obras de Pablo Picasso, retiradas durante a madrugada sem sinais de arrombamento ou perseguição.
O primeiro a perceber o roubo foi um guarda que iniciava o turno nas primeiras horas da manhã. Ao abrir a Capela Maior, encontrou apenas ganchos vazios e paredes limpas. Na noite anterior, ali estavam expostas obras do último período criativo de Picasso, produzidas entre 1970 e 1972, atendendo a um desejo do próprio artista, manifestado pouco antes de sua morte, em 1973.
Um crime silencioso e calculado
A investigação da polícia judiciária francesa indicou que o assalto foi executado com precisão. Segundo relatos publicados à época pelo jornal Le Monde, três homens permaneceram escondidos no palácio após o fechamento, renderam funcionários sob ameaça de armas e tiveram acesso irrestrito à capela. As pinturas foram retiradas das molduras, dobradas e colocadas em uma van estacionada do lado de fora. Algumas chegaram a ser deixadas para trás por falta de espaço.
O impacto do caso foi imediato. Em 3 de fevereiro de 1976, a agência EFE noticiou no jornal espanhol La Vanguardia que as obras estavam avaliadas em cerca de 140 milhões de pesetas, ressaltando a dificuldade de revendê-las, já que todas eram catalogadas internacionalmente. O roubo expôs um paradoxo que persiste até hoje: Picasso é o artista mais roubado do mundo, mas suas obras são valiosas demais para circular livremente no mercado ilegal.
Com o avanço das apurações, a polícia descartou a hipótese de roubo por encomenda e ligou o crime à máfia corsa. A conclusão foi de que as pinturas não seriam vendidas, mas usadas como moeda de troca em operações ilícitas. O caso foi solucionado oito meses depois, em uma operação disfarçada digna de um thriller policial. As obras — 118 ou 119, segundo diferentes fontes — foram recuperadas intactas em uma área rural próxima a Marselha.
Hoje, parte desse acervo integra o Museu Picasso, em Paris, incorporado ao patrimônio público francês após acordos ligados ao imposto de herança. Quase meio século depois, o roubo de Avignon segue como um marco histórico: não apenas pelo tamanho do saque, o maior em tempos de paz, mas por revelar que, mesmo no submundo do crime organizado, a arte pode se transformar em um peso impossível de carregar.



