O estopim da revolta
O governo Lula conseguiu o que parecia impossível: unir diferentes categorias do serviço público em uma mesma indignação. Técnicos-Administrativos em Educação (TAEs), engenheiros, arquitetos, geólogos e até associações de auditores e analistas tributários agora marcham sob a mesma bandeira: a sensação de terem sido enganados. O Projeto de Lei 6.170/2025, que deveria ser a grande reestruturação das carreiras federais, virou sinônimo de retrocesso e descumprimento de acordos.
A pressa que atropela
O texto chegou à Câmara em dezembro, mas com o recesso parlamentar, só será analisado até o fim de fevereiro. Em regime de urgência, o projeto corre para ser votado antes de 1º de março, quando passa a trancar a pauta do Plenário. O governo quer tudo pronto para abril, como quem tenta empurrar goela abaixo uma reforma que mexe com milhares de servidores sem dar tempo para respirar.
Acordos jogados no lixo
Sindicatos como SINASEFE e FASUBRA acusam o Executivo de rasgar compromissos firmados durante a greve de 2024. O artigo 2º, que trata do Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC), é apontado como um golpe baixo: em vez de valorizar os TAEs, o governo teria rebaixado conquistas históricas. Para os servidores, é como se o governo tivesse assinado um contrato e, na hora da entrega, trocado o produto por uma versão pirata.
Carreiras ignoradas
Enquanto algumas áreas recebem cargos novos e gratificações, outras foram simplesmente esquecidas. Engenheiros, arquitetos e geólogos denunciam que o projeto aposta na “generalização e precarização institucional”, ignorando carreiras estruturadas por lei. A sensação é de que o governo distribui cargos como quem joga confete, sem critério ou valorização real.
Mobilização e pressão
A insatisfação já se transformou em movimento político. Entidades como ANFIP e Sindireceita articulam emendas e pressionam deputados para barrar ou modificar pontos cruciais. A Câmara, que deveria ser palco de deliberação, promete virar arena de guerra sindical.
O pacote de cargos
Apesar da polêmica, o projeto cria 9.653 novos cargos de analista técnico executivo, além de milhares de vagas para professores, técnicos e analistas em educação, e especialistas da Anvisa. Para o governo, é modernização. Para os servidores, é maquiagem: números que escondem a falta de valorização das carreiras já existentes.
Plantões, telemedicina e contratos relâmpago
Entre as novidades, estão regimes de plantão de até 24 horas, perícias médicas por telemedicina e flexibilização de contratações temporárias. O discurso oficial fala em eficiência e modernidade. Os críticos chamam de precarização institucionalizada.
O veredito dos servidores
No fim das contas, o PL 6.170/2025 virou símbolo de frustração. Para os servidores, é a prova de que o governo não honrou compromissos e ameaça conquistas históricas. Para o Congresso, é uma bomba-relógio que precisa ser desarmada até março. Para Lula, é mais uma crise para administrar — e desta vez, com milhares de funcionários públicos prontos para transformar insatisfação em resistência.
2026-01-19 00:00:00



